A Escatologia se refere, como se diz seu próprio nome, às coisas últimas. Onde, o último, porém revela-se não somente o fim, mas também a integralidade (de forma completa). A Escatologia se torna assim a consciência crítica da Teologia, de uma Teologia que, ocupando-se do homem e do mundo, da história e da realidade, de Jesus Cristo, de Deus e da Igreja, nunca deve perder de vista o todo.

Daí, perguntamos: Em que sentido se pode mesmo falar daquilo que é definitivo? – Todo discurso de cunho escatológico é legítimo somente sob a condição de que se possa demonstrar a possibilidade do homem falar sobre Deus. Deve-se, portanto reconhecer também os claros limites da Escatologia. E, o seu discorrer sobre aquilo que é definitivo há de ser sempre também um discurso provisório.

A Escatologia se ocupa com aquilo que é definitivo sob o sinal do provisório. Esta tensão entre o provisório e o definitivo deriva da própria natureza da Escatologia e da Teologia. Não seria justamente contraditório um discurso definitivo sobre aquilo que é definitivo? O definitivo, quando se mostra, quando está presente, não necessita mais de palavra nenhuma. O tempo dos discursos, da fé e da graça já passou. Este enunciado (sobre o tempo) se insere também no modo bíblico de entender o Logos (Verbo de Deus), aquele que sendo o Protos e Eschatos, é igualmente o Soberano e o Dispensador de todos os tempos, cf. Jo 1,1: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. Ap 1,8: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que vem, o Dominador”. Ap 21,6: “Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva”.

Assim, a tarefa teológica, que a Escatologia é chamada a absolver, está no seguinte esquema: de um lado a contínua experiência humana da provisoriedade e de outro o discurso teológico sobre o definitivo. Podemos fazer o seguinte questionamento: Se a Escatologia se refere a um futuro radicalmente inacessível, como poderá ainda falar de uma base experiencial dos enunciados teológicos? – De que modo o conceito “definitivo” toca a experiência humana?

Sabemos todos que a experiência da morte representa um dos motivos fundamentais, se não o principal, do problema escatológico. A morte não fala e não deixa falar. Aquele que a experimenta, cala-se para sempre. Ninguém está em condição de falar da morte por experiência pessoal, e não obstante, sabem todos que um dia terão de experimentá-la, embora não saibam o que significa experimentar a morte.

Por isto que, uma Escatologia, que pretenda desenvolver-se não levando em conta a experiência da morte, ou mesmo contestando-a, condena-se a si mesma. Então, perguntamos, se a morte deve ou não ser considerada como fim de todas as coisas? – A morte deve ser concebida como um ato que Deus intencionou e ao mesmo tempo como um “não” radical afirmado contra Ele, e atinge seu apogeu teológico quando se reflete sobre aquilo que definitivamente sucede naquilo que contradiz a Deus. E, podemos refletir sobre aquilo que Deus mesmo se torna após a morte? Sabemos, do conceito metafísico que a morte, com efeito, não consegue tocar  Deus nem de leve. E, o Deus crucificado? E a realidade da cruz? O que pensamos dizer quando qualificamos o Crucificado como o Ressuscitado? Todas essas perguntas surgem quando se analisa a experiência do caráter definitivo da morte e que nos auxiliam a precisar melhor a função e a tarefa que uma Escatologia cristã deve desempenhar.

A vida humana se baseia em uma realização de possibilidades durante o processo da opção e da perda. Em geral, tende-se a ilustrar a impotência do homem à luz do fenômeno do futuro. Sabe-se muito bem, com efeito, que aquilo que foi não admite mais nenhuma modificação. Isto quer dizer que o homem experimenta a morte não só na perspectiva daquilo que deve ainda acontecer, mas sempre também como uma perda de liberdade e possibilidades já verificadas no passado. Experimenta-se então uma contradição, aquela que transparece a partir das obras produzidas pelo homem poderia levar-nos a um modo de entender a Escatologia segundo o qual Deus, nas vestes de juiz, outra coisa não faria senão um balanço, colocando um ponto final. Mas, essa perspectiva ainda não conseguiria exprimir de modo suficiente amplo o efetivo estado de coisas. Pois, cremos no poder de um Deus, capaz de perdoar os pecados e ressuscitar os mortos, gestos nos quais se manifesta aquele Deus que concede a liberdade a um homem que, com suas obras, a perde e anula.

No decorrer dos acontecimentos mundanos o homem esbarra com outra figura de definitividade e mostra que a experiência da definitividade autêntica da história implica igualmente a do tempo, entendido como dimensão orientada para um termo final. Parece, com efeito, que tudo aquilo que existe tem o seu tempo próprio. Deste modo, a tarefa específica, que compete a uma escatologia cristã, não pode consistir em desnaturar a definitividade que se delineia no curso dos acontecimentos; deverá antes assumi-la seriamente em seu caráter de in-decisão e contraste, deverá confrontar-se também com a vontade definitiva de Deus.

Uma escatologia que conceba o eschaton como simples prolongamento cristão da morte biológico-clínica, corre o perigo de desvirtuar ou trair os próprios traços específicos do cristianismo e da escatologia cristã. Somente uma escatologia cônscia das possibilidades e limites, tanto da como também da realidade em que vive a fé, terá condições para oferecer uma resposta aceitável. A escatologia cristã representa somente uma voz no coro de todos aqueles que hoje falam do “último” ou “definitivo”.

 

Referência: Feiner J, Loehrer M., Mysterium Salutis, Do Tempo para a Eternidade, Volume V/3, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1985.