Igreja de São Caetano – Brasópolis – MG

 

Atualmente verifica-se uma grande variedade de igrejas cristãs.  Perante esta realidade muitos questionam se Jesus Cristo fundou verdadeiramente uma só Igreja e, se assim foi, como se pode reconhecer a verdadeira?  Para responder a este questionamento só poderemos recorrer ao Evangelho; e nele, encontramos a vontade inequívoca de Jesus de fundar apenas uma Igreja (Mt 16,18s.).   

Com sua autoridade de Concílio Ecumênico o Vaticano II afirma na “Lumen gentium”: “Existe uma única Igreja que no Símbolo chamamos una, santa, católica e apostólica; que nosso Salvador, depois da sua Ressurreição, entregou a Pedro para a apascentar (Jo 21,17); e confiou a ele e aos demais Apóstolos para a propagar e reger (Mt 28,18s); e erigiu para sempre como coluna e fundamento da verdade (1Tm 3,15).  Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, embora fora de sua visível estrutura se encontrem vários elementos de santificação e verdade que, como dons próprios à Igreja de Cristo, impulsionam à unidade católica”[1].   

Unidade – deve-se distinguir dois conceitos: a unidade e a unicidade.  Unidade significa coesão, “ausência de divisão interna”.  Unicidade é a qualidade de quem não tem par ou igual a si mesmo.   

A verdadeira Igreja de Cristo é “una“, é “única”. Esta unidade, não pode ser confundida com “uniformidade”, pois Cristo quis para a sua Igreja este complexo entrelaçado de “unidade” e “diversidade” chamado “comunhão”, muito bem ilustrada por São Paulo na imagem do Corpo com diferentes órgãos e funções.  Cabe, portanto, dentro da Igreja um amplo espectro de pessoas, ritos e culturas, simultaneamente “solícitos em conservar a unidade de espírito mediante vínculo da paz” (Ef 4,3-5; LG 8).   

A unidade da Igreja é expressa também pela palavra “comunhão” (“koinonia”) que significa o intercâmbio, o fluxo de vida dos fiéis entre si (1Jo 1,3.6s).  Esta unidade só se consumará escatologicamente “quando Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28), consumação que o povo de Deus prepara e inicia quando ainda é peregrino na terra: o Deus possuído e que nos possuirá perfeitamente, será o princípio, interior a cada um e comum a todos, de nossa comunhão.  Esta condição terrena é caracterizada por um “” e um “ainda não”, simultaneamente verdadeiros, pois a Igreja “” é aquilo que é chamada a ser e por isso seus filhos já são filhos de Deus (1Jo 3,1; Rm 8,14-17), mas que “ainda não” gozam da liberdade gloriosa que caracteriza estes filhos de Deus (Rm 8,21ss).  Possuímos as primícias do Espírito Santo (Rm 8,23; 2Cor 1,22; 5,5; Ef 1,14), mas isto é somente o começo de uma realidade ainda não plenamente realizada.   

Santidade – a palavra “santo” significa originalmente “o que é separado, reservado”; em teologia santo é o “separado ou reservado para Deus”.  Disto se segue que a pessoa separada para Deus deve levar uma vida compatível, isto é, uma vida moralmente santa (1Pd 1,15s; Rm 12,1).   

A qualificação de santo só poderá ser atribuída a uma realidade na medida em que está em relação com Deus (o Santo dos santos), dele procede, a Ele pertence ou lhe é consagrado.  De fato, o Povo de Deus é santo, constitui “uma nação santa” (Ex 19,6) porque é de Deus e para Deus.  Em geral também é santo tudo aquilo que está relacionado ao culto, por isso o povo consagrado é ainda mais santo quando é convocado e reunido para o culto ao Deus Santo numa santa assembléia (ecclesiae).   

Santa” é um predicado atribuído à Igreja desde o início do séc. II por Inácio de Antioquia.  O primeiro valor que encontramos na afirmação da santidade da Igreja deriva de tudo aquilo que faz com que esta Igreja pertença a Deus: eleição, vocação, consagração.  A Igreja é o lugar onde se presta a Deus o culto que Ele deseja, “em espírito e verdade”.  A santificação dos homens é a finalidade definitiva da Igreja e que dificilmente poderia ser realizada, se ela própria não fosse santa e não possuísse os meios de santificação.   

Apesar de estar composta por pecadores na terra, a Igreja é originalmente santa, isto é, sem qualquer mancha ou imperfeição em virtude da presença de Deus no mais íntimo do seu ser.  Como nota exteriormente reconhecível a Igreja demonstra ser santa devido aos frutos abundantes de santificação que produz desde a sua origem – os santos e em especial a Santíssima Virgem.   

A Igreja não é só santa sob a forma em que, personificada, é Esposa de Cristo (Ef 5,26s); é também a Igreja dos santos, isto é, dos homens que se esforçam por viver sua consagração batismal e sua condição de membros do Corpo de Cristo.   

Catolicidade – o termo “katholikós” é aplicado pelos filósofos às “proposições universais”, significa “geral” e é aplicado à Igreja pela primeira vez por Santo Inácio de Antioquia.   

A expressão “católica” quando aplicada à Igreja pode ter dois significados: universalidade – ela está em toda parte e não somente numa comunidade ou povo e autêntica, verdadeira, perfeita.  Desde o séc. II se torna freqüente o sentido de universal, sem, contudo, excluir o de autêntica, isto é, portadora da plenitude dos meios de salvação instituídos por Cristo.  A partir do séc. III este termo passa a designar a Igreja verdadeira através de todo o mundo ou uma comunidade local que se encontra em comunhão com essa Igreja.  A partir do séc. IV é incorporado em diversos símbolos até se tornar definitivo no niceno-constantinopolitano.  O Vaticano II uniu a afirmação da catolicidade da Igreja com a da sua missão – “todos os homens, pois, são chamados a esta católica unidade do Povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal.  A ela pertencem ou são ordenados de modos diversos, quer os fiéis católicos, quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em geral, chamados à salvação pela graça de Deus.  Que a plenitude do mundo entre no grêmio do Povo de Deus e em Cristo, Cabeça de todos, se dê honra e glória ao Criador e Pai de todas as coisas[2]   

A Igreja é católica (universal) desde a sua manifestação pública em Pentecostes.  Em sentido fundamental e interior, a Igreja é católica porque “nela subsiste a plenitude do Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, o que implica que ela receba D’Ele a plenitude dos meios de salvação[3].  Na sua faceta exterior a Igreja é católica porque a redenção de Cristo é universal (Mt 16,15; At 1,8).   

Portanto, a Igreja é católica enquanto nota visível, devido ao caráter universal que recebeu de Cristo, isto significa que é capaz de integrar na sua unidade todas as verdadeiras riquezas das culturas, purificando-as[4], bem como de dar resposta às mais profundas aspirações de todos os homens, seja qual for sua raça, língua, cultura ou condição social.  Tal como a unidade, a catolicidade não é de modo algum diminuída, antes é enriquecida, pela existência de uma pluralidade de tradições, sempre que se mantenha em comunhão com o Papa[5].   

Apostolicidade – assinala a identificação da Igreja atual com a Igreja dos Apóstolos, manifestada por um fato verificável: deriva deles por uma sucessão histórica e ininterrupta (Mt 28,18-20; At 2,42).  Trata-se da vontade de Cristo, que deixou o sacramento da Ordem como instrumento para perpetuar a Igreja edificada sobre o fundamento dos Apóstolos preservando, ao longo dos séculos, os elementos essenciais que Cristo lhes confiou: a doutrina, os meios de santificação, o governo e a missão.   

A palavra “apóstolo” é grega e significa “enviado”.  Jesus escolheu doze discípulos para que vivessem mais unidos a Ele e fossem seus mensageiros (Mc 3,14; Mt 10,40; Ap 21,14; At 1,21s). Conseqüentemente, Apóstolo é alguém que acompanhou Jesus e principalmente é testemunha da ressurreição, ponto culminante de Sua obra; quanto a Paulo que não conviveu com Jesus em sua vida terrestre, teve uma visão particular de Jesus ressuscitado na estrada de Damasco e foi diretamente enviado por Ele (At 9,3-6. 15).   

Por se tratar de traços essenciais, as quatro notas têm que ocorrer juntas; não é bastante que se verifique uma ou várias, visto que é preciso que a Igreja verdadeira as possua simultânea e inseparavelmente unidas entre si[6].   

Verifica-se que somente na Igreja Católica se dão, simultaneamente e com o seu significado pleno, as quatro notas.  Deve-se reafirmar que estas notas não são condições fixadas interessadamente, mas sim propriedades essenciais da Igreja verdadeira, confessadas desde sempre no Credo e presentes e visíveis nela até hoje.  Além disso, sem desprezar o fato de que, nas outras igrejas cristãs encontramos “muitos elementos de santidade e de verdade[7], convém dizer que algumas delas preservaram a sua unidade particular com grave quebra da catolicidade missionária resumindo seu trabalho a grupos nacionais ou étnicos, uma ambigüidade doutrinal progressiva; ou mostraram-se carentes de fundamentos sólidos, desfizeram a cadeia da sucessão apostólica ou abandonaram uma boa parte dos meios de santificação.   

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.    

  • Compêndio do Vaticano II.  Editora Vozes, 1987.
  • Catecismo da Igreja Católica.  Editora Vozes, 1998.
  • Curso de Eclesiologia.  Escola “Mater Ecclesiae”, 1996. 

 por Luiz Mauricio Osório

 



 [1] LG 8.   

[2] LG 13,17.   

[3] CEC 830.   

[4] CEC 1202.   

[5] LG 13; CEC 1203.   

[6] CEC 811.   

[7] LG 8.