O movimento da Reforma é considerado, junto com o Renascimento, o prelúdio da Modernidade na Europa.

Como em muitos outros setores da teologia (eclesiologia, cristologia etc…), também na escatologia o período da Escolástica tardia marca um momento de inegável estagnação no desenvolvimento teológico. Percebemos, sobretudo a presença de uma ampla série de questões inúteis e artificiosas que fazem perder de vista as perspectivas fundamentais e típicas da teologia medieval. Certa mudança de rumo irá acontecer, no período da Reforma, com forte tensão apocalíptica. Martinho Lutero († 1546), na sua relação com a cristologia e a justificação deduz da experiência da ira e da graça divina um encontro pessoal com Cristo. Lutero sente na própria consciência, as labaredas do inferno, mas nem por isto renúncia a expectativa do último dia e do fim dos tempos. A consciência de experimentar, na morte de Cristo, o fim de sua própria existência, traduz-se diretamente na convicção de que já chegou o fim dos tempos. Mas, a ortoxia luterana vai seguir outros caminhos que não os esboçados pelo Reformador. Vão preferir seguir, os modelos fornecidos pela Escolástica e pela Escolástica tardia.

Somente João Calvino († 1564) conseguiu produzir um esboço da escatologia sistemática comparável ao da tradição. Vislumbra-se assim a ordem de sucessão, típica da Oração do Credo.

Para Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher († 1834), é a Igreja que se abre ao mundo, não o mundo que se restringe à Igreja. Na evolução da escatologia, vemos um interesse, mais acentuado, à época do pietismo[1], que irá demonstrar que a escatologia deriva antes de uma exigência particular que de uma compreensão do Evangelho, procurada segundo o espírito da Reforma. E, na época seguinte, a escatologia desaparecerá completamente de alguns manuais.

Na época do Iluminismo, a teologia conheceu o período áureo da teologia moral. As novas tendências influíram também sobre o modo de focalizar os éschata, agora considerados importantes por serem capazes de oferecer também a nós, vivendo no presente, interessantes estímulos para nosso comportamento moral. J. Schrott, em sua Teologia Moral, expõe a escatologia sob o título Doctrina motivorum pro voluntate hominis. Eis uma sentença bem conhecida e que ilustra muito bem a atitude então assumida em face dos temas escatológicos: “A revelação nos permitiu observar o futuro com tanta profundidade quanta exige a nossa moralidade”. Partindo das posições do humanismo iluminista, F. Oberthür († 1831), teólogo de Würzburg, tenta desenvolver uma escatologia católica, mas não consegue ir além de um “eudemonismo[2] individualista”. Quando a pessoa se mantém no leito das idéias humanísticas, o problema que mais se faz sentir e se debate com insistência é o das penas eternas do inferno.

A idéia de Reino implica necessariamente também uma dimensão escatológica: “Com essa idéia, a doutrina do cristianismo se torna a verdadeira história da reintegração de todas as coisas (celestes e terrestres) no Reino de Deus, no estado em que elas se achavam antes do pecado”.

A Escola romântica de Tübingen ofereceu alguns interessantes estímulos para uma nova localização da temática escatológica. Aqui o ponto de partida é a idéia do Reino de Deus e um modo idealista de compreender a história.

O certamente o mais decisivo aporte à reflexão sobre a escatologia nos é oferecido por Franz Anton Staudenmaier († 1856). Em sua obra A Dogmática Cristã aborda a temática escatológica sob o título Da Consumação Última da Igreja, e a compreende como parte da eclesiologia, por sua vez integrada na doutrina da redenção. Por esse motivo tudo não é senão desenvolvimento da redenção e daquilo que dela imediatamente procede ou que com ela mediatamente é colocado. Como o pecado e o Espírito, assim também a redenção é um princípio que plasma toda a história, dentro de um processo contínuo e progressivo de amadurecimento para a consumação definitiva. A vida a que se chegará ao Reino de Deus é a vida transfigurada, aquilo que a S. Escritura chama de vida real ou vida verdadeira.

A escatologia neo-escolástica foi capaz de sugerir, conforme procede de Matthias Joseph Scheeben († 1888), o Mistério da Transfiguração e das coisas últimas. Concebe-se assim a escatologia como teologia da transfiguração. É justamente este o sentido da verdadeira transfiguração, que não reside no fato de que as criaturas, as quais desenvolvem a força e o vigor escondidos na própria natureza, dariam forma à sua beleza, fariam resplandecer sua própria luz, porque então deveríamos dizer que o grão de mostarda se transfigura no esplendor da planta que dela se origina; mas no fato de serem penetradas de fora da natureza divina, pelo ardor desse fogo puríssimo, espiritual e celeste, de serem transformadas na imagem divina, para se tornarem capazes de irradiar em si mesmas e por si mesmas o divino esplendor e a luz de Deus.

A glorificação é a consumação. No mistério da transfiguração chega ao definitivo ápice toda a ordem sobrenatural do mundo, com os seus mistérios da graça divina e do pecado humano. Consumação última, são constituídos pelo mistério da encarnação: Mediante a encarnação todo o ser humano, assumido na pessoa do Logos, é elevado, amparado, penetrado e santificado pela divina pessoa; na pessoa absolutamente eterna do Filho de Deus. Também o corpo, nela assumido, é substancialmente chamado, interpelado, para que exista para toda a eternidade; mas com o corpo do próprio do Filho de Deus também os corpos n’Ele incorporados, os de todos os seus membros vivos. Em particular evidência se põe o caráter sobrenatural do acontecimento da ressurreição e transfiguração; o corpo participa da sobrenatural imortalidade da alma. Interpreta-se o inferno como transfiguração negativa. As reflexões de Scheeben sobre a definitiva consumação do cosmo partem do fato de que o corpo do Homem-Deus, graças à união hipostática, possui a plenitude da glória divina e a derrama sobre toda a obra criada. As conseqüências que assim se impõem para o tratado escatológico são claras: Enquanto os outros setores são submetidos a um trabalho de reelaboração, a escatologia foi somente ressistematizada, não mais desenvolvida nem recompreendida em um prisma diferente. Do ponto de vista literário, nesse período muito se produziu, mas bem pouco que fosse fecundo no campo teológico. Hans Urs Balthasar († 1988), pode aplicar uma frase de Ernst Troeltsch († 1865): “A função da escatologia é, na maioria das vezes, fechada

A evolução do tratado escatológico apresenta igualmente idéias de fundo deveras originais onde, em parte, se exprime também o dinamismo da reflexão do cristianismo primitivo. Parece até que a teologia tem muita dificuldade para se mover no ar rarefeito do éschaton. No quadro geral da dogmática, a escatologia tem agora assegurado um posto de absoluto respeito. Hoje também, como no passado, os teólogos estão de acordo em pensar que ela constitui o capítulo conclusivo da dogmática. Se desejarmos analisar a fundo esta problemática, devemos prestar particular atenção à atitude que em nosso século a teologia assumiu em face da escatologia.

Referência: Feiner J, Loehrer M., Mysterium Salutis, Do Tempo para a Eternidade, Volume V/3, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ,1985.



[1] Movimento religioso nascido na Igreja Luterana alemã no séc. XVII, pondo o acento na necessidade da experiência religiosa individual.

[2] Teoria moral fundada na idéia da felicidade concebida como bem supremo.