A MISSÃO DA IGREJA NA TERRA     

Missão” propriamente dita, significa “envio”, mas na linguagem popular, designa aquilo que é feito por determinada pessoa ou instituição.     

A missão da Igreja nasce da missão de Cristo e do Espírito por parte do Pai.  Porém, esta missão que, em sua essência, consiste em perpetuar no mundo a obra de salvação de Cristo, é também, sob a força do Espírito, permitir aprender e compreender melhor a palavra de Cristo e impulsionar o agir eclesial (a pastoral) através dos carismas.  O Espírito Santo habita na Igreja e em cada um dos fiéis (1Cor 3,16; 1Pd 2,5) e é o doador do dom do apostolado (1Cor 12,1ss).  O próprio Espírito é dom do Mistério Pascal de Cristo para a edificação da comunidade eclesial (1Cor 10,8; 12,19; Ef 4,12).     

“A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que procede da missão do Filho e do Espírito, segundo o desígnio do Pai[1].   A Igreja enviada por Deus a todas as gentes para ser sacramento universal de salvação, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo um mandato de seu Fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens, a exemplo dos Apóstolos após Pentecostes que pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas.  Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que a Palavra de Deus se propague rapidamente e seja glorificada, e o Reino de Deus seja anunciado e estabelecido em toda a terra[2]“A missão da Igreja, portanto, cumpre-se quando, obediente ao mandato de Cristo e movida pela graça e pelo amor do Espírito Santo, se faz presente aos homens e aos povos para levá-los com o exemplo de sua vida e a pregação do Evangelho, com os Sacramentos e os demais meios de salvação, à fé, à liberdade e à paz de Cristo, fazendo-os participar plenamente no Mistério de Cristo[3]     

      

A missão dos leigos     

No Novo Testamento, não encontramos a palavra “leigo” para designar os fiéis cristãos.  Os membros da comunidade cristã são chamados de “santos”, “eleitos”, “discípulos” e, principalmente, “irmãos”.  Na Sagrada Escritura o termo “laos” (povo) é freqüentemente utilizado para designar o Povo de Deus, em oposição aos gentios (“ézne”), portanto, o nome de “leigo” poderia designar simplesmente um membro do Povo de Deus sem outra especificação.  No grego clássico, entretanto, o termo “laos” significava “povo” em oposição à classe dirigente, de modo que na Igreja nascente o termo passa a significar o povo enquanto distinto da hierarquia.  Clemente romano foi o primeiro escritor cristão que utiliza o nome “leigo” neste sentido: “Ao grande sacerdote foram conferidas funções especiais; aos presbíteros foram reservados lugares particulares; os leigos estão relacionados com preceitos próprios dos leigos     

O Concílio Vaticano II assim define o leigo e sua missão: “entende-se por leigo, todos os cristãos que não são membros da Sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja.  É própria e peculiar dos leigos a característica secular… Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus.  Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência.  São chamados por Deus para que, aí no mundo, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros”[4].     

Como se pode observar o Vaticano II descreve o leigo com uma linguagem positiva: leigo é o crente que, pelo Batismo, foi incorporado a Cristo e faz parte do Povo de Deus.  Não recebeu o Sacramento da Ordem e nem pertence ao estado religioso, porém, participa da função sacerdotal, profética e real de Cristo de maneira própria e tem como próprio e peculiar exercê-los no mundo, buscando o Reino de Deus, isto é, ao leigo corresponde iluminar e ordenar os assuntos temporais segundo o Espírito de Cristo.     

Neste contexto, podemos concluir que os leigos:     

  • são chamados por Deus a viver no mundo – o lugar que a providência divina lhes destinou é o mundo.  Portanto, ser leigo não é algo genérico, indefinido ou fortuito, mas estar colocado no mundo como fermento, isto é, a sorte do mundo não lhe é alheia; a sua vida no mundo não é uma simples presença física, mas vital, de compromisso e de inserção na ordem temporal.  O leigo, portanto, não é um cristão de segunda categoria.  Como os religiosos e os clérigos, são vocacionados à santidade.  No mundo recebem a graça de Deus necessária para dar lúcido testemunho de Cristo, santificar a si próprios, aos irmãos e as tarefas que exercem.
  • devem santificar o mundo a partir de dentro – a procura da santidade pessoal obriga todo fiel cristão desde o Batismo e, portanto, previamente à diversidade funcional (ser leigo, clérigo ou religioso).  O mundo é o lugar próprio dos leigos, que devem ordenar, estruturar e conduzir até Deus e segundo Deus toda a criação.  Portanto, a missão dos leigos pode ser resumida em fazer com que o Reino de Deus, cada vez mais, se implante dentro das realidades ditas “profanas” ou “seculares”.
  • para gerir os assuntos temporais – este é o vasto horizonte que constitui o meio adequado com que os leigos têm de trabalhar para conseguirem santificar o mundo a partir de dentro.  “O campo próprio da atividade evangelizadora é o dilatado e complexo mundo da política, da realidade social; e igualmente de outras realidades particularmente abertas à evangelização, como o amor, a família, a educação, o trabalho profissional, o sofrimento. Quanto mais leigos houver, compenetrados do espírito evangélico, responsáveis por estas realidades e nela comprometidos, tanto mais estas realidades se encontrarão ao serviço do Reino de Deus, sem perderem nem sacrificarem nada da sua componente humana, mas manifestando, contudo, uma dimensão transcendente[5].  Finalmente, a gestão dos assuntos temporais implica que os leigos tenham no mais alto apreço a competência profissional, o sentido familiar e cívico da sua conduta e todas as virtudes que se referem às relações sociais, como a honradez, o espírito de justiça, a sinceridade, os bons sentimentos, a fortaleza da alma, sem as quais não pode haver uma vida cristã autêntica.

Por instituição divina, só os ministros sagrados possuem os poderes para atuarem em nome e com a autoridade de Cristo; devido ao sacramento da Ordem e no grau que a cada um corresponda.  Ao falar, pois da participação dos leigos na missão da Igreja, não é correto expressarmo-nos em termos de “poderes” mas sim de “ofícios” que derivam da sua condição de fiéis cristãos chamados por Deus a viver no mundo e a santificá-lo.     

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.     

  • Compêndio do Vaticano II.  Editora Vozes, 1987.
  • Catecismo da Igreja Católica.  Editora Vozes, 1998.
  • Curso de Eclesiologia.  Escola “Mater Ecclesiae”, 1996. 

por Luiz Mauricio Osório


 [1] AG 2.     

[2] AG 1.     

[3] AG 5.     

[4] LG 31.     

[5] Evangelii nuntiandi (EN) 70.