Santuário Nossa Senhora da Penha de França – Rio de Janeiro/RJ

Em setembro de 2009, no Vaticano, o Santo Padre Bento XVI, na homilia de consagração de cinco novos bispos, comentando Mc 10,45: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos“, quer mostrar aos presbíteros o olhar que se deve ter sobre o sacerdócio de Jesus. Continuou o Santo Padre: “Servir e, com isso, doar-se a si mesmo; ser não para si, mas para os outros, da parte de Deus e em vista de Deus: isto é o núcleo mais profundo da missão de Jesus Cristo e, junto, a verdadeira essência do seu Sacerdócio“.

Para Jesus, o termo “servo” é o seu mais elevado título de honra. Nele se cumpriu a inversão dos valores, que deu uma nova imagem de Deus e do Homem. Seu sacerdócio não é domínio, mas serviço. Em Jerusalém, na última semana de sua vida, Jesus destacou três características do “servir”: FIDELIDADE, PRUDÊNCIA E BONDADE.

FIDELIDADE, é algo libertador para o sacerdote e para aqueles que são confiados a ele. A fidelidade não é estéril ou estática; é criativa. Fidelidade não é medo, mas é inspirada pelo amor e por seu dinamismo. Até nós congregados marianos, cantamos em nosso hino “…fidelidade por toda a vida”.

PRUDÊNCIA, é diferente da astúcia. E, segundo a tradição filosófica grega, é a primeira das virtudes cardeais; indica a primazia da verdade, que através da “prudência” torna-se critério do nosso agir. Prudência significa colocar-se em busca da verdade e agir segundo ela. Assim, a primeira virtude cardeal do sacerdote consiste em deixar-se plasmar pela verdade que Cristo nos mostra.

BONDADE, pressupõe, sobretudo, uma viva comunhão com Deus. Somente se a nossa vida se desenvolve no diálogo com Ele, poderemos nos tornar verdadeiramente servos bons, pois Ele é o Sumo Bem.

Após esta colocação, o Santo Padre conclui que A VERDADEIRA ESSÊNCIA DO SACERDOTE É SERVIR.

Agora, relembrando o Ano Sacerdotal, que acabamos de concluir na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, em 11 de junho de 2010. Ano este, que foi proclamado por ocasião do 150º aniversário do “nascimento ao Céu” do cura d’Ars, São João Maria Batista Vianney. Na Cerimônia de Abertura, o Papa Bento XVI em seu discurso responde a pergunta: – Por que um Ano Sacerdotal?

– O objetivo do Ano Sacerdotal, foi para favorecer o fortalecimento de cada presbítero “até a perfeição espiritual da qual depende, sobretudo a eficácia de seu ministério”, ajudar os sacerdotes e, com eles, todo o Povo de Deus, a redescobrir e revigorar a consciência do extraordinário e indispensável dom da Graça que o ministério ordinário representa para quem o recebeu, para toda Igreja e para o mundo, que sem a presença real de Cristo, estaria perdido.

Mas, nas atuais sociedades globalizadas. Num mundo em que a visão comum da vida compreende cada vez menos o sagrado, em cujo lugar o “funcional” converte-se na única categoria decisiva, a concepção católica do sacerdócio poderia correr o risco de perder sua consideração natural, inclusive dentro da consciência eclesial.

Cabe lembrar aqui, o decreto Presbyterorum ordinis do Concílio Vaticano II, onde afirma em seu n. 2: “Com efeito, o Povo de Deus é convocado e reunido pela virtude da mensagem apostólica, de tal modo que todos quantos pertencem a este Povo, uma vez santificados no Espírito Santo, se ofereçam como «hóstia viva, santa e agradável a Deus» (Rom 12, l). Mas é pelo ministério dos presbíteros que o sacrifício espiritual dos fiéis se consuma em união com o sacrifício de Cristo, mediador único, que é oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental pelas mãos deles, em nome de toda a Igreja, até quando mesmo Senhor vier”.

O sacerdote está profundamente unido ao Verbo do Pai (Alter Christus), que se encarnando tomou a forma de servo, fez-se servo (Cf. Filipenses 2,5-11). O sacerdote é servo de Cristo, no sentido de que sua existência, configurada com Cristo, assume um caráter essencialmente relacional: ele está em Cristo, para Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. O santo cura d’Ars repetia freqüentemente com lágrimas nos olhos:  “Que infeliz é um sacerdote sem vida interior!

Mas, em sentido contrário ao anúncio do Evangelho, há o hedonismo, que contribui para fazer penetrar a crise dos valores na vida quotidiana, na estrutura da família, no modo mesmo de interpretar o sentido da existência. Sintoma de uma situação de grave mal-estar social é também a difusão de fenômenos como a pornografia, a prostituição e a pedofilia.

Sabemos que, nos últimos meses, a Igreja Católica se viu envolvida em escândalos de pedofilia denunciados em diversos países, entre eles Irlanda, Alemanha, Estados Unidos, México, Itália e Brasil.

Em artigo publicado na Diocese de Dourados (MS), Dom Redovino Rizzardo, comenta que a Igreja por se compor de santos e de pecadores, será sempre «um sinal de contradição, causa de queda e de salvação para muita gente» (Lc 2,34). Por isso, mais do que lembrar que a pedofilia acontece em toda a parte e em todos os segmentos sociais, sobretudo dentro das quatro paredes domésticas, e que só pode «jogar a primeira pedra quem não tiver pecado» (Jo 8,7), ela é convidada a descobrir nessa crise e nessa onda de difamação contra ela, um apelo à conversão. Se isso acontecer, a fúria da mídia, em longo prazo, terá efeito contrário, colaborando para o surgimento de padres mais afinados com a vontade de Deus e as necessidades do povo.

No mês de março, em carta pastoral aos católicos irlandeses, o Papa se disse “envergonhado” pelos episódios de abusos cometidos por religiosos do país. Em abril, ao se reunir com vítimas de pedofilia em Malta, ele expressou “consternação” e “dor” por aquilo que elas sofreram.

O Papa vai a público, diversas vezes, pedindo desculpas pelos abusos do clero diante dos abusos da pedofilia e, no discurso do encerramento do Ano Sacerdotal, fala ao mundo, que à Igreja deve “fazer todo o possível a fim de que tal abuso não possa acontecer nunca mais“. Profundamente, em oração, o Santo Padre ora: “Senhor, na escuridão das tentações, nas horas de obscuridade nas quais todas as luzes parecem apagar-se, mostra-me que estás ali”. E pede “solenemente” aos ordenados para serem “fieis às promessas, servir a Deus e ao povo com santidade e coragem, sempre conformando as vidas ao mistério da cruz de Deus“.

Apesar de tudo, ousamos dizer que o amor à Igreja, é o caminho da felicidade, pois, Deus se colocou no coração do homem, a fim de atraí-lo a si, pois só ele pode satisfazê-lo. Todos certamente queremos viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta proposição, mesmo antes de ser formulada por inteiro. Só Deus satisfaz.

Bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5,3). As bem-aventuranças revelam uma ordem de felicidade e de graça, de beleza e de paz. Jesus celebra a alegria dos pobres, a quem já pertence o Reino: “Ele se fez pobre por nós” (2 Cor 8,9).

Deus, em seu plano de amor, Ele vê a nossa alegria e a nossa felicidade. Mas a nossa alegria só será verdadeira, se brotar do Coração de Deus e nos fizer retornar para o Senhor.

Enquanto esteve aprisionado “por causa de Cristo, por amor à Igreja” (Ef 3,1) e “pela causa do Senhor” (Ef 4,1), São Paulo compreendeu que a verdadeira realização não consiste nas coisas secundárias dessa vida e que, mesmo com a falta de tudo, o plano divino, realizado em nossas vidas, leva-nos àquela felicidade que ninguém pode arrancar de nossos corações. Por isso, diz: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 3-4).

A vocação de cada cristão nasce da mais profunda intimidade do Pai, se concretiza, necessariamente, na vida da Igreja e se projeta, com as demais realidades do dia-a-dia, para as realidades últimas e para a experiência definitiva, no âmbito da graça de Deus.

O amor de Deus foi derramado, em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). E não temos forças para reter esse amor de Deus. Não podemos querer ser mais amados do que já somos, nem podemos pensar que amaremos mais a alguém do que Deus o ama. Mas, o amor de Deus, em nós, nos faz amar com dignidade e integridade.  Santa Teresinha do Menino Jesus, a jovem de Lisieux, nos recorda a maravilhosa ação do amor de Deus em nós: “Minha vocação na Igreja é o amor”.

Definitivamente, não se realiza quem não ama com o amor de Deus. Não descobre sua vocação quem não descobriu o amor.  Pelo contrário, enxerga, com clareza, onde está a sua vocação (no ministério sacerdotal, no matrimônio, na vida consagrada…) quem ama o Senhor e tudo o que ele nos dá. O amor de Deus, em nós, vai “desvendando” os caminhos que devemos percorrer para que os desígnios divinos se cumpram.

As pessoas deveriam perguntar a si mesmas: Para onde sou impulsionado pelo amor de Deus? Para onde vejo o amor de Deus me levar? Onde poderei me tornar “dom” nas mãos de Deus? São perguntas fáceis de fazer, mas muito complexas de serem respondidas. Porém, seguramente, a vocação sacerdotal e a nossa vocação de leigo vão por esse caminho, nessa direção. Ora, a qualidade do nosso amor é a qualidade da nossa doação e a qualidade da nossa realização.

São João, Apóstolo amado, experimentou a qualidade desse amor, não só pelas atitudes e palavras que testemunhou do Mestre ou pelo calor do contato diário com Cristo, mas também pela proximidade daquele momento insuperável na História da Humanidade, quando o Amor se derramou, completamente, na Cruz.

A doação de cada pessoa àquilo que faz constrói um mundo melhor, mais justo e mais solidário; o mundo encontrará a paz que tanto deseja se os homens descobrirem a força desse amor que nos impele, nos purifica e nos leva à busca do bem.

O amor: eis a minha vocação!” O amor é paciente e bom, a vocação não permite inveja, nem ostentação. O amor não se incha de orgulho, a vocação não admite interesses próprios. O amor não se irrita, a vocação não aceita rancor… O amor jamais acabará!

A bondade pressupõe, sobretudo, uma viva comunhão com Deus. “Somente se a nossa vida se desenvolve no diálogo com Ele, poderemos nos tornar verdadeiramente servos bons” (conf. Cardeal emérito do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Oscar Scheidt)

Quantas vezes a história na qual vivemos se parece com um mar escuro que atinge com ondas ameaçadoras o barco da nossa vida. Muitas vezes, a noite parece impenetrável. Muitas vezes, tem-se a impressão de que somente o mal tem poder. Muitas vezes, percebemos somente de longe a grande luz, Jesus Cristo, que venceu a morte e o mal. Mas então vemos muito próxima a luz que se acendeu, quando Maria disse: ‘Eis a serva do Senhor’. Ele nos deu a sua Mãe como nossa Mãe, a fim de que aprendamos com Ela a pronunciar o ‘sim’ que nos torna bons” (conf. Papa Bento XVI).