Para se chegar a um acordo sobre o significado do termo “escatologia”, é preciso antes de mais nada, não ceder à ilusão de que os diversos conceitos elaborados no decorrer da história possam ser reduzidos a um mesmo denominador comum.

O texto bíblico a que geralmente se recorre para ilustrar o conceito “escatologia” é Eclo 7,36 “Em todas as tuas ações lembra-te do teu fim, e jamais pecarás!”. Na Vulgata Eclo 7,40 “In omnibus operibus tuis memorare novíssima tua et in aeternum non peccabis”. A passagem do Sirácida denota um interesse pela conexão existente entre a conduta do homem e a situação de seu morrer, não pelo caráter autêntico e misterioso que a morte encerra. A citada passagem permanece fechada no âmbito de uma doutrina salvífica que tem por objeto a vida diante da morte; não se enquadra nessa perspectiva também uma vida além da morte ou uma vida que possa ultrapassar os limites impostos pela morte.

Surge então a pergunta: qual a relação entre a Escatologia e o Evangelho? Deve-se proceder com cautela, pois a Escatologia sempre correu o perigo de degenerar em fanatismo. Como inferimos da própria experiência histórica, fanatismo escatológico e heresia sempre andaram de mãos dadas. A sobriedade que o Sirácida mostra ao falar das realidades escatológicas representa, assim, um salutar e necessário corretivo.

O próprio conceito “escatologia” é de origem recente. Aparece pela primeira vez no Systema Locorum Theologicorum de Abraham Calov († 1686). Antes, a teologia patrística e escolástica não dispunha ainda de um termo tão amplo. Na sua obra principal, De Sacramentis Christianae Fidei, Hugo de São Vitor († 1141) focaliza os temas escatológicos sob os títulos De Fine Saeculi ou De Statu Futuri Saeculi. Tomás de Aquino († 1274), em seu Supplementum à Summa Theologica, expõe a escatologia no De Resurrectione; e Boaventura († 1274), no Breviloquium, fala dos éschata no De Statu Finalis Iudicii. Esses exemplos mostram profunda diversidade no organizar a temática escatológica.  Na teologia católica, e na luterana, acabou por se impor a denominação De Novissimis, enquanto a Dogmática da Reforma privilegiou o título De Glorificatione.  Nos séculos XIX-XX ela irá prevalecer sobre os termos empregados tradicionalmente, que continuarão, todavia em uso.

A introdução do termo “escatologia” no léxico teológico é agora um fato que não se pode ignorar. Com a introdução do termo, também se determinam amplificações, nem sempre intencionais, dos próprios conteúdos. Do ponto de vista da dogmática tradicional, o âmbito da pesquisa escatológica parecia rigidamente pré-fixado: abrangia desde o fim do homem e do mundo até os problemas sociais relacionados com esse fim. O novo termo apresentava a vantagem de se poder explorar, do ponto de vista metodológico, como um conceito mais amplo e geral, diversamente daqueles do passado que somente exprimiam puras designações de objetos.

O termo “escatologia” permite adjetivações, e, o uso lingüístico oferece também uma vasta possibilidade, de que não se dispunha antigamente. Já no Novo Testamento encontramos o adjetivo “éschatos”, que, no entanto desempenha uma função diversa daquele que hoje atribuímos ao nosso adjetivo “escatológico”. O “éschatos” qualifica os fenômenos dos últimos tempos como tais. Hoje, o termo “escatológico” é muitas vezes usado nesta acepção, mas não é este o seu sentido autêntico. Na sua acepção precisa, “escatológico” não se refere aos fatos do fim dos tempos como tais, mas qualifica uma relação ou uma referência a esses fenômenos. Aquele que fala de uma expectativa “escatológica”, não anuncia ainda o problema do que, em última instância, se espera. Qualificam-se como “escatológicas” as representações das “coisas últimas”, não as próprias coisas últimas. “Escatológicos” se dizem os meios lingüísticos, não os conteúdos que eles imediatamente qualificam.

A formação dos termos “escatologia / escatológico” leva a duas generalizações:

1. A idéia de que com o termo “escatológico”, a expectativa dos últimos tempos não representa algo de especificamente cristão. A escatologia cristã não pode fugir ao confronto com a ciência das religiões, dado que também ela aborda as diversas representações do além ou a idéia de imortalidade.

2. A formação dos termos “escatologia / escatológico” possibilitou que fossem usados como categorias teológicas gerais, e cujo vasto leque de conteúdos se estende desde a situação decisional, provocada por Jesus e pela proclamação da vinda do Reino de Deus (cf. escatologia existencial) e por uma fé projetada no rumo de uma realização das coisas últimas (cf. a escatologia “futurista”) até a escatologia de cunho secular, de marca judaico-cristã, da filosofia da história (cf. a escatologia “cosmológica” e “ontológica”).

Referência: Feiner J, Loehrer M., Mysterium Salutis, Do Tempo para a Eternidade, Volume V/3, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1985.