O médico Rivaldo Mendes de Albuquerque, 51, professor de ciências médicas da Universidade Estadual de Pernambuco, foi um dos profissionais que interromperam a gestação da menina de 9 anos, grávida de gêmeos.
 
Católico praticante, todo domingo ele pode ser encontrado na missa, aonde vai para pedir “luz e compreensão“. Sobre a excomunhão decretada por dom José Cardoso Sobrinho, o médico disse: “Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus seis anos“.
 
Segue a entrevista que Rivaldo Mendes de Albuquerque concedeu a Laura Capriglione e está publicada no jornal Folha de S. Paulo, 06-03-2009.
 
Como um católico praticante recebe a excomunhão?
Com tristeza. Mas não foi a primeira vez. Quando o serviço de atendimento a mulheres vítimas de violência sexual da Universidade Estadual de Pernambuco foi inaugurado, em 1996, o mesmo dom José Cardoso Sobrinho nos excomungou a todos, porque o serviço, entre outros atendimentos, realiza as interrupções de gestação nos casos previstos em lei.

Então a pergunta é: como um católico faz abortos, apesar da proibição religiosa?
Primeiro, é preciso que fique claro. Não foi Deus que proibiu a interrupção da gestação em qualquer caso. Foram os homens da Igreja. E eles erram -já queimaram gente viva em praça pública, não se esqueça. Quando comecei a trabalhar neste programa, conversei com minha mãe, então com 80 anos, católica praticante. Perguntei se me condenaria por interromper a gestação de mulheres estupradas. Ela me disse que não. Que, se fosse com ela, gostaria de encontrar um médico compassivo com sua situação. A mesma pergunta fiz à minha mulher – mesma resposta. Tenho duas filhas. O que faço por outras mulheres é o que eu gostaria que fizessem pelos meus entes queridos se com eles ocorresse uma tragédia dessas.
 
Dom José Cardoso Sobrinho falou com alguém da equipe?
Não. Ele se dirigiu apenas ao reitor da universidade, o professor Carlos Calado. Mas, se tivesse falado com alguém da equipe, o procedimento adotado teria sido o mesmo. Nós não recebemos um único centavo a mais para fazer esse tipo de intervenção. Fazemos pelo respeito que uma mulher vítima de violência merece, e que o arcebispo, infelizmente, trata sem nenhuma misericórdia. Veja que curioso: quem nos condenou à excomunhão não proferiu uma só palavra dirigida ao homem que estuprou essa criança. Para dom José Cardoso Sobrinho, a única coisa que conta é o Direito Canônico [o manual de normas da Igreja Católica]. Falta-lhe coração. Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com uma criança inocente.
 
Como é a menina?
Típica vítima da miséria. A mãe pensava que a barriga era decorrência de vermes, por isso não tomou providências antes. É uma criança desnutrida, que ainda brinca com boneca.