A teologia atual vive na certeza de possuir uma consciência acentuadamente escatológica, a qual vai depois influir sobre o modo de conceber a teologia em geral. Mas, o verdadeiro impulso para a revisão da escatologia foi oferecido por um debate no seio do Protestantismo que tinha como tema a “expectativa neotestamentária do Reino de Deus” e a “protelação da parusia”, problema que só se podia resolver mediante sério confronto com o dado bíblico. O novo interesse pela temática escatológica escondia em si um movimento de protesto contra Albrecht Ritschl († 1889) e seu modo de conceber o Reino de Deus. Segundo Ritschl, o Reino de Deus é de uma importância moral com relações universalistas e definitivas. Para ele, o pecado mostra um desequilíbrio, que se verifica no relacionamento entre liberdade e lei moral, e, que será eliminado por uma justificação capaz de garantir o cumprimento de tal lei. O último escopo divino e humano da história, ou a espiritualização dos homens rumo a uma moralidade suprema, coincidem entre si e constituem o Reino de Deus. Essas idéias ritschliana do Reino de Deus podem ser apreciadas como tentativa de uma cultura protestante antiescatológica que visa reinterpretar o conceito-base que fundamenta toda a pregação de Jesus. Johannes Weiss († 1914) e Albert Schweitzer († 1965), sustentam a tese de que a história do cristianismo se funda na protelação da parusia. Para eles, o cristianismo teria então tido origem a partir do fato de que a parusia, que Jesus proclamara iminente, não aconteceu. A ruptura que assim ocorreu, entre o mundo do NT e a situação do presente, produziu uma espécie de choque. O caminho do retorno ao Jesus histórico ficou bloqueado e a relação com Ele foi restabelecida no mundo de representações alienado na fé e na Igreja.  

O conceito de que o cristianismo primitivo era vivido sob o signo escatológico determinou uma ruptura entre a teologia histórica e a teologia dogmática. A teologia devia fazer-se, nesta linha, sempre mais histórica. Com estas premissas, foram eliminados todos os elementos escatológicos presentes no pensamento teológico. E, desenvolveram, a assim chamada “escatologia conseqüencial”, por pensar que estavam tirando as conseqüências históricas que derivam de uma teologia dos primeiros cristãos.  

Surgiram novos impulsos. A teologia dialética. Ela interpretou a própria experiência histórica no contexto da escatologia neotestamentária, compreendendo-a pois de modo a-histórico e acronológico, e assim se distanciou claramente tanto da concepção tradicional como da do cristianismo primitivo. Para Karl Barth († 1968), a escatologia representa o tema principal da reflexão teológica, e por esse motivo o Autor sugere a escatologização de toda a teologia. É famosa a sua proposição: “Um cristianismo que não é em tudo e por tudo e sem ressalvas escatologia, nada tem a ver com Cristo”. Tendo em vista a naturalidade com que hoje se assume o elemento escatológico como traço fundamental da fé cristã, surpreende que K. Barth, nos diversos volumes da sua Dogmática Eclesial, não tenha abordado expressamente a escatologia.  

A teologia existencial de Rudolf Bultmann († 1976). A Palavra da Escritura não é um enunciado dogmático que se refere ao ser: ela é querigma. E o querigma propõe aos ouvintes Cristo como Aquele que é proclamado. Assim Cristo pode tornar-se novamente Aquele que com seu anúncio se dirige a cada momento à existência de quem o escuta. Bultmann entende a escatologia como escatologia do presente, onde não têm mais lugar, enunciados que tenham por objeto o futuro. “A esperança cristã sabe esperar; mas não sabe aquilo que espera”. Fritz. Buri († 1995) desenvolveu este princípio teológico-existencial até suas mais radicais conseqüências. Segundo ele, nos enunciados escatológicos se exprime a autocompreensão da existência humana.  

A teologia católica não se mostrou tão desenvolta em fazer essa virada, no novo modo de refletir sobre as questões e os temas da escatologia. Enquanto as outras obras todas que Deus fez para nós pertencem ao passado e ao presente, o objeto da escatologia para nós se situa inteiramente no futuro. A escatologia voltada exclusivamente para o futuro é agora analisada na importância que tem para o presente.  

Não podemos esquecer certas solicitações que vieram de fora da Igreja, como o confronto com a idéia evolucionista do mundo ou no encontro com o marxismo e suas implicações de tipo histórico-filosófico, antropológico e conceitual. O Deus bíblico, mais que Aquele que vive eternamente, é Aquele Deus da ordem é o Deus da transformação. Para Jürgen Moltmann, o futuro pode vir a ser o novo paradigma da transparência. E aqui se entende o ‘futuro’, certamente, como futuro qualitativamente novo, como tal descerrando também um novo horizonte histórico. Aquele Deus que antes se via como o Totalmente Outro, vê-se agora como o Totalmente Modificante.  Uma das questões principais que o debate escatológico terá de enfrentar é a relativa ao modo como se deverá estabelecer uma mediação entre escatologia e transformação do mundo, ou ainda entre escatologia e transformação social. Parece-nos que o problema não teve ainda uma solução satisfatória em nenhum dos esboços sistemáticos até agora desenhados.  

Mas para garantir uma mediação entre escatologia e transformação do mundo será primeiro necessário ilustrar adequadamente o conceito de “futuro escatológico”.  

O problema do futuro escatológico não pode ser dissociado do modo de se compreender a história. O fim da história apresenta um caráter absoluto ou, antes relativo? Que valor se pode atribuir a uma história observada à luz de seu fim? De que categorias históricas dispõem a fé? Em que consiste a unidade da história?  

Uma hermenêutica[1] escatológica, hoje, deverá satisfazer a outros encargos, provocados pelo confronto que se estabelece entre a expectativa cristã do futuro e uma “escatologia naturalista”, o utopismo secular e a fé no progresso, como também pelo atual debate sobre o futuro e sobre a crise ecológica.  

Limitamo-nos a indicar um leque de temas e encargos mais importantes, que a escatologia é hoje chamada a aprofundar e satisfazer. Trata-se de um grandioso projeto cuja realização está ainda no início. Um tratado escatológico reestruturado segundo os novos critérios ainda está por realizar-se. Não gostaríamos de que essa constatação fosse percebida como desculpa ou acusação: reflete apenas a própria natureza da escatologia, que deve ser theologia viatoris: uma teologia a caminho.  

Referência: Feiner J, Loehrer M., Mysterium Salutis, Do Tempo para a Eternidade, Volume V/3, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ,1985. 
  

 


  

[1] Arte de interpretar leis, códices, textos sagrados, etc.