Vamos caminhar pelo Antigo Testamento, e desta fonte procurar o que há de comum entre às vocações lá existentes, com a vocação de Maria, onde “A fé de Maria pode ser comparada com a de Abraão, a quem o Apóstolo chama ‘nosso pai na fe’” (cf. Rm 4,12). Nesta comparação, podemos dizer: “Na economia salvífica da Revelação divina, a fé de Abraão constitui o início da Antiga Aliança: a fé de Maria, na Anunciação, dá início a Nova Aliança” (RM 14)

Partindo de alguns pressupostos Bíblicos, vamos ver o que o Concílio Vaticano II nos ensina: a) Que existe uma unidade indissolúvel entre o Antigo e o Novo Testamento: o primeiro contém o segundo e o segundo desvela em plenitude o primeiro (DV 16); b) Ambos os Testamentos têm um único e mesmo autor: Deus; c) Esta revelação nos foi comunicada progressivamente (DV 14), de maneira que o Antigo Testamento anuncia profeticamente o Novo, preparando-o pedagogicamente (DV 15).

Para Maria e os apóstolos não existiu outra Palavra de Deus escrita a não ser o Antigo Testamento. À sua luz conheceram a própria missão e o mistério revelado em Cristo e por Cristo. Da mesma forma, à sua luz a Igreja primitiva (em grande parte constituída de judeus convertidos) entendeu e pregou a libertação realizada em Cristo. Então, a pregação dos primeiros discípulos, que procuraram interpretar para esses fiéis o evento de Jesus Cristo à luz da Escritura (Antigo Testamento), é aquilo que, por providência divina, conservamos por escrito no Novo Testamento, especialmente nos Evangelhos (DV 18).

Por isso, para compreender a vocação de participação de Maria no Evangelho de seu Filho, é necessário situá-la, no contexto dos gêneros literários daquela época, e, na linha coerente do modo e finalidade pela qual Yahweh chamou os seus escolhidos para uma missão.

Por exemplo, o Capítulo primeiro do Evangelho de Lucas, onde contemplamos a vida oculta de Jesus e a sua infância, como também a vocação de Maria. Veja o Magnificat, que seleciona tópicos dispersos nas antigas Escrituras, a fim de esclarecer para a primeira comunidade o significado da vocação de Maria. Da mesma forma, veja o anúncio do anjo, que traz esquemas literários usados antigamente para comunicar a mensagem de um nascimento prodigioso, ou ainda, para convocar uma pessoa, para uma missão específica.

Então, como se dava a Vocação no Antigo Testamento? – Sabemos que a Sagrada Escritura não nos oferece nenhum ensinamento. No entanto, nos apontam diversos chamados, como veremos a seguir.

O Cardeal Martini, falando sobre vocação, nos deixa a seguinte definição: “A vocação designa um chamado particular dirigido a um determinado indivíduo para obter seu livre concurso na imensa sinfonia preparada e realizada progressivamente pela comunidade humana”. Também o filósofo Gabriel Marcel († 1973), diz que a vocação é um fato absolutamente pessoal e quando a vocação amadurece, aparece como algo que forma parte integrante da própria pessoa.

Sabemos que cada vocação é um caso especial, uma história própria, mas há uma “analogia entre as vocações”, pois as vocações, apesar de diferentes chamados, se colocam dentro de uma mesma história da salvação e é sempre o próprio Deus que se irá revelar.

Toda a vocação bíblica é cristocêntrica e soteriológica, embora no AT a orientação cristológica ainda apareça de forma implícita. Assim, a vocação de Abraão já foi, na intenção de Deus, orientada para preparar a origem do povo de seu Filho. E, sem essa orientação específica, a própria vocação de Maria não teria sentido. Neste sentido acrescenta o Cardeal Martini: “Não é possível sentir-se chamado por Deus, descobrir a própria vocação, sem uma relação real com a Palavra de Deus. Jesus é, em toda a plenitude, a grande palavra de convocação para o mundo. Ele é o lugar e o âmbito de nossas escolhas. Toda opção vocacional advém do interior de uma história de relação com Jesus Cristo”.

Nesta analogia, entre a Vocação no Antigo Testamento e a Vocação de Maria, podemos dizer que a Vocação de Maria é inteiramente gratuita da parte de Deus e podemos associá-la: a) A história da promessa em função da obra libertadora de Jesus; b) Orientada para o Povo de Deus redimido por Jesus Cristo. Então, pelos méritos de Cristo, as graças e os privilégios de Maria têm sentido. Vejamos, então a vocação de Abraão e algumas vocações femininas em Israel.

A Vocação de Abraão

Da convocação por Yahweh até a sua morte, Abraão é um homem fiel a Deus (Gn 11,27-25,11). Chega a ser desconcertante ver Abraão responder tão generosamente a um Deus que ele desconhece e do qual ignora até mesmo o nome. Então, por que a Palavra do Deus desconhecido encontra eco da resposta de Abraão? – Porque Abraão é pai de uma multidão (isto é, de um Povo). Abraão é como um ícone: na realidade não conhecemos seus traços individuais (não se poderia escrever sua biografia), porque não interessam para a história da salvação. O que interessa é que se trata da imagem de Israel em sua raiz, que recebe a promessa e responde na fé, para toda sua descendência. Por isso ele é o “pai na fé”. Deus faz uma aliança com Abraão, que chega ao ápice no Antigo Testamento, através de Moisés, e de modo definitivo, no Novo Testamento com Jesus Cristo. Algo semelhante ocorre com a Virgem Maria.

A iniciativa vem de Yahweh: É ele mesmo que chamando o cristão, cria nele a justificação (Rm 8,30). Nenhuma Palavra é impossível para Deus (Gn 18,14; Lc 1,37): A descendência de Abraão chega ao cumprimento da Palavra que promete pela palavra criadora que realiza: tendo Isaac como penhor e Jesus Cristo como consumação definitiva (Gl 3,16).

De onde Abraão é chamado? De sua terra, de sua pátria, da casa paterna (Gn 12,1), “das profundezas de sua própria identidade”, diz o Cardeal Martini. Yahweh exige tudo e Abraão deve deixar tudo o que foi sua vida.

A meta do chamado: Não é sequer uma terra concreta, mas Abraão, deve seguir a Palavra de Deus, seus projetos, suas decisões sobre a história e sobre sua própria vida. Por isso, o Senhor se transforma no Deus de Abraão (cf, Gn 28,3; Ex 3,6 etc…). Esse objetivo é dado ao Patriarca, para que por meio de sua mediação, Yahweh possa formar o seu Povo (Gn 12,3). Esse chamado é idêntico ao que posteriormente o próprio Senhor dirigiu a Maria.

A resposta de Abraão: Abraão se coloca a caminho. Essa é sua fé (Hb 11,8). Uma fé assim se expressa, portanto, na obediência completa. Tudo o que conta em sua vida tem como único propósito é colocar em evidência sua fé heróica. Entre Deus e seu eleito existe uma tamanha intimidade que o conhecimento pessoal que Abraão tem de Yahweh chegará a ser a fonte na qual se alimentará a fé de todos os seus descendentes.

O cume da resposta: O ápice de sua resposta é o sacrifício do filho (Gn 22,2). Temor e tremor. Temor, por confiar na promessa de Yahweh, que por meio de Isaac terá uma grande descendência e se formará um povo. Por outro lado, o tremor, na sua consciência de ter que sacrificar o próprio filho. Assim Abraão, esperou contra toda esperança (Rm 4,18). Da mesma forma, Maria, como Abraão, oferece seu Filho no Templo, com um oferecimento que chegará ao clímax no Calvário.

Na linha da Vocação, vamos apresentar algumas vocações femininas em Israel, que servem de exemplos do que Yahweh realizou no seu Povo, por meio delas, desta forma aprendemos como o Senhor atua salvificamente segundo o seu projeto em nosso favor, para depois entender melhor a escolha de Maria e a obra que, nela e por ela, teve o Altíssimo como protagonista.

Mulheres estéreis que concebem por obra de Yahweh:

Sara: Mulher de Abraão, era velha e estéril, e sendo incapaz de conceber filhos, humanamente pensa em dar a Abraão a descendência  por meio de Agar, a escrava (Gn 16,1-2). A providência Divina, anuncia-lhe, por meio de um anjo, a concepção de Isaac, como herdeiro legítimo da promessa (Gn 17,3-8.15-19; 18,10-14; 21,1-7).

Ana: Mulher de Elcana, também era estéril. Elcana tinha duas mulheres Ana e Fenema, a primeira não podia ter filhos; a segunda os tinha e zombava da primeira. Ana dirigiu-se a Yahweh com estas palavras: “Se quiseres dar atenção à humilhação da tua serva e te lembrais de mim e não te esqueceres da tua serva e lhes deres um filho homem, então eu o consagrarei a Yahweh por todos os dias da sua vida” (1Sm 1,11). Nascido o menino, sua mãe o ofereceu a Yahweh e o deixou no santuário de Silo. É a história do profeta Samuel, que cresceu à sombra da Arca da Aliança. O Evangelista Lucas a relacionou igualmente com o mistério de Maria, ao colocar-lhe nos lábios o Magnificat, baseado no hino de gratidão de Ana (1Sm 2,1-10).

Isabel: Velha e estéril (Lc 1,13.18), concebe João Batista.

Para Deus, com efeito, nada é impossível” (Lc 1,37), com estas palavras o Evangelista Lucas, põe a maternidade de Maria na seqüência das intervenções de Yahweh na origem da existência dos escolhidos, mas com Maria será mediante a virgindade em sua concepção. De fato as outras mulheres conceberam mediante a união matrimonial, mas o fato de serem estéreis aponta para a intervenção salvífica de Yahweh.

Nestes e outros casos de intervenções de Yahweh, temos em comum o fato de que se trata do nascimento de homens destinados a uma missão importante na história da salvação de Israel.

Mulheres mencionadas na genealogia de Jesus: Tamar, Raab, Rute e (Betsabéia) “a que foi mulher de Urias” (Mt 1,3.5.6). Uma dentre elas é mulher impecável, Rute e todo um livro da Bíblia é dedicado a ela. Das outras três, as duas primeiras são prostitutas, e a última uniu-se a Davi em adultério.

Não vemos nestas mulheres, uma vocação. Mas, percebemos como o Senhor leva avante seus planos de salvação; vemos também como Jesus pertenceu a uma raça verdadeiramente pecadora.

Tamar (Gn 38,6-30): Mulher Cananéia, esposa de Er, homem de má conduta, que logo faleceu; depois casou com o irmão Onã, para dar descendência a seu irmão mais velho, mas Onã não cumpriu o dever de irmão e o Senhor o fez morrer. Então Judá, pai de Er, Onã e Selá, mandou Tamar embora, para que o mesmo não acontecesse com Selá. Mas, Tamar queria dar descendência a Er. Então se vestiu de prostituta e com o rosto coberto, seduziu seu sogro Judá, de quem concebeu dois filhos: Farés e Zerah. Através da descendência do primeiro, ela foi integrada aos antepassados de Jesus.

Raab (Js 2,1-21); 6,22-25): Prostituta de Jericó. Quando Josué mandou espiões além-do-Jordão para essa cidade, ela acolheu e até protegeu os espiões, mesmo arriscando sua própria vida. Por esse feito, Josué protegeu Raab e sua família da destruição de Jericó. Teria ela concebido Booz de um daqueles espiões? As escrituras não o dizem; mas, segundo a genealogia de Mateus, Raab é ascendente de Jesus como mãe do bisavô de Davi.

Betsabéia (2Sm 11; 1Rs 1,11-31; 2,13-25): A mulher de Urias. Davi enamorou-se dela e ambos cometeram adultério. Depois da gravidez de Betsabéia, Davi armou um plano para eliminar Urias. Como castigo dessa união adultera, o filho que dela nasceu morreu em pouco tempo. Um segundo filho de ambos foi Salomão, entre cujos descendentes conta-se Jesus.

Três casos típicos de mulheres que possuem vários elementos em comum: RUTE, ESTER e JUDITE, com caráter e personalidades diferentes, em situações também diferentes, mas participam do plano salvifico; e, deixam bem claro, que agem, devido a mão de Yahweh que as escolheu e as guiou para o bem de seu povo.  Todas são mediadoras do Senhor, no projeto divino à favor de Israel. Rute, intervém como mãe da linha davídica; Ester e Judite, como mediadoras em circunstâncias dos perigos que sofre o povo de Israel, onde encontramos estes elementos em comum: a) Israel está ameaçado;  b) Misericórdia de Yahweh para com o Povo de Israel; c) A vocação da mulher para levar a cabo o desígnio de Yahweh.

Rute: Mulher estrangeira, moabita, desprezada pelos hebreus, mas modelo de fidelidade, de fé e de doce caráter. Por Providência divina, Rute, a estrangeira, tem a mesma missão das mulheres israelitas: formar com sua maternidade o povo escolhido: “Que Yahweh torne essa mulher que entra em tua casa semelhante a Raquel e a Lia, que formaram a casa de Israel” (Rt 4,11). Deus se revela como o ator principal: “Deu a Rute a graça de conceber” (Rt 4,13). Ainda, Yahweh é o autor da linhagem davídica: para que se destaque esse fato, escolheu uma estrangeira pobre e sem direitos e ainda mais de uma raça desprezada. Situou a cena em Belém, “casa de pão” e berço de Davi: “Quanto às origens humildes e pobres de Davi, combinam com a tradição e com o princípio de que Deus escolhe os humildes” (cf. L. Alonso Schoekel, “Introducción AL libro de Rut”). O autor de Rute mostra que a ‘semente’ que nasceu de Rute, a moabita, por obra de Yahweh, é o penhor da esperança e da restauração futura, e, sobretudo da perpetuidade da dinastia davídica.

Judite: O livro de Judite é uma teologia da história. Escrito provavelmente durante a ditadura de Antíoco IV Epifanes (por volta do tempo dos Macabeus, 175 aC), onde o autor tem em mente a esperança escatológica para Israel. O passado está ainda presente e pode repetir-se, inclusive adotando formas novas. O crescente perigo que pesa sobre Israel e coloca em risco sua própria sobrevivência se dá através do general inimigo, Holofernes, representado tipicamente como “o poder militar seguro de si mesmo, da concupiscência sexual, da força que cega”. Aqui, vemos a infidelidade de tantos hebreus que, por interesse particular ou para salvar a própria pele, tomam a atitude própria dos pagãos, que é render-se por falta de esperança (cf. Jt 3,4-6 e 7,23-27). Mas, a libertação que se alcançará não depende deles, que são infiéis. E, sim da figura de Judite que é estéril, onde seu próprio nome nos lembra a “mulher judia”, é bela, porém viúva, representa o sofrimento do povo (cf. Jt 8). Por isso os chefes de Israel a abençoam: “Vai em paz! Que o Senhor Deus esteja diante de ti para vingança dos nossos inimigos” (Jt 8,35). Ela é um “ícone” de Israel. Ela é libertada por Yahweh por causa de seu povo. Essa vinculação ao povo de Deus e a libertação corporativa alcançada por seu intermédio encerram toda a glória de Judite. Eis por que, depois da vitória de Yahweh sobre os inimigos de Israel, Judite é proclamada com expressões que a liturgia aplicou a Maria por sua colaboração na libertação do homem. (cf. Jt 13,17-20; 15,9-10). O livro de Judite, mais do que descrever uma vitória concreta, histórica, parece referir-se veladamente à luta e à vitória escatológica. Nessa vitória, Judite identifica-se com o povo de Deus, da mesma forma, como Maria se identifica com a Igreja e ambas cooperam na redenção.

Ester: Livro épico que nos relata a libertação do Povo de Deus, por mediação de uma mulher. Sua leitura tem sido a favorita dos hebreus, sobretudo na liturgia da “Festa dos Purim[1]. Supõe-se que a ação tenha lugar depois do édito de Ciro, o Grande, que permitia aos judeus regressar do cativeiro da babilônia. Muitos deles (forçados ou por vontade própria) ficaram nessas terras orientais. Por este motivo, a introdução do livro supõe que tudo acontece em Susa, sob o reino de Assuero (Xerxes). Este rei teve de depor sua mulher, a rainha Vasti, e expulsá-la de sua presença devido a uma rebelião contra seu mandato. Então, tomou por esposa Ester, uma formosa judia que, com seu caráter bondoso, tinha ganho a simpatia de todos e o amor do monarca.  Amã, primeiro ministro do rei, encheu-se de ira contra os hebreus, ordenou (com a aprovação que obteve do monarca) o extermínio de todos os habitantes de raça hebraica em todo o reino e, começou a acusar os descendentes de Abraão de viver conforme seus próprios costumes, razão pela qual constituíam uma ameaça para o império. Mardoqueu fez chegar a Ester a notícia do grande perigo que a raça de seus pais corria. Ambos puseram-se a orar a Yahweh (Est 4,17ss) com hinos que nos mostram como a intervenção de Yahweh salvará seu povo, por mediação da rainha. Ela intercede junto ao rei e consegue libertar Israel porque Assuero a ouve, tocado por sua bondade e beleza. Alguns desses textos merecem ser utilizados para iluminar a intercessão de Maria perante o Senhor, em favor do novo Israel, sua Igreja. De fato, não é ela quem realiza a salvação, mas o Senhor a quem ela suplica, como indica a lindíssima canção da rainha, em nome de seu povo: “Ó meu Senhor, nosso rei, tu és único! / Vem em meu auxílio, pois estou só / e não tenho outra proteção fora de ti / pois vou expor minha vida”. (Est 4,17).

Importantes vocações, que não podemos perder de vista, são a de Moisés no Êxodo, de alguns profetas: Elias, Isaías, a do Servo Sofredor. Então, por que Maria chama-se a si mesma de “Serva do Senhor” em Lc 1,38.48?

Também, o papel que desempenharam no plano divino, algumas outras mulheres do Antigo Testamento, como Rebeca (Gn 25), Raquel (Gn 30), a mãe de Sansão (Jz 13), Susana (Dn 13), a mãe dos Macabeus (2Mc 7).

A luz destas vocações do Antigo Testamento e da Vocação de Maria, como devemos viver a nossa vocação, no próprio estado de vida em que estamos? E como a nossa vocação se integra na história da Salvação?

Abreviaturas utilizadas:

RM – Redemptoris Mater

DV – Dei Verbum

Fonte: González, Carlos I., Maria evangelizada e evangelizadora, Edições Loyola, São Paulo,1990


[1] É a festa das sortes. A festa de maior manifestação de alegria do povo judeu e que tem como sentido a celebração da confiante certeza de que sempre “Deus salva o seu povo”.