A crucificação altar ortodoxo grego coloca o local exato da crucificação. Um disco de prata com um furo central, debaixo do altar, marca o ponto da rocha onde estava a cruz; peregrinos ajoelhar e beijar no local, como pode ser visto abaixo. Os ícones de prata da Virgem Maria e São João estão do lado de Jesus.

A crucificação: Altar Ortodoxo Grego. Local exato da crucificação. Os ícones de prata da Virgem Maria e São João estão do lado de Jesus. Santo Sepulcro, Jerusalém, Israel.

Numa leitura apurada no Evangelho de São João no que diz respeito a Nossa Senhora, observamos que o apóstolo se encontra em situação privilegiada, pois Jesus Cristo o confia ao cuidado de Sua Mãe quando está para morrer na cruz. Maria, estará desde então a seu lado. A João, como a nenhum outro, pôde falar a Santíssima Virgem de tudo aquilo que guardava em seu coração cf. Lc 2,51: “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração”.

Em Maria, o Verbo se fez Carne. O próprio Filho Eterno do Pai faz-Se Filho do Homem, para que assim os filhos dos homens cheguem a ser filhos de Deus. O Canto de Consolação de Isaías, já previra, cf Is 40,1-11.

Este canto fala da vinda de Deus aos que sofriam, pois Deus guiaria pessoalmente o Seu povo num novo êxodo para a Terra Prometida. Ao dizer que o Verbo se fez carne, a figura da Mãe de Deus oculta-se discreta entre linhas. É o papel ordinário de Maria no Evangelho: passar despercebida, especialmente nos momentos de glória do Filho. Depois, participará do triunfo glorioso de Cristo, e será também São João que irá descrever a Mãe de Jesus com todo esplendor. Cf. Ap 12,1: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas”.

Deste modo, o evangelista, em Jo 2,1-11, narra a Bodas de Caná, e em 19,25-27 a presença de Maria no Calvário. Estes relatos tem em si um claro paralelismo. Tanto em Caná como no Calvário, se fala da hora de Jesus. No primeiro caso, como de algo que ainda não tinha chegado, e, no segundo, como de uma realidade já presente.

Em Caná, Jesus diz a sua mãe: “ainda não chegou a minha hora”, expressão que se repete ao longo do Evangelho: Em Jo 7,30: “Procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora”. Bem como em Jo 8,20: “Estas palavras proferiu Jesus ensinando no templo, junto aos cofres de esmola. Mas ninguém o prendeu, porque ainda não era chegada a sua hora”. Ainda em Jo 12,27: “Presentemente, a minha alma está perturbada. Mas que direi?… Pai, salva-me desta hora… Mas é exatamente para isso que vim a esta hora”. E, em Jo 13,1: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou”. Concluindo em Jo 17,1: “Jesus afirmou essas coisas e depois, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho glorifique a ti”.

O que à primeira vista aparece no relato das bodas de Caná é a delicada caridade da Virgem e a sua fé absoluta no poder de Jesus. Maria intervém aqui, tal como no Calvário, intimamente vinculada à Redenção messiânica.

Jesus ao converter em vinho a água destinada às purificações rituais dos judeus, insinua o começo dos tempos messiânicos. O vinho simboliza nos oráculos proféticos os tempos do Messias, quando os lagares estarão repletos de bom vinho, cf. Am 9,13ss: “13Eis que vêm dias – oráculo do Senhor – em que seguirão de perto o que planta e o que colhe, o que pisa os cachos e o que semeia; o mosto correrá pelas montanhas, todas as colinas se derreterão.14Restaurarei então o meu povo de Israel: reconstruirão as cidades devastadas e as habitarão; plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão os seus frutos.15Implantá-los-ei no seu solo, e não serão mais arrancados da terra que lhes dei – oráculo do Senhor, teu Deus”.

Também, conforme Jl 2,24: “As eiras se encherão de trigo, os lagares transbordarão de vinho e de óleo novo”. E, Jl 4,18: “Naquele dia, as montanhas destilarão vinho, o leite manará das colinas; todas as torrentes de Judá jorrarão; uma fonte sairá do templo do Senhor para irrigar o vale das Acácias”. Diz Isaías, no Monte Sião se celebrará: Is 25,6: “O Senhor dos exércitos preparou para todos os povos, nesse monte, um banquete de carnes gordas, um festim de vinhos velhos, de carnes gordas e medulosas, de vinhos velhos purificados”.

O próprio Jesus fala, cf Mt 26,29: “Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai”.

E contrapõe, cf Mc 2,22: “E ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho os arrebentará e perder-se-á juntamente com os odres mas para vinho novo, odres novos”.

O banquete das Bodas de Caná evoca o banquete do casamento de Yahweh com a Filha de Sião, cf. Is 54,4-8: “4Nada temas, não serás desapontada. Não te sintas perturbada, não terás do que te envergonhar, porque vais esquecer-te da vileza de tua mocidade. Já não te lembrarás do opróbrio de tua viuvez, 5pois teu esposo é o teu Criador: chama-se o Senhor dos exércitos; teu Redentor é o Santo de Israel: chama-se o Deus de toda a terra. 6Como uma mulher abandonada e aflita, eu te chamo. Pode-se repudiar uma mulher desposada na juventude? – diz o Senhor teu Deus. 7Por um momento eu te havia abandonado, mas com profunda afeição eu te recebo de novo. 8Num acesso de cólera volvi de ti minha face. Mas no meu eterno amor, tenho compaixão de ti”.

Ainda, cf. Is 62,4-5: “4não mais serás chamada a desamparada, nem tua terra, a abandonada; serás chamada: minha preferida, e tua terra: a desposada, porque o Senhor se comprazerá em ti e tua terra terá um esposo; 5assim como um jovem desposa uma jovem, aquele que te tiver construído te desposará; e como a recém-casada faz a alegria de seu marido, tu farás a alegria de teu Deus”.

 Assim como o casamento de Cristo com a Igreja significam a Nova Aliança, cf Ef 5,25: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

O quarto Evangelho contempla a Maternidade divina de Maria em toda a sua plenitude, sendo Mãe não só da cabeça, mas também de todos os membros do Corpo Místico de Cristo. Em vez do nome de Maria, no quarto Evangelho utilizam-se os títulos “Mãe de Jesus” e de “Mulher”, que tem um significado peculiar, relacionado com a sua maternidade espiritual.

Se Maria é Mãe de Jesus é Mãe espiritual de todos os crentes. A palavra Mulher, tem origem no proto-evangelho, onde fala do triunfo da mulher e da sua linhagem sobre a serpente. Cf. Gn 3,15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar”.

O paralelismo entre Eva e Maria, semelhante ao que se dá entre Adão e Cristo. Cf Rm 5,12-14: “12Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram…13De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. 14No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir)”.

 Nossa Senhora cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade. É por esta razão nossa Mãe na ordem da graça. Ela continua no céu a exercer a sua missão maternal com os membros de Cristo, pela qual contribui para gerar e aumentar a vida divina em cada uma das almas dos homens redimidos.

Já dizia Orígenes:”Atrevemo-nos a dizer que a flor das Escrituras são os Evangelhos e a flor dos Evangelhos é o de João. Mas ninguém saberá compreender o seu sentido se não repousou no peito de Jesus e recebeu Maria como Mãe”.

Recebemos pelo Batismo, pela participação na Morte e Ressurreição de Cristo, (cf Rm 6,1-14), o dom da filiação divina, mas para chegar a viver esta identificação com Jesus “é preciso unirmo-nos a Ele pela fé, deixando que a Sua vida se manifeste em nós, de maneira que se possa dizer que cada cristão é, não já o próprio Cristo!” José Maria Escrivá.