kollwitz_prisonersPartindo da frase de Heráclito: Physis kryptesthai phileî, nos aponta o pensamento para a compreensão da natureza mesma do ser, onde o “surgir favorece o desenvolvimento do encobrir, e o encobrir favorece o surgir”. Surgir e encobrir favorecem-se mutuamente, cada qual possibilitando o outro.

O fragmento de Heráclito promove a circularidade do “aparecer”, “gostar”, “encobrir”, e só através dessa relação é que conseguimos compreender o alcance desse fenômeno originário.

Heráclito Insiste no mistério, pois quem se “encobre” é o próprio “surgir”, em sua ação de surgimento. Deste modo para Heráclito o “surgir” e o “encobrir”, são duas perspectivas diferentes de um mesmo fenômeno. Neste enigma, o pensamento é o próprio obscurecimento e clareamento constitutivo do Real. E, a essência da physis é exatamente o não-encobrimento. Heráclito diz exatamente o contrário: o surgir favorece seu encobrir-se e, assim procedendo, reforça sua “essência” de surgimento, onde, contrariando a dialética Hegeliana, que tem uma direção progressista, em Heráclito os movimentos opostos revolvem-se um no outro sem se resolverem num terceiro. O pensamento de Heráclito não almeja o brilho dialético do progresso, por isto o surgir da “physis” é o princípio, a força de todo aparecer, o que se encobre no surgimento que constitui a “physis”. Ou seja, a “physis” torna-se como o vento que, quando sopra, deixa sua presença em toda a natureza ainda que ele mesmo, o vento, nunca se deixe apreender.

Já o ser é magnânimo e se resguarda, ou seja, se guarda de sua possibilidade de dar! É dando-se que o ser acontece. Bem como, o ser possui uma grande alma porque tudo anima com seu sopro vital e desta forma presenteia, fazendo o mundo presente através da doação de si mesmo. Isso é o seu Poder – o poder de dar (se dando). Essa virtude se complementa, no entanto, pela humildade com que ele se dá. O ser não faz questão de aparecer. E, ao longo da modernidade, o resguardo do ser tem se acentuado. O ser se guarda cada vez mais, protegendo sua verdade das verdades que a todo instante surgem, onde o próximo torna-se cada vez mais distante. E o retirar-se significa seu fortalecimento. É desse movimento espiralado que o homem retira a ilusão de que sua força é ilimitada.

Esplendor da junção (alétheia e ocaso):

O ser é o que, mesmo ocultando-se, nunca se declina porque é sempre presente na ausência-presente de si mesmo. A predominância do surgir no sentido geral do ser torna luminosa a junção em que surgir e encobrir confluem, cada qual se arrastando contínua e essencialmente ao seu contrário.

O ser significa emergir, sair do oculto. Sair do encobrimento, o ser é o sair. O brotar é sempre um desvelar-se, um vir à tona através da profundeza de si mesmo. Essa verdade originária, a junção desveladora do encoberto com o seu aparecer, os gregos chamavam de “alétheia”, que é o momento em que o dia emerge da noite: a luz já aparece, mas o manto da noite ainda se faz presente. Como instante originário do aparecimento. “Alétheia” é a essencialização da “physis”, a natureza nascendo, naturando-se. Deste modo, “Physis” e “alétheia” referem-se a um mesmo fenômeno: a essência do aparecimento. O abrir-se originário, o desvelar-se primordial, o luzir da totalidade dos fenômenos. Se “alétheia” é o instante do descobrimento, seu “reverso” é o momento em que o descoberto se recolhe ao pouso de seu abrigo, agora assistimos ao brotar do encobrimento.

A essência do mistério:

A natureza do ser: a verdade do ser em seu vir-a-ser é o mistério do homem, onde “Alétheia” e “physis”, são o descobrir que, em seu surgimento, guarda o coberto de sua proveniência. Aqui o mistério é o oculto que se mostra, pois em todo mistério há de ter o claro e o escuro.

No mistério, o inalcançável tem uma face visível que torna presente a sua ausência, sem eliminá-la. Deste modo, o mistério é o ausente-presente, e, não constitui “um outro”, separado do que se revela. Daí, o oculto será o próprio que se irá mostrar e o ausente será aquele que se apresentará como ausente. No mistério seta sempre presente o inatingível, o ausente à percepção do pensamento.

Aqui está a essência do mistério: ser descoberto no encoberto, onde o pensamento, diante do mistério, se entrega ao espanto do maravilhoso. Misterioso é o ente, o real. O mundo. Qualquer coisa, na simplicidade complexa de sua unidade. O ser.