A IGREJA, SOCIEDADE HIERARQUICAMENTE ESTRUTURADA.  

A palavra hierarquia vem do grego “hierón” (sagrado) e “arché” (princípio).  Etimologicamente, portanto, significa “princípio sagrado” ou “governo sagrado”.  

Na verdade, a hierarquia da Igreja não implica numa casta de pessoas privilegiadas; pois na Igreja não existem classes superiores e inferiores.  Sendo ela um sacramento, o seu Pastor Supremo é Jesus Cristo que comunica, em graus diversos, as faculdades necessárias para que os pastores por Ele chamados governem sabiamente o Povo de Deus.  O que distingue as pessoas colocadas em posto superior não é um grau maior de graça ou santidade, mas um maior grau de responsabilidade na condução deste povo.  Em consequência, a autoridade dos ministros consagrados na Igreja há de ser vista como um serviço (ministério) que deve concorrer para o bem de todo o Povo de Deus (Rm 13,1-4; 1Pd 5,2-4).  A estrutura hierárquica da Igreja é, em nossos dias, mais complexa do que nas suas origens; isto se deve ao fato de que todo o povo, à medida que se desenvolve, deve dispor de novas estruturas e novos organismos que atendam às suas necessidades.  Deve-se entender claramente que a estrutura hierárquica da Igreja não é fruto de uma delegação democrática, mas sim continuação da estrutura apostólica determinada por Jesus Cristo.  Só poderemos conhecê-la recorrendo à Sagrada Escritura e à Tradição.  

Na Igreja o primeiro e fundamental é ser membro dela pela incorporação a Cristo, formando parte do Corpo Místico e sendo membro do Povo de Deus.  Somente depois disto podemos falar da hierarquia como uma autoridade posta por Cristo à frente e ao serviço do seu povo.  O Concílio Vaticano II dedicou o capítulo III da Constituição “Lumen Gentium” precisamente à hierarquia da Igreja: “O Cristo Senhor, para apascentar e sempre mais aumentar o povo de Deus, instituiu na sua Igreja vários ministérios, que tendem ao bem de todo o corpo.  Com efeito; os ministros que são revestidos de poder sagrado, estão a serviço dos seus irmãos, a fim de que todos aqueles que pertencem ao Povo de Deus e, por isto, gozam da autêntica dignidade cristã, aspirem todos juntos, livre e ordenadamente, ao mesmo objetivo e chegue à salvação[1].  “Os bispos com seus auxiliares presbíteros e diáconos, receberam o encargo de servir à comunidade, presidindo, em lugar de Deus, ao rebanho do qual são pastores como mestres da doutrina, sacerdotes do culto sagrado, ministros do governo[2].  Portanto, a hierarquia da Igreja tem origem divina e consta de três graus: o episcopado, o presbiterado e o diaconato.  

Recordemos que Cristo elegeu os Apóstolos e colocou a sua frente Pedro com o objetivo de confirmá-los na fé (Jo 21,15-17).  Os Apóstolos também elegeram colaboradores e lhes impuseram as mãos, a fim de que a missão a eles confiada por Cristo continuasse após sua morte.  Confiaram aos seus cooperadores o encargo de consolidar a obra por eles iniciada (1Tm 5,22; 2Tm 2,2; 6,4ss; Tt 1,5).  

Jesus Cristo, Pastor eterno, edificou a santa Igreja, enviando os Apóstolos da mesma forma que ele tinha sido enviado pelo Pai (Jo 20,21) e quis que seus sucessores, que são os bispos, fossem apóstolos de sua Igreja até o fim dos tempos e, para que o episcopado fosse uno e indiviso, pôs São Pedro como cabeça dos Apóstolos e estabeleceu nele o fundamento e o princípio perpétuo e visível da unidade da fé e da comunhão” [3].“Os bispos, por uma sucessão que surge desde o princípio, conservam a sucessão da semente apostólica primeira” [4].  

Estes fizeram partícipes de sua missão em um grau subordinado os sacerdotes (presbíteros), que dependem deles e que “unidos a eles em honra do sacerdócio e em virtude de sacramento da ordem, foram consagrados como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento segundo a imagem de Cristo, sumo e eterno Sacerdote”[5].  Finalmente, dentro da hierarquia eclesial devemos mencionar também os diáconos, os quais recebem a imposição das mãos não para o sacerdócio, mas sim para o ministério [6]  (At 6,1-6).  

A hierarquia, portanto, é um poder sagrado, um poder que vem diretamente de Cristo; não é uma delegação da comunidade.  A comunidade não pode aumentá-lo ou diminuí-lo como acontece nas sociedades civis democráticas.  Além disso, esta constituição hierárquica em nada se opõe à responsabilidade comum de todos os batizados.  Todos são responsáveis na Igreja, se bem que esta responsabilidade varia segundo a função que cada um tem no seio da mesma.  A responsabilidade suprema no seio da Igreja é exercida pelo Papa e pelo colégio episcopal, presidido pelo Sumo Pontífice.  Esta suprema responsabilidade foi concedida inicialmente a Pedro, eleito por Cristo a frente de sua Igreja como pedra de sustentação, dando-lhe as chaves do Reino dos céus (Mt 16,18s) e constituindo-o pastor de todo o rebanho (Jo 21,15s).  Porém, por outro lado, Cristo mesmo deu este poder a todo o colégio apostólico unido a sua cabeça (Mt 18,18; 28,16-20).  Nunca o colégio aparece funcionando sem o Papa, mas sim unido a ele, pois o encargo de fortalecer a fé de seus irmãos foi concedido a ele (Lc 22,32).  

A autoridade da hierarquia da Igreja é uma autoridade de serviço, a semelhança de Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 10,45; Jo 13,20; Mt 23,8-11) – é uma autoridade que não se rege pelo estilo da autoridade deste mundo. É uma autoridade que procede da missão de Jesus Cristo e da ação permanente do Espírito.  É uma autoridade que se exerce dentro da fraternidade e a serviço dos homens.  É uma autoridade marcada pela transitoriedade e a condição peregrinante da Igreja e que não deverá ser exercido em benefício próprio ou buscando a glória humana, nem tampouco ceder aos caprichos do povo, mas sim transmitir com fidelidade a palavra de Deus, realizar a santificação, cuidar pela unidade, corrigindo, exortando e governando o povo de Deus.  

Os fiéis cristãos – “fiéis são aqueles que, por terem sido incorporados em Cristo pelo Batismo, foram constituídos em Povo de Deus e por este motivo se tornaram a seu modo participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo e, segundo a própria condição, são chamados a exercer a missão que Deus confiou à Igreja[7].  

Como cidadãos do Povo de Deus, os fiéis cristãos são filhos de Deus e têm uma dignidade toda especial; nisto reside o “princípio da igualdade essencial” de todos os membros da Igreja, o que garante a cooperação e co-responsabilidade de todos, cada qual na sua função e posição com vistas à edificação do Corpo de Cristo[8].  Entretanto, este princípio da igualdade essencial é imediatamente influenciado pelo “princípio de diversidade funcional”; também por instituição divina, na dupla tipologia existente na Igreja: os ministros consagrados ou clérigos, que são os que receberam o sacramento da Ordem e os leigos [9].  

Sacerdócio comum e sacerdócio ministerial – como pode ser observado, o Sacramento da ordem é o divisor de águas da dignidade radical comum dos fiéis cristãos.  Assim, por determinação de Jesus Cristo, o Povo de Deus, povo eminentemente sacerdotal (1Pd 2,9s), dedicado ao culto de seu Senhor, é formado por dois tipos de sacerdócio: comum e ministerial.  

O sacerdócio comum é a participação no sacerdócio de Cristo transmitido pelo batismo, reforçado na Confirmação ou Crisma e com seu centro e raiz na Eucaristia.  Portanto, este sacerdócio é exercido “na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, mediante o testemunho de uma vida santa e na caridade operante[10], Além disso capacita-nos para oferecer sacrifícios espirituais gratos a Deus, através de Jesus Cristo (1Pd 2,5), bem como contribuir para a missão salvadora da Igreja.  

Paralelamente, pelo sacramento da ordem, alguns membros do Povo de Deus, sobre a base do sacerdócio comum, recebem o sacerdócio ministerial ou hierárquico, isto é, uma participação especial no sacerdócio de Cristo, que lhes confere “o sagrado poder da ordem, para oferecer o Sacrifício, perdoar pecados e exercer oficialmente o ofício sacerdotal em nome de Jesus Cristo e a favor dos homens[11].  

Podemos concluir que o sacerdócio comum e ministerial “são essencialmente diferentes e não apenas em grau[12], pois quem recebe o Sacramento da Ordem, pelo “caráter” que é impresso, é capacitado para atuar “na pessoa de Cristo” (“in persona Christi”), isto é, em plena identificação sacramental com Ele.  

Os ministros sagrados – como acabamos de ver, todo o sacerdócio confere funções santificadoras, mas o sacramento da Ordem confere-as juntamente com as tarefas de ensinar e governar o Povo de Deus e com um caráter muito singular: atuar em nome e com a autoridade de Cristo (“in persona Christi”).  Nestas características conforma-se o poder sagrado dos ministros ordenados. Este poder sagrado transmitido pelo sacramento da Ordem não atinge igualmente a todos, isto porque se trata de um sacramento que se confere em três graus escalonados e subordinados: episcopado (bispos), presbiterado (padres) e diaconato[13]. Assim, o Povo de Deus constitui uma sociedade hierarquicamente estruturada principalmente no serviço – “os ministros que possuam o poder sagrado estão ao serviço dos seus irmãos, para que todos os que pertencem ao Povo de Deus alcancem a salvação[14].  Esta é a razão porque a hierarquia é chamada de “ministério eclesial”, e aos que a integram, “ministros”, isto é, servidores.  Este serviço prestado pela hierarquia consiste propriamente em apascentar – ensinar, santificar e governar – os membros do Povo de Deus.  Cada um dos ministros efetua seu ministério eclesial segundo o grau da Ordem que possua.  

Esta estrutura hierárquica da Igreja foi estabelecida e organizada na terra por vontade de Jesus Cristo.  Entre outras passagens da Sagrada Escritura, já bem conhecidas, ressaltamos as que Jesus confere a plenitude dos poderes ao Colégio dos Apóstolos (Mt 18,18; 28,18-20; Jo 20,21ss.).  Além disso, Jesus prometeu a Pedro os máximos poderes na Igreja (Mt 16,18-19) e, mais tarde tornou-o pastor de todo o rebanho (Jo 21,15-17), assim Pedro é o cabeça dos Doze, aquele que ostenta o primado com o fim de cuidar de todos os seus irmãos (Lc 22,32).  

A consciência que os Apóstolos tinham de que eram participantes do poder pleno de Cristo e de que atuavam conforme a sua vontade expressa, assume relevo particular no fato de que houve preocupação de transmissão destes poderes aos seus sucessores e assim é feito deste então: “Os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores nesta sociedade constituída.  Assim, não só tiveram vários auxiliares no ministério mas, para que a missão que lhes fora entregue se continuasse após a sua morte, confiaram a seu imediatos colaboradores, como em testamento, o encargo de completarem e confirmarem a obra começada por eles, recomendando-lhes que velassem por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os estabelecera para apascentarem a Igreja de Deus[15].  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.    

  • Compêndio do Vaticano II.  Editora Vozes, 1987.
  • Catecismo da Igreja Católica.  Editora Vozes, 1998.
  • Curso de Eclesiologia.  Escola “Mater Ecclesiae”, 1996. 

por Luiz Mauricio Osório   

[1] LG 18. 

[2] LG 20.  

[3] LG 18.  

[4] LG 20.  

[5] LG 28.  

[6] LG 29.  

[7] Código de Direito Canônico (CIC) 204,1.  

[8] CIC 208.  

[9] CIC 207,1.  

[10] LG 10.  

[11] Presbyterorum ordinis (PO) 2.  

[12] LG 10.  

[13] CDC 1009.  

[14] LG 18.  

[15] LG 20.