ORIGEM E FINALIDADE DA IGREJA.    

A palavra “Igreja”.    

Etimologicamente, “igreja” é um termo proveniente do grego – “ekklesía”, que por sua vez traduz a palavra hebraica “qahal” que pode significar tanto “assembléia convocada” como “assembléia reunida”.  No texto grego do Antigo testamento (versão dos Setenta ou Septuaginta) é um termo freqüentemente usado para designar a assembléia do povo eleito na presença de Deus, sobretudo quando se tratava da congregação no Sinai.  A palavra foi empregada no Antigo Testamento para assinalar Israel como comunidade santa, povo de Deus (Ex 19,3-6).    

O Novo Testamento recolhe o duplo significado original e dá ao termo seu sentido definitivo que identifica a nova comunidade dos santos, como o novo Povo de Deus redimido por Cristo, como a assembléia constituída pelos que respondem à chamada universal de Deus para o seu Reino e a sua glória.[1] (1Ts 2,12).  Quando a primeira comunidade cristã se designa com o nome de “ekklesia”. Reconhece ser de algum modo herdeira daquela assembléia do Antigo Testamento.    

Os primeiros cristãos utilizam a palavra “igreja” tanto para designar a assembléia litúrgica como as diferentes comunidades locais (Jerusalém, Corinto, Éfeso, etc), além de designar o conjunto de todos os cristãos espalhados pelo mundo.  “A Igreja é o povo que Deus reúne no mundo inteiro Ela existe nas comunidades locais e realiza-se como assembléia litúrgica, sobretudo eucarística”.    

Origem trinitária da Igreja.    

A Igreja não surgiu ao acaso, muito menos é obra do homem como alguns teimam em afirmar; ela é um projeto trinitário, isto é, foi planejada desde toda a eternidade pelas Três Pessoas da Santíssima Trindade – ela existe pelo desígnio amoroso do Pai Eterno, foi inaugurada, no tempo, por Jesus Cristo e é constantemente vivificada pelo Espírito Santo.    

Para nós, seres humanos, o desenvolvimento deste grande projeto divino constitui-se a História da Salvação – “Historia Salutis” – fruto da misericórdia de Deus para oferecer aos homens a libertação dos seus pecados e a Bem-Aventurança Eterna.  Esta História da Salvação iniciou-se no momento da queda de Adão e Eva (pecado original), passou pela eleição de Israel como povo de Deus, alcançou seu ápice no Mistério Pascal de Jesus Cristo e prossegue o seu curso até se completar no final dos tempos com a instauração definitiva do Reino de Deus, quando “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,22-28).  Nesta História da Salvação a Igreja, por vontade divina, exerce papel primordial tanto que se denomina de “tempo da Igreja” àquele que vai, da sua fundação por Cristo (Pentecostes) até a futura consumação do final dos séculos, isto é, o tempo em que estamos vivendo.    

Fundamentação bíblica.    

Este desígnio do Pai de salvar todos os homens pela Igreja (por Cristo, no Espírito Santo) tem as seguintes etapas históricas:    

  • no começo do mundo: a prefiguração;
  • na história de Israel: a preparação;
  • no tempo de Cristo: a inauguração ou nascimento;
  • no final dos tempos: a consumação

Os marcos preparatórios da Igreja mais importantes são as duas alianças realizadas por Deus com Abraão e Moisés.  Na primeira, estabelecida por volta de 1850 a.C, o Senhor promete a Abraão torná-lo pai de um grande povo, que será bendito entre as nações (Gn 12,1-3; 17,1-8); mediante a segunda, realizada com Moisés  no  Sinai,  cerca de  600 anos  depois,  Israel  converte-se no “povo de Deus” (Ex 19,3-8).    

Nestes dois episódios vemos claramente a prefiguração do mistério da Igreja.  A verdadeira descendência de Abraão, diz São Paulo, são aqueles que pela fé imitam o Patriarca, tornando-se herdeiros das bênçãos prometidas e que constituem a Igreja que tem por cabeça Jesus Cristo (Rm 9,6-8).  No séc. XIII a.C. o povo de Abraão, cativo no Egito, é libertado por YHWH mediante Moisés.  Este acontecimento prefigura o grande êxodo a ser efetuado na plenitude dos tempos mediante Jesus Cristo, que libertaria o povo de Deus cativo do pecado e da morte para o Reino de Deus, Reino de amor e vida.    

No Novo Testamento Jesus Cristo lança os fundamentos para a inauguração da Igreja, que ocorre nos “Últimos tempos[2], através de uma série de atos que, vistos em conjunto, permitem-nos vislumbrar a clara intenção de Cristo em fundar a sua Igreja.  Entre estes atos podemos destacar principalmente: a vocação dos doze, a concessão do primado de Pedro e a instituição da Eucaristia.  Entretanto, não podemos esquecer que a Igreja não começa a existir propriamente até Pentecostes.    

Podemos identificar os seguintes passos de Jesus para a estruturação e inauguração de sua Igreja:    

Inicialmente, dentre todos os discípulos, Jesus chamou “os que ele quis” (Mc 3,13-15), deu-lhes seu poder e os enviou (Lc 9,1-6) para atuarem em nome de Jesus (Mc 6,35-44).  Jesus estabelece uma hierarquia entre os Apóstolos, instituindo Pedro como o “chefe” (Mt 16,13-20), concedendo-lhes uma unção e poder particular (Jo 20,19-23) para que pudessem continuar sua missão até o final dos séculos (Mt 28,18-20), cooperando com eles para a realização da missão (Mc 16,15-20).    

Na Ascensão promete o auxílio do Espírito Santo (At 1,1-8) que é enviado em Pentecostes (At 2,1-4) e os discípulos saem a pregar em nome de Jesus: Nasce a Igreja (At 2,40s) e os Apóstolos realizam as mesmas ações de Jesus (At 3).    

Portanto é indiscutível a vontade de Jesus Cristo em fundar sua Igreja como continuadora de sua missão através dos tempos.    

As imagens da Igreja.    

Afirmar que a Igreja participa do mistério do que é divino e que conseqüentemente o homem é incapaz de compreendê-la totalmente, demonstra apenas a limitação de nossa inteligência e não a impossibilidades de conhecer a realidade Igreja.  Para nós são acessíveis todos os elementos terrenos da Igreja, mas a sua perfeita relação com os elementos celestiais, assim como seu exato dinamismo salvífico nos é dado pela fé.  Reside aqui precisamente o seu “mistério”.    

Das muitas imagens utilizadas – redil, rebanho, vinha, campo, edificação, esposa etc – as mais elaboradas são as relacionadas a cada uma das Pessoas da Trindade: Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo e Templo do Espírito Santo.    

Povo de Deus – a importância desta imagem é refletida na sua utilização como título do segundo capítulo da Constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II que retirou do esquecimento esta imagem paulina.  Esta imagem é a principal porque destaca o papel da Igreja na história da salvação, fundamentando-a no Antigo Testamento e em Israel como já vimos: “Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem nenhuma conexão de uns com os outros, mas constituí-los num povo que o conhecesse na verdade e santamente lhe servisse27.    

A idéia chave da constituição dogmática sobre a Igreja ao utilizar esta imagem é mostrar que ela como povo de Deus é composta por todos os fíéis batizados.  A hierarquia (diáconos, sacerdotes e bispos) só tem razão de ser se entendida como participante deste povo e estar a seu serviço.  No início o nome “leigo” (“laos” = consagrado) significava todos os membros do povo, somente após o século III passa a designar os não participantes do clero.  A Igreja não é somente o clero, é composta por todos os batizados: “Esse povo tem por condição a dignidade e a liberdade de filhos de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo como num templo.  Sua lei é o mandamento novo de amar como o próprio Cristo nos amou (Jo 13,34).  Sua meta é o Reino de Deus, iniciado na terra pelo próprio Deus, a ser estendido mais e mais até que no fim dos tempos seja consumado por Ele próprio, quando aparecer Cristo nossa vida (Cl 3,4) e a própria criatura será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8,21)27.    

Corpo Místico de Cristo (Rm 12,4ss; Col 1,18) – até o séc. XVI, a teologia hesitou em aplicar esta imagem à Igreja, pois o Corpo de Cristo era apenas a Eucaristia; atualmente, entretanto, está bem claro que existe uma complementaridade entre as duas realidades visto que a comunhão do Corpo Eucarístico de Cristo significa, produz e edifica a comunhão íntima de todos os fiéis no Corpo de Cristo que é a Igreja – “na santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja[3].    Em 1943 o Papa Pio XII na Encíclica Mystici Corporis afirmou que a imagem do Corpo é uma excelente descrição da Igreja e esta descrição foi acolhida igualmente pelo Concílio Vaticano II que dedica a ela um número inteiro e amplo.    

Templo do Espírito Santo (1Cor 3,16s.) – esta imagem é menos completa que as anteriores e foi também a menos tratada pela teologia.  O Catecismo da Igreja Católica (797-798) reúne vários aspectos da atividade do Espírito como “alma” da Igreja.  Na realidade, isto é precisamente o que indica a imagem: a presença do Espírito como princípio vital, aglutinador e santificante do Povo de Deus e Corpo Místico de Cristo.  Templo significa o edifício em que Deus “habita” e, portanto, onde o homem O encontra e Lhe presta culto.    

À luz destes significados concluímos que a Igreja:    

  • é o “lar” da Santíssima Trindade, seu reduto predileto e mais íntimo.
  • tem uma tarefa fundamental de culto e serviço a Deus.
  • é o lugar onde o ser humano poderá relacionar-se com Deus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.    

  • Compêndio do Vaticano II.  Editora Vozes, 1987.
  • Catecismo da Igreja Católica.  Editora Vozes, 1998.
  • Curso de Eclesiologia.  Escola “Mater Ecclesiae”, 1996. 

por Luiz Mauricio Osório    


 

[1] CEC 751    

[2] LG 2.    

[3] Ecclesia de Eucharistia (EE) 1.