O Círculo Católico Acadêmico, iniciativa do congregado mariano Alexandre Martins, no intuito de fomentar a fé no Deus da Vida neste mundo indiferente às coisas do alto, convidou-nos para um bate-papo com alguns jovens universitários, para juntos, conversarmos sobre o Relativismo.

Começamos com a definição da palavra, conforme proposto no Dicionário Básico de Filosofia de Hilton Japiassú, onde Relativismo: “É a doutrina que considera todo conhecimento relativo como dependente de fatores contextuais, e que varia de acordo com as circunstâncias, sendo impossível estabelecer-se um conhecimento absoluto e uma certeza definitiva”.

Ampliando, podemos dizer que é uma doutrina que afirma que as verdades (morais, religiosas, políticas, científicas, etc.) variam conforme a época, o lugar, o grupo social e os indivíduos de cada lugar. Então, dessa forma, o relativismo leva em consideração diversos tipos de análise, mesmo que sejam contraditórias. Max Weber († 1920), em suas obras sobre epistemologia, abre espaço para o relativismo nas ciências da cultura quando diz que: “a ciência é verdade para todos que querem a verdade, ou seja, por mais diferentes que sejam as análises geradas por pontos de vista culturais diferentes, elas sempre serão cientificamente verdadeiras, enquanto não refutadas”.

Assim, o Relativismo é um termo filosófico que se baseia na relatividade do conhecimento e repudia qualquer verdade ou valor absoluto. Todo ponto de vista é válido. Nietzsche († 1900) na sua obra A Gaia Ciência, no tópico intitulado “Nosso novo infinito“, assim afirma: “o mundo para nós tornou-se novamente infinito no sentido de que não podemos negar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações“.

Não obstante as tentativas de Kant († 1804), de conservar uma moral universal, depois de ter descartado a metafísica, afirmando que o único conhecimento racional possível consiste na ciência, é necessário limitar a moral ao âmbito puramente subjetivo: não seria possível falar de normas morais universalmente conhecíveis. “o sujeito decide, tendo como base as suas experiências pessoais, o que lhe parece religiosamente sustentável e a “consciência” subjetiva torna-se de modo definitivo a única instância ética

No diálogo platônico “Teeteto“, atribui-se a Protágoras de Abdera († 410 aC) uma concepção relativista do conhecimento, por haver afirmado que “o homem é a medida de todas as coisas“. Nesse caso, cada um de nós é, por assim dizer, o juiz daquilo que é e daquilo que não é.

Em nossos dias, o relativismo tem assumido várias formas distintas. Nas versões mais radicais, entende-se que quaisquer opiniões são igualmente justificáveis, dadas suas respectivas regras de evidência, e que não há questão objetiva sobre qual conjunto de regras deve ser preferido. Em suma, é possível dar boas razões tanto para se admitir quanto para se recusar qualquer opinião.

Vamos, agora, sair da filosofia da palavra Relativismo e adentrar nos caminhos de Deus, a luz da nossa fé, onde podemos perceber a capacidade que temos de dialogar com este mundo tão relativizado, conforme, nos ensina o apóstolo Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem” (Rm 12,21), mas, para este fortalecimento, se faz necessário o hábito da leitura diária da Palavra de Deus, que é o caminho para sair das obras do mal e das trevas, e se revestir assim com as armas da luz, a fim de podermos realizar o bem.

O Documento de Aparecida, em seu nº 65, pede para contemplarmos o rosto dos que sofrem. E, desta forma, vamos no ater a juventude, neste mundo relativizado. Vejamos o Sl 119,9, que nos exorta: “Como poderá o jovem manter puro o seu caminho? — Guardando a Vossa palavra!” O Salmo dá-nos a resposta ao interrogativo que todo o jovem tem de fazer, se deseja levar uma existência digna e decorosa, própria da sua condição. Para isto, o único caminho é Jesus. Nos dias de hoje, infelizmente, para muitos é fácil cair num relativismo moral e numa falta de identidade de que sofrem tantos jovens, vítimas de esquemas culturais vazios de sentido ou de algum tipo de ideologia. Esse relativismo moral gera egoísmo, divisão, marginalização, discriminação, medo e desconfiança para com os outros. Mais ainda, quando um jovem vive “ao seu modo”, deixa-se seduzir pelo materialismo desenfreado, perde as próprias raízes e aspira à evasão. Por isso, o vazio que estes comportamentos produzem explica muitos males que ameaçam a juventude: o álcool, a sexualidade mal vivida, o uso de drogas, a prostituição, as motivações fundadas no gosto ou nas atitudes egoístas, o oportunismo, a falta de um projeto sério de vida, no qual não há lugar para o matrimônio estável, além da rejeição de toda a autoridade legítima, fugindo do compromisso e da responsabilidade para se refugiar num mundo falso, cuja base é a alienação.

Outra passagem da Boa Notícia, nos traz o evangelista Marcos, em Mc 10, 17: “Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” e o Mestre, cheio de amor, responde-lhe que “o necessário é deixar tudo e segui-lO”. Isto dá radicalidade e autenticidade aos valores e permite ao jovem realizar-se como pessoa e como cristão. A chave dessa realização está na fidelidade, como uma característica da nossa identidade cristã.

Eis aí o caminho da fidelidade traçado por São Paulo: “Sede diligentes… amai-vos uns aos outros… Alegres na esperança… exercendo a hospitalidade… Bendizei… Tende entre vós os mesmos sentimentos… Acomodai-vos às coisas humildes… Não queirais ser sábios aos vossos próprios olhos… Não torneis a ninguém mal por mal… Não te deixes vencer pelo mal; mas vence antes o mal com o bem” (Rm 12, 9-21).

Isto quer dizer que deveis ser fortes a partir de dentro, grandes de ânimo, ricos nos melhores sentimentos, corajosos na verdade, audazes na liberdade, constantes na responsabilidade, generosos no amor, invencíveis na esperança. A felicidade é alcançada com o sacrifício. Não espereis dos outros o que sois capazes e chamados a ser e a fazer. Não deixeis para amanhã a construção duma sociedade nova, onde os sonhos mais nobres não se frustrem e onde possais ser os protagonistas da vossa história.

O filósofo cristão Jacques Maritain († 1973), apontava, não só para a juventude, mas a todos. Não esqueçam: “ser instruído é o único modo de ser livre“. “a educação consiste de modo substancial no fato de que o homem se torne cada vez mais humano, que possa “ser” mais e não somente que possa “ter” mais“. Com efeito, por meio da cultura o ser humano “apura e desenvolve os seus inúmeros dotes do corpo e do espírito, com que procura submeter o universo pelo conhecimento e pelo trabalho; torna mais humana a vida social” (Gaudium et spes, 53).

O Papa Bento XVI denominou para este nosso tempo “a ditadura do relativismo“. “Está se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida somente o próprio “eu” e os seus desejos” (Homilia na Missa “pro eligendo Romano Pontifice”, 18.04.2005). A partir de tais pressupostos, seria impossível construir ou manter a vida social.

A sociedade precisa de pessoas que revelem mediante a sua própria vida a existência de alguns valores fundamentais e edificantes; tem necessidade de testemunhas que, com a sua existência, trabalhem para recordar a todos os homens o valor da consciência, santuário de Deus no homem, e da verdade.

O Cardeal Joseph Ratzinger, pouco tempo antes de ser eleito Sucessor de São Pedro, lançou ao mundo uma proposta: “A tentativa, levada ao extremo, de plasmar as realidades humanas renunciando completamente a Deus conduz-nos cada vez mais à margem do abismo, rumo à exclusão total do homem. Então, deveríamos inverter o axioma dos iluministas, e dizer: mesmo quem não consegue encontrar o caminho da aceitação de Deus deveria, de qualquer maneira, procurar viver e orientar a própria vida, como se Deus existisse. Este é o conselho que já Blaise Pascal († 1662) transmitia aos seus amigos não crentes; é o conselho que gostaríamos de oferecer também hoje aos nossos amigos que não acreditam. Deste modo, ninguém se sentirá limitado na sua própria liberdade, mas todas as nossas realidades encontram aqui um apoio e um critério de que têm urgentemente necessidade“.

Como bom mariano que somos, onde sempre colocamos um olhar sobre a Virgem Maria, antes de qualquer iniciativa, queremos também apontar, que frente ao relativismo existente, não podemos, deixar de apontar, para aquela que é a Estrela da Evangelização. Maria, a “mulher” por excelência, a nova Eva, sendo Mãe de Jesus que O trouxe no seu seio virginal, tornou-se também, a partir da hora da cruz, por vontade e em virtude do testamento espiritual e dos méritos do Redentor, a Mãe dos crentes e da Igreja, a Mãe de todos os redimidos.

Esta nova maternidade espiritual e mística de Maria é o reflexo e o prolongamento da maternidade divina que a elevou sobre todas as criaturas, durante a sua vida terrena: em Nazaré, em Caná, no Calvário e no Cenáculo, no dia de Pentecostes, onde Maria se encontrava reunida com a Igreja na fé e na oração.

Esta maternidade espiritual e mística de Maria contém apelos bem atuais. Podemos citar quatro:  a) a fé viva e testemunhada; b) a conversão; c) a paz e d) a esperança.

Apelo à fé: A sociedade de hoje é levada a uma crescente e desenfreada secularização, que leva muitos a pensar e a viver como se Deus não existisse ou então a contentar-se com uma vaga religiosidade, incapaz de se confrontar com o problema da verdade e com o dever da coerência. De tudo isto deriva um crescente obscurecimento do sentido transcendente da existência humana, um relativismo ético difuso e uma gradual perda do sentido do pecado, já denunciada por Pio XII († 1958):  “o pecado do século é a perda do sentido do pecado” (Pio XII, Disc. Rad., 1946).

Mesmo entre os batizados que se confessam cristãos, nota-se uma grande apatia, uma falta de coerência, uma desarmonia entre a fé e o agir quotidiano, uma infidelidade aos valores e aos princípios que deveriam nortear e modelar a nossa vida. Falando dessa incoerência, entre a fé e o agir, o Concílio Vaticano II constatou que:  “este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo” (Gaudium et spes, 43 ).

É neste contexto de secularização e de indiferença religiosa que se insere o apelo da Mãe de Deus a viver em plenitude e com renovado fervor o inestimável dom da fé recebida no Batismo, de forma a que ela penetre e ilumine toda a nossa existência e oriente todas as opções fundamentais da nossa vida, para, deste modo, nos tornar testemunhas fidedignas do amor de Deus entre os homens.

Muito é falado: “As palavras convencem, mas os exemplos arrastam“. O homem de hoje desconfia das palavras; quer fatos. E é por isso que se observa com interesse, atenção e até com admiração os que testemunham. A linguagem do testemunho é a mais compreensível e convincente para o homem do nosso tempo. Mas tal testemunho exige fidelidade absoluta aos valores humanos; exige a defesa da família como sociedade natural fundada no matrimônio; o acolhimento e o respeito pela vida desde a concepção até ao seu termo natural.

A força que nos leva a sermos testemunhas corajosa do Evangelho e dos seus valores, encontramos na vivência duma profunda vida interior, no intenso amor a Cristo, na graça sacramental, especialmente na Reconciliação e da Eucaristia e, finalmente, na oração.

Apelo à conversão, à penitência: Converter-se a Deus é voltar a Ele, aproximar-se da Sua santidade, lançar-se de novo, como o filho pródigo, nos braços do Pai; é reconquistar a alegria perdida, a alegria de ser salvos (Sl 51, 14), coisa que muitos do nosso tempo já não sabem saborear. Converter-se é manter com Deus uma atitude de amorosa escuta, como Samuel:  “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta” (1 Sm 3, 10 ).

E Deus não fala só através da Bíblia e da Igreja, mas também através da história, por meio dos acontecimentos, grandes ou pequenos, que constituem o tecido da nossa vida. Depende de nós, reconhecermos ou não em tudo isso a voz do Senhor. É esta a maneira de agir de Deus, já no Antigo Testamento:  Ele revela-se e guia o Seu povo por meio dos eventos suscitados por Ele.

Mas não se pode ouvir Deus, sem n’Ele, não escutarmos a voz dos irmãos, o grito dos pobres e dos marginalizados, o gemido dos oprimidos, o choro dos doentes e desesperados, de forma a encontrarmos ressonância no nosso coração e respostas adequadas no nosso agir. Significa ter em relação a eles sentimentos de verdadeira solidariedade e de participação nas suas preocupações materiais e espirituais.

Apelo que a Virgem faz à paz: Também hoje, se respira uma crescente exigência de concórdia e de paz, num mundo cada vez mais interdependente, com uma rede global de trocas e comunicações, mas em que, infelizmente, assistimos à exasperação de conflitos crônicos como os da Terra Santa, do Oriente Médio e de outras regiões da terra. A tudo isto vem juntar-se o terrorismo internacional nas suas novas e assustadoras dimensões (João Paulo II, no discurso ao Parlamento Italiano, em 15.11.2002).

Na senda da Encíclica Pacem in terris do Beato João XXIII († 1963), o Papa João Paulo II († 2005), na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2003, apontou como condições essenciais da paz quatro exigências concretas da alma humana:  a verdade, a justiça, o amor e a liberdade. Já na Mensagem do ano anterior, 2002, o mesmo João Paulo II nos ensinava que “não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão“.

Os conflitos que afligem o mundo de hoje e são fonte de indizíveis sofrimentos para tantos nossos irmãos, exortam a consciência dos cristãos a empenhar-se e a rezar pela paz. E rezar pela paz significa como diz o Papa, “abrir o coração humano à irrupção do poder renovador de Deus, pois só Ele pode criar aberturas para a paz”.

E, a oração mais eficaz para obter a paz é a do Rosário. Nossa Senhora recomendou-o várias vezes nas aparições na Cova da Iria:  “Rezai o Terço todos os dias para obter a paz para o mundo“, pediu Nossa Senhora aos pastorinhos. O Rosário é, de fato, “uma oração orientada por sua natureza para a paz, porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da Paz e “nossa paz” (Ef 2,14). “Ao mesmo tempo que nos faz fixar os olhos em Cristo, a oração do Rosário torna-nos construtores de paz no mundo“.

Apelo à esperança: Apesar das muitas sombras que pairam sobre o mundo, são também muitos os sinais de esperança. Com efeito, ao lado de tantas tragédias e do egoísmo dos projetos humanos sem transcendência, por parte de pessoas e grupos, nota-se, hoje, um crescente desejo de espiritualidade, de comunhão e de colaboração; assiste-se a uma séria procura do sentido e da qualidade de vida a todos os níveis, mesmo espiritual; e, não obstante a progressiva indiferença religiosa, “o mundo paradoxalmente procura Deus através de caminhos imprevistos e sente necessidade dele” (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 76). Donde se conclui que o homem tem saudade de Deus.

Pode, por vezes, parecer que prevalecem as forças do mal, mas o cristão, que lê os acontecimentos à luz do mistério Pascal, sabe que acabará por triunfar a terna misericórdia de Deus:  “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20).

Todos nós somos chamados para a “construção” deste novo mundo, mais justo, mais humano e por isso mesmo, mais cristão:  vivendo e anunciando com coragem o Evangelho da esperança, que é o Evangelho do Magnificat, o Evangelho de Maria, a Senhora de Fátima, Spes Nostra:  a esperança nossa e do mundo.

Fontes:

Homilia do Papa João Paulo II, na santa missa celebrada na Pç. Ignacio Agramonte em Camagüey – Cuba, em  23 de janeiro de 1998;

Conferência do Cardeal Tarcisio Bertone (secretário do Estado do Vaticano), na Universidade de Havana, em 25 de fevereiro de 2008;

Homilia do Cardeal José Saraiva Martins (Prefeito Emérito da Congregação para a causa dos Santos), Santuário de Fátima, na Cova da Iria, em 13 de maio de 2003.