A moral cristã é definida como uma chamada à santidade no seguimento, imitação e identificação com Jesus Cristo.  Porém se sabe pela Bíblia e pela experiência cotidiana, que o homem é um ser eticamente frágil; na sua vida aparece com frequência além do mal físico, o mal moral e por isso, o pecado é um tema central na Teologia: do conceito e valorização que se tenha do pecado, dependem a interpretação da moral católica e, principalmente, o nosso relacionamento com Deus, pois se a idéia evangélica chave é a chamada à conversão, o homem não sentirá esta necessidade se não tiver a consciência do pecado; consequentemente, também não valorizará a obra redentora de Jesus Cristo que veio para nos libertar do pecado (1Jo 1,8-2,2; CCE 1847,48).

  

O mistério do mal, um desafio permanente:

O pecado é uma realidade que sempre marcou a história das religiões, particularmente a judaico-cristã.  Não que ele seja o centro da mensagem cristã ou de qualquer outra religião, pois na verdade, ele não passa de uma sombra, mas sem a visualização desta sombra, não é possível perceber onde se coloca a luz.

O pecado sempre esteve presente ao longo da história da humanidade revestido de tonalidades diferentes de acordo com as respectivas culturas e sociedades.  Assim, ele se apresenta como uma realidade atemorizadora ou se faz despercebido ou desacreditado como em nossos dias.  Já na década de 1940, o Papa Pio XII proclamava uma frase muitas vezes repetida atualmente: “o grande pecado de hoje consiste em os homens terem perdido o sentido do pecado”.

A reflexão sobre o pecado nos depara com o “mistério do mal”, pois ele é muito difícil de ser verdadeiramente compreendido.  Todos os pecados são uma manifestação de um mal que ultrapassa nossa compreensão, e que de uma maneira ou de outra, entram para o rol do “mistério da iniquidade” onde nem sempre é fácil discernir entre o bem e o mal verdadeiramente.

O pecado não existe porque é declarado por uma determinada religião; mais propriamente dito, ele existe ou nasce do coração humano, mesmo que não se tenha uma consciência explícita da sua existência.  A todos os seres humanos é dada uma consciência e a capacidade de se construir ou se destruir (a Liberdade) como ser humano.  Ora, o pecado surge quando o ser humano se autodestrói, não convivendo em sintonia com os outros e com toda a realidade criada.

 

Conceito de pecado:

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Foi definido como “uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna” (CCE 1849).

Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e de sua existência: “é o fenômeno chamado ateísmo” (RP 14).

Pretensão do homem de se considerar completamente autônomo diante de Deus, decidindo por si só o que é o bem e o que é o mal, esta é a essência do pecado.  É propriamente falando, a reivindicação de plena autonomia moral, isto é, o ser humano quer viver segundo a sua vontade (seu arbítrio) independente de tudo e de todos.

Em síntese, “o pecado é uma desobediência deliberada do homem que, com um ato da sua liberdade, não reconhece o senhorio de Deus sobre sua vida, pelo menos naquele momento determinado em que viola a sua lei” (RP 14).

Portanto, em todo pecado há sempre dois aspectos denominados de internos ou constitutivos:

1) Afastamento ou aversão a Deus – o homem pecador pode não ter a intenção direta de ofender a Deus, mas basta que, percebendo que sua ação é incompatível com a amizade divina, mesmo assim a realize voluntariamente, se coloque “longe” ou “contra” Deus.

2) Conversão indevida à criatura – geralmente este é o objeto do pecado, pois o homem, deslumbrado pela momentânea felicidade ou prazer oferecidos pelo pecado, toma-os como verdadeiros bens.

Além destes dois aspectos principais, o pecado conduz, implicitamente, a outras desordens:

  • contra a reta razão, pois se troca um Bem Infinito por um bem finito;
  • contra a ordem social, pois determinam situações injustas;
  • contra o corpo místico de Cristo, pois interfere no Mistério da Comunhão dos Santos.

Portanto, nenhum pecado, por mais íntimo e secreto que seja, afeta exclusivamente o pecador; este mistério é denominado de “comunhão do pecado” por João Paulo II (RP 16).

 

A diversidade dos pecados:

Como já mencionado, o pecado é um “mistério” e como tal, pode-se apresentar em uma multiplicidade de formas e de gravidade:  Pode-se distinguir os pecados segundo: seu objeto, as virtudes a que se opõem, por excesso ou por defeito; os mandamentos que contrariam; dizem respeito a Deus, ao próximo, a si mesmo; os pensamentos, palavras, atos e omissões. Entretanto, a raiz do pecado tem origem exclusivamente de um lugar – está no coração do homem, em sua livre vontade (Mt 15,18ss).

Temos em nós uma raiz de pecado que está alojada na nossa vontade, portanto, nosso querer está alterado e apesar de sabermos, na maioria dos casos, a atitude correta a tomar (vontade de Deus) não direcionamos nossa vontade para ela (Rm 7,14-20).  O pecado não é algo exterior ao ser humano e que pode se impedido de “entrar”, mas algo relacionado à nossa natureza humana (nossa intimidade).

 

A gravidade do pecado:

Há no mistério do pecado uma outra dimensão: a sua gravidade, isto é, por que e em que medida o pecado é grave na ofensa que faz a Deus e na sua repercussão sobre o homem?  A Igreja tem uma doutrina própria, sabendo que “nem sempre é fácil, na vida cotidiana, fazer delimitações nítidas de fronteiras” (RP 17).

Pecado mortal –   Destrói a caridade no coração do homem, desvia o homem de Deus e, portanto, exige uma conversão do coração e nova iniciativa da misericórdia de Deus – Sacramento da Reconciliação.  É pecado mortal aquele que tem por objeto uma matéria grave e que, conjuntamente, é cometido com plena advertência e consentimento deliberado (CEC 1858,59).

Para que se cometa pecado mortal, portanto, são necessárias três condições:

a)      Matéria grave – tudo aquilo que for incompatível com o amor de Deus: O Decálogo (Mc 10,17ss; Rm 1,29-32; 13,11-14; Tg 4) e os Mandamentos da Igreja, em virtude da autoridade que lhe foi conferida por Jesus (Mt 16,18s; Lc 10,16).

b)      Advertência plena – ter consciência do que está fazendo e que isto é moralmente mau, ainda que confusamente (CEC 1859,60).

c)      Consentimento deliberado – apesar da advertência, realiza o ato conscientemente, isto é, pressupõe intervenção positiva da vontade que interpreta a ação como um bem.

Pecado venial – quando não se observa, em matéria leve, a medida prescrita pela lei moral, ou então quando se desobedece à lei moral em matéria grave, mas sem pleno conhecimento ou sem pleno consentimento.  Este pecado enfraquece a caridade; traduz uma afeição desordenada pelos bens criados; impede o progresso da alma na prática das virtudes e na prática do bem moral.

O pecado venial deliberado e que fica sem arrependimento, dispõe pouco a pouco a cometer o pecado mortal, portanto, “não os considere insignificantes: se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los.  Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio…” (Santo Agostinho).

O pecado venial não quebra a aliança com Deus.  É humanamente reparável com a graça de Deus.  “Não priva da graça santificante, da amizade com Deus, da caridade nem, por conseguinte, da Bem-aventurança eterna” (RP 17; CEC 1862,63).

 

Pecado Pessoal e Pecado Social (RP 16):

O pecado é aquilo que nos destrói, destruindo nossos vínculos com o Criador e com as demais criaturas, logo, esta destruição não acontece apenas no coração, mas também determina formas concretas de relacionamento humano, que se tornam desumanos e desumanizantes.  Por isso, longe de constituir uma ameaça ao esvaziamento do sentido cristão do pecado, esta abordagem de pecado social, se bem entendida e colocada, nos assegura que o pecado é algo de muito grave.

O mistério do pecado é formado por uma dupla ferida que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo.  Por isso, pode-se falar de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e sob outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências nas relações sociais.

O pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um ato da pessoa e não de um grupo ou de uma comunidade.  O homem poderá certamente ser condicionado, pressionado, impelido por numerosos e poderosos fatores externos relacionados com a sua condição social, e que poderão em maior ou menor grau, diminuir a sua liberdade, responsabilidade e culpabilidade. Porém, não podemos esquecer que o homem é livre; e não se pode ignorar esta verdade para descarregar nas estruturas, sistemas e sociedades o pecado de cada um.  Por isso não há nada tão pessoal e intransferível como o mérito ou a responsabilidade do agir humano.

Falar de pecado social quer dizer que, em virtude de uma solidariedade humana misteriosa e imperceptível, o pecado de cada um se repercute, de algum modo, sobre os outros (comunhão no pecado), em razão da qual uma alma que se rebaixa pelo pecado, arrasta consigo a Igreja e de certa maneira, o mundo inteiro.  Segundo esta acepção, a cada pecado pode atribuir-se o caráter de pecado social.

Os pecados contra o amor ao próximo poderão ser qualificados como sociais por determinarem situações de desigualdade social e injustiça.  É social todo o pecado contra o bem comum e contra os direitos e deveres dos homens, tanto os cometidos por comissão, como os de omissão (ativos e passivos).  O pecado social diz respeito, também, às relações entre várias comunidades humanas (sociedades, estados, países etc).

Portanto, falar de pecados sociais, não deve induzir ninguém a subestimar a responsabilidade individual das pessoas, mas sim realçar as suas consequências, de modo a constituir um alerta às consciências individuais, para que cada um assuma as próprias responsabilidades, no sentido de serem séria e corajosamente modificadas as realidades sociais intoleráveis da modernidade.

A Igreja, quando fala de situações de pecado ou denuncia como pecados sociais certas situações ou certos comportamentos de grupos sociais, ou até mesmo de nações inteiras, sabe e proclama que tais pecados sociais são o fruto e a concentração dos pecados pessoais, que geram ou favorecem a iniqüidade ou a desfrutam; as verdadeiras responsabilidades, contudo, são das pessoas.

 

Pecados por omissão e internos:

Peca por omissão aquele que tem consciência de que deveria praticar um ato e livremente não o pratica. Assim, alguém que sem necessidade, protela um dever, sabendo que mais tarde estará tão ocupado que poderá não ter tempo de realizá-lo, peca por omissão.

Os pecados internos são aqueles que permanecem no coração por complacência íntima em pecados passados ou a “dor” por ter recusado determinado pecado ou o desejo de cometer o mal, se for possível (Mt 5,28).

 

Os Pecados Capitais.

São as principais tendências más do ser humano (concupiscências) das quais se originam praticamente todos os outros pecados.  O adjetivo “capital” não significa que sejam todos graves, mas mostra a amplitude e a intensidade de sua influência.  São sete:

  1. Soberba – ocupa o lugar principal por ser a raiz de todos os outros.  Origem do pecado original e pessoal.  O homem esquece sua condição de criatura dependente do Criador e quer aparecer grande aos olhos dos outros, julga-se o melhor e tende a se “endeusar” (Eclo 10,6ss. 14-22).
  2. Avareza – procura desregrada dos bens terrestres; principal causa dos pecados de idolatria, pois o homem “adora” bens temporais em detrimento do Bem Eterno (Ef 5,5; 1Tm 6,9s; Eclo 10,9-13; 14,13-21; Lc 12,15; 1Jo 17s.).
  3. Luxúria – desejo desordenado de prazer sexual (Eclo 23,21-29; Rm 6,12ss.).
  4. Ira – desordem no poder natural de reação diante do mal.  Não confundir com a “santa ira”, pois quem ama o bem se opõe radicalmente ao mal (Mt 23,13).                                  
  5. Gula – utilizar o prazer resultante da alimentação como um fim.
  6. Inveja – tristeza que se experimenta por descobrir valores e/ou conquistas alheias que parecem obstáculos à nossa glória (Eclo 14,8ss). Não confundir com “santa emulação” que é a competição sadia na prática do bem ou a tristeza por não conseguirmos conquistar determinada virtude do próximo, com vistas à nossa santificação e à caridade.
  7. Preguiça – falta de gosto pelos valores espirituais, desânimo na luta contra nossos defeitos e imperfeições.

Estas concupiscências “enraizadas” no nosso ser (coração) poderão se manifestar de formas variadas e serão combatidas pela oração (relacionamento com Deus), jejum (relacionamento com os bens materiais) e a esmola (relacionamento com o próximo).

 

Abreviaturas utilizadas

CCE – Catecismo da Igreja Católica (“Catechismus Catholicae Ecclesiae”).

RP – Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Reconcilitio et Paenitentia”, João Paulo II, 1984.

 

EXAME DE CONSCIÊNCIA:

  • Há quanto tempo confessei-me pela última vez? 
  • Deixei deliberadamente de confessar algum pecado?  
  • Cumpri a penitência determinada pelo sacerdote?

 

Amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração

  • Tenho orientado minha vida para Deus?  Procuro fazer com que Sua vontade oriente minha vida cotidiana?
  • Tenho para com Ele verdadeiro amor filial, demonstro este meu amor observando seus mandamentos?
  • Questiono ou nego deliberadamente alguma verdade de fé?
  • Tenho me esforçado para conhecer melhor a Palavra de Deus e a Sua doutrina?
  • Pratico ou pratiquei atos de superstição (horóscopos, quiromancia, esoterismo, espiritismo etc).
  • Freqüento ou freqüentei outras seitas ou religiões?
  • Recebi indignamente algum sacramento?
  • Freqüentei ou pertenço a alguma associação contrária à fé católica?
  • Blasfemei contra Deus, Santos ou coisas santas, em particular ou em público?
  • Fiz algum voto, promessa ou juramento e deixei de cumpri-lo deliberadamente?
  • Freqüento as missas inteiras e delas participo com atenção e interesse, principalmente aos Domingos e dias santos?

 

Amarás o teu próximo como a ti mesmo

  • Considero as demais pessoas como irmãos respeitando sua dignidade de filho de Deus?
  • Procuro repartir o que tenho, dentro de minhas possibilidades, sem egoísmo?
  • Respeito as autoridades constituídas, os mais velhos e meus pais/filhos e demais familiares?
  • Dei mau exemplo não cumprindo meus deveres religiosos, familiares, sociais e profissionais?
  • Tenho um relacionamento digno com o meu cônjuge?
  • Tolerei escândalos ou perigos morais e físicos entre pessoas que vivem na minha casa?
  • Respeito a vida alheia, principalmente sua honra, não julgando, fazendo calúnias ou fofocas, ouvindo conversas privadas ou violando correspondências pessoais?
  • Já pratiquei, defendi ou auxiliei algum ato contra a vida? (aborto, suicídio, eutanásia etc)
  • Desleixei a minha saúde? Embriaguei-me, comi ou bebi em excesso, utilizei drogas.  Tenho algum vício?
  • Alimentei minha imaginação e fantasia com desejos contra a virtude da castidade, embora não tenha praticado?
  • Tive conversas imorais, assisto a filmes, espetáculos, leio livros ou revistas, freqüento “sites” imorais ou eróticos?
  • Realizei alguma ação impura – mastubarção ou ato sexual – quantas vezes? Sozinho ou acompanhado de outra pessoa? Do mesmo sexo ou do oposto? Havia alguma circunstância de parentesco que a tornasse essencialmente grave?  Essas relações tiveram alguma conseqüência grave? Como foi solucionada?
  • Usei do matrimônio indevidamente?  Faltei à fidelidade conjugal por pensamentos ou ações (adultério)?  Utilizo  ou faço propaganda dos métodos contraceptivos artificiais?
  • Tenho preservado  pura e castamente a minha vida, tanto no corpo quanto na mente?
  • Apropriei-me de algum bem alheio?  (roubo ou furto).  Auxiliei alguém na realização dos mesmos?
  • Prejudiquei alguém com enganos, coações, defraudei contratos comerciais, subornei ou aceitei suborno, compro coisas em locais comprovadamente ilegais (geralmente ligados ao crime) para obter preços mais baratos, cobrei juros extorsivos?

colaboração: Luiz Maurício Osório