13Ct 2,9-10: “9Meu amado é como a gazela e como um cervozinho. Ei-lo atrás de nossa parede. Olho pela janela, espreito pelas grades. 10Meu bem-amado disse-me: Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha”.

Partindo do Livro do Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento, cuja inspiração literária, é um poema de amor, podemos observar na sua leitura, que não há conexão com a teologia, parece um texto mundano. É aparentemente a história de uma jovem levada ao harém do rei Salomão, mas fiel a quem está prometida em casamento, que vem e a chama, que a salva da sua escravidão dourada e a restitui à liberdade e ao seu país natal.

No meio do harém do rei Salomão, com muitas diversões, a jovem consegue ouvir a voz do namorado, que está do lado de fora da parede, que fala suavemente pela janela (é a voz do amado). Numa contemplação desta cena, podemos saborear a voz de Cristo falando ao nosso coração, no burburinho do dia a dia (como se tivéssemos no mesmo burburinho do harém).

Ainda, comparando a cena, do amado com a amada, podemos por um momento, ter uma sensação visual quando olhamos a Hóstia consagrada exposta no ostensório, onde comparamos a “janela” do harém, com nossos “olhos”, uma janela que dá acesso a um mundo espiritual situado fora de nossa experiência humana. Ou seja, a luz que vem do alto, Luz de Deus, penetra em nossa mente e pela nossa fé, somos inundados pelo amor de Deus. E, o que vemos, não é um pão, mas Corpo, Sangue, Alma, Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo.

Deste modo, em nossa vivência hodierna, levantamos um muro contra Deus, desde Adão até nossas escolhas deliberadas, onde assumimos em nossa própria vida a herança do pecado. Nesse muro, a Encarnação e a Paixão de Jesus Cristo abriram uma grande janela, cf. nos confirma Paulo em Ef 2,14: “Porque é Ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava”. Desta forma, unindo, o nosso mundo de pecado (o mundo da visão e dos sentidos) ao mundo espiritual, deixa entrar em nós, a “luz” na nossa prisão. “Deixa a luz do céu entrar…”

O que Jesus quer de nós, são os nossos corações, para que no meio das vaidades mundanas, possamos ver às alegrias e olhar às coisas em outra perspectiva. Temos que desprender-nos das coisas do mundo, e o meio que Ele emprega para isso é a Sagrada Eucaristia. Remédio que permite à alma debilitada olhar firmemente para a luz divina, respirar profundamente o ar desconhecido.

Então perguntamos: Porque temos tanta relutância em comungar? – Será que estamos ocupados demais com as preocupações do mundo? Nós católicos, tendemos a esquecer a comunhão exatamente na época que mais precisamos dela: Na nossa juventude; porque será assim? – Será que quando jovens, estamos mais apegados as paixões desordenadas?

E, nós, que comungamos com freqüência, não notamos diferença para melhor e continuamos cheios de maus hábitos. Comportamos-nos na Igreja, como santos, mas no mundo como os que são do mundo, talvez até piores dos que aqueles que nem a Igreja vai. Não será que estamos fugindo do ato de confiança que nos levaria a se comprometer neste encontro com o Ressuscitado? Ou será que não queremos que a participação efetiva na Eucaristia nos afaste dos atrativos do mundo? – Não podemos esperar que o Salvador opere em nós as maravilhas da sua graça, se nos opomos à sua ação com a teimosia das nossas vontades.

Então, assim como no Livro do Cântico dos Cânticos, possamos ter este olhar ao amado que nos chama, vem.

Jesus Cristo está presente na Eucaristia de modo único e incomparável. Está presente, com efeito, de modo verdadeiro, real, substancial: com o seu corpo e o seu Sangue, com a sua Alma e a sua Divindade” – Compêndio, 282

Referência: Knox, R., Reflexões sobre a Eucaristia, trad. de Emérico da Gama e Roberto Vidal Martins, Quadrante, São Paulo, SP, 2005.