Vista da varanda, de Hotel, Nazareth, Israel
 
A) Sobre o Futuro:
  
A escatologia bíblica deve sempre ser lida como proposição proveniente do presente, enquanto revelado, orientado para o verdadeiro futuro, e não como afirmação proveniente de um futuro antecipado e destinado ao presente. A expressão proveniente do presente, projetada no futuro, é escatológica; a proveniente do futuro e voltada para o presente é apocalíptica”, Karl Rahner († 1985).
 
Geralmente se distingue três formas de enunciados religiosos que tem por objeto o futuro: o presságio, a profecia e a apocalíptica. 
 
a) Presságio: predizem-se os acontecimentos que sobrevirão para influir indiretamente, sobre o presente. A esse respeito, a Bíblia conhece predições que se referem não só ao povo e a seus representantes, mas também aos indivíduos em particular, cf. Am 7,17; Is 22, 16-25; 1Sm 10,2-8, que devem ser interpretados como obscura, mas autêntica prefiguração do futuro ou antes como sinal arbitrário, fruto da superstição.  Essa nuança também vai aparecer no NT, onde Jesus Cristo e a comunidade cristã são considerados como o cumprimento das predições do AT. 
 
b) Profecia: visa exercer, com seus enunciados sobre o presente, uma influência sobre o futuro. A palavra profética tem, pois imediatamente o presente sob os olhos. No centro desta pregação se acham os problemas e as instâncias dos diversos momentos históricos em que se vive. A mensagem proclamada pelos profetas o é em termos de presente: Crede! Escutai! Vede! Tomai conhecimento! Ou Convertei-vos! Cf. Am 5,6; Os 6,3; Is 7,10.14; Jr 36,3. A palavra profética é uma palavra crítica, palavra que convida a efetuar uma opção na situação concreta e atual. A conotação fundamental desta concepção reside no fato de que aqui o presente não é observado isoladamente, mas sim sob o aspecto do futuro. Esse futuro é entendido como a instância que desvelará o presente e o mistério que o envolve, motivo pelo qual a mensagem profética solicita uma clarificação e decisão no momento presente. A arma que usa para modificar o presente é a da palavra, que tem o poder de interpretar a prefiguração sob a qual se acha.  
 
c) Apocalíptica: elabora um modelo universal de futuro e de história que não solicita de modo algum os homens a configurarem o futuro. O escritor apocalíptico dirige seu olhar para lá das aparências, para as coisas futuras que nos são ocultas, mas que para Deus já são perfeitamente realizadas e presentes. Esse tipo de futuro só pode ser esperado como fato que Deus um dia vai realizar. Um futuro observado neste prisma se traduz na exortação a esperar com paciência (penitência) o futuro e não em um convite a influir de modo decisivo sobre o curso dos acontecimentos históricos. Os destinatários a que escrevem são indivíduos perseguidos e oprimidos, pessoas, pois que mais que as outras sentem necessidade de consolação. Olhar para um novo mundo, já presente em Deus e aperfeiçoado, para pessoas que tanto sofrem, significa reforçar a própria confiança em um Deus que, apesar de todos os contrastes, no final há de sair vitorioso. Seria, pois errado basear-se no sentido etimológico do termo apocalipse = revelação para concluir que esses textos teriam como intuito revelar-nos os segredos do futuro. Na acepção mais rigorosa ela não significa nem revelação nem manifestação. Anuncia uma revelação futura, uma revelação de ainda não dispomos. 
 
Não se pode, porém negar que a escatologia se baseia, em grande parte, em afirmações de cunho apocalíptico. Utilizando essas fontes, deve-se ter muita cautela. O gênero literário típico do cristianismo não foi o apocalipse, mas o Evangelho (boa notícia). Esses destaques mostram qual foi o centro de gravidade e o ponto de referência de uma pregação cristã (querigma) que tinha por objeto os “novíssimos”. Como fundamentos de todo enunciados sobre o futuro têm aquilo que em Jesus Cristo se verificou de modo definitivo. Aquilo que cristamente se deve afirmar da história e do futuro não é outra coisa senão conseqüência e conclusão do que já se acha contido no Evangelho. 
 
O reino dos futura é o reino das possibilidades abertas, das metas de cumprimento dignas de crédito de nossa existência, de uma realidade que transcende tudo aquilo que existe. A liberdade e o poder transcender-se no futuro se acham ligados um ao outro e só podem ser pensados juntos. 
 
Na relação que o homem mantém com o futuro se questiona o exercício responsável de sua liberdade. O arco de tensão que caracteriza esse relacionamento, e que se acha condensado nos enunciados sobre o futuro, tem como extremos o medo e a ilusão. Todos esses enunciados apresentam um ponto de contato com o presente. 

  

B) A fonte dos enunciados escatológicos:  

A escatologia não pode basear-se apenas no costume e na tradição. O que, sobretudo caracteriza uma pré-compreensão e interpretação dos enunciados escatológicos é o conceito de revelação que lhe está na base. 

O ponto de partida da definição de “revelação” está no agir salvífico de Deus vivo em prol do homem. É acontecimento de graça que se verifica na história. Este amor libertador e incondicional de Deus ao homem se revelou de modo absolutamente singular em Jesus Cristo e se manifestou como salvação para todos os homens. 

Caráter e força do acontecimento da revelação e sua interpretação profética não podem ser relacionadas exclusivamente com o presente: o horizonte dentro do qual são experienciadas e aprofundadas se amplia a ponto de abranger passado e futuro. Passado e futuro se inserem nas dimensões imanentes à salvação que se nos manifestou no presente. 

No que diz respeito ao passado relatos bíblicos da criação, se pode reconhecer uma “profecia prospectiva”, baseada no acontecimento de revelação e salvação experienciado no presente. O futuro, a que se referem, representa a dimensão interna de um presente que está debaixo do sinal da salvação que se experiência. Enquanto “profecia do futuro”, as afirmações escatológicas realizam aquele futuro que se acha contido no presente e passado do agir libertador de Deus, agir que agora se anuncia. Esse futuro deve ser substancialmente visto como o “futuro daquilo que aconteceu” (W. Kreck) ou também como a realização daquilo que já começou. Tal densidade se liga, segundo a autocompreensão da fé cristã, ao modo como o agir divino se revelou em Jesus Cristo. N’Ele é que se deve procurar a fonte dos enunciados escatológicos. 

O presente, considerado como a verdadeira relação com Deus, em seus aspectos de conduta de Deus para com o homem, nos liga ao futuro desta terra com o éschaton transcendente. Desse éschaton a Bíblia não nos dá a conhecer nada antecipadamente. Nada sabemos sobre os últimos acontecimentos transcendentais: juízo, volta de Cristo, céu, purgatório e inferno, exceto enquanto já se acham indicados no curso de acontecimentos históricos que exprimem a relação real entre o Deus da Aliança e a humanidade, especialmente em Cristo, o “último Adão”, isto é, “o homem do éschaton” (1Cor 15,45; Ap 1,18; 22,13). A escatologia não nos permite, assim, afastar-nos da história terrestre, porque somente na profundidade dessa história pode começar a tomar forma. 

Falar, voltando-se do presente para o futuro, é escatologia; falar, olhando do futuro para o presente é apocalipse” (K. Rahner † 1985).). A escatologia exprime a convicção de que a história do mundo pode encontrar sua plenitude em Cristo, o qual personifica a promessa de Deus. Essa salvação deve realizar-se já agora em nossa história, neste mundo nosso, e de tal modo a história se torna profecia do éschaton final e transcendente. Mediante sua “justificação” os fiéis se tornam responsáveis do novo aspecto desse mundo, cuja dimensão mais profunda será perpetuada na eternidade. Pois a eternidade não vem depois do nosso tempo ou nossa história, mas é a consumação final, ao mesmo tempo transcendente e intrínseca, desta mesma história. 

 

C) Critérios dos enunciados escatológicos: 

Podemos expor também algumas notas que caracterizam os enunciados escatológicos. 

Os enunciados escatológicos se caracterizam pelo fato de deixar-se referir ao Evangelho de modo correto, isto é, em conformidade com Jesus. No centro temos a notícia de um Deus que libertou e incondicionalmente aceitou o homem, antes mesmo que este lhe oferecesse qualquer obséquio, a notícia de sua eterna fidelidade e total confiança em todas as criaturas, sem excluir nenhuma, mas também a exigência de que o homem aceite corajosamente essa proposta e na fé se lhe entregue sem reservas. Se tomarmos como base os dados bíblicos, reconheceremos certamente à escatologia como um papel complementar para determinar aquilo que o Evangelho significa. 

Fato de deixar que o futuro permaneça futuro vale igualmente contra toda tentativa de reduzir a escatologia a um acontecimento só do presente ou só do futuro. “Se estudamos a história bíblica de um ponto de vista de um acontecimento transmitido em uma interpretação crente e crítica, podemos ver que no presente do povo de Deus, vivendo no contexto daquela história das tradições, já se acha contida a indicação de seu futuro. O ‘futuro’ é uma dimensão intrínseca do presente, tem relação com aquilo que deve ainda ocorrer no tempo e que não nos permite portanto perceber agora já sua forma futura. Em vista da historicidade essencial do homem, ‘futuro’ quer dizer um futuro que começa a partir do presente, e portanto do passado. O futuro é um elemento intrínseco na compreensão que o homem tem de si mesmo. Essa realidade escondida se acha, portanto, em relação intrínseca com a realidade… Neste sentido não pode haver uma verdadeira escatologia do futuro sem uma certa escatologia do presente. Embora o futuro contenha em si mesmo o elemento ‘ainda-não’, não podemos negligenciar o elemento ‘’ que nos permite atribuir sentido àquilo que dizemos sobre o futuro ainda desconhecido” (Edward. Schillebeeckx † 2009). 

O Deus do fiel se há de mostrar como “Aquele que vem”. Aquele que antes, em nossa velha visão do homem e do mundo, víamos como “o totalmente outro”, agora passamos a Vê-l’O como “o totalmente novo”. Ele se revela como Deus que nos oferece, em Jesus Cristo, a possibilidade de construir o futuro, de renovar todas as coisas, e de nos erguermos acima de nossa própria pecaminosidade, acima da história de toda a humanidade. 

Os enunciados escatológicos são reconhecíveis pelo fato de distinguirem entre Deus e Deus, ou mais precisamente, entre o “deus absconditus” e o “deus manifestus”. 

Referência: Feiner J, Loehrer M., Mysterium Salutis, Do Tempo para a Eternidade, Volume V/3, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ,1985, PP 72-93.