A IGREJA INVISÍVEL (A COMUNHÃO DOS SANTOS).   

A expressão “comunhão dos santos” (“koinonía ton hagíon”) é utilizada com dois sentidos: comunhão ou solidariedade entre todos os fiéis e comunhão com as coisas santas ou com o tesouro dos méritos de Cristo, que são aplicados aos fiéis pelos sacramentos, especialmente pelo Batismo e Eucaristia.  A segunda é preferível e conduz à primeira: os fiéis participam dos bens espirituais que Cristo lhes conquistou e, em consequência se sentem afins ou solidários entre si.   

  • Os bens espirituais de que participam os fiéis são os seguintes:
  • a fé: um tesouro entregue à Igreja e transmitido aos fiéis.
  • os sacramentos e a graça que comunicam: os frutos (graça) dos sacramentos pertence a todos os fiéis e a comunhão dos santos é efetuada por eles, especialmente pela Eucaristia que consuma esta comunhão.
  • os carismas: graças especiais concedidas por Deus para o serviço e a edificação da comunidade.

Esta comunhão com as coisas santas faz a comunhão das pessoas santas, isto é, os cristãos peregrinos neste mundo e os que já partiram, quer estejam glorificados no céu, quer ainda estejam na expectativa chamada de “purgatório”.  Até a Parusiados discípulos de Cristo, alguns peregrinam sobre a terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados e contemplam, claramente Deus Uno e Trino, como Ele é”[1].   

Ocorre com a Igreja de Cristo o mesmo que com um “iceberg”; quem olhar somente sua parte visível certamente não poderá avaliar sua real dimensão, seu mistério divino e também sua realidade humana.  Acontece que também é humana, e provavelmente muito maior que a da terra, a parte do Povo de Deus que já goza da Bem Aventurança celeste, bem como a dos que se purificam para alcançarem-na.  Por isso, temos sempre que olhar a Igreja com os “olhos da fé”.  Estas três “porções” do Povo de Deus compõem a única e verdadeira Igreja de Cristo; cada uma delas constitui um dos “estados da Igreja”[2].   

Igreja triunfante – é a Igreja do céu, constituída por todos aqueles que morreram na graça de Deus e estão devidamente purificados, aqui a comunhão das almas com Deus e entre si é perfeita e eterna[3].  Este mistério de comunhão perfeita com Deus e com todos ultrapassa toda a compreensão humana, no entanto, sabemos que os fiéis da Igreja triunfante realizam o mistério da posse de Deus e o vêem tal como é (1Cor 2,9; 13,12; 1Jo 3,2).  Apesar das palavras se tornarem muito pobres para descrever tal estado, pode-se dizer que nesta visão beatífica consiste a glória do céu – “O céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva”[4].   

Mais do que triunfo dos homens, a Igreja triunfante constitui a vitória de Deus, que enche de amor infinito, de santidade acabada e de bem aventurança eterna os seus fiéis, entre os quais brilha, com singular formosura, Maria Santíssima.   

Igreja purgante – “os que morreram na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu. A Igreja chama “purgatório” a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados”[5].  É certo que se trata simultaneamente de uma Igreja esperançosa, visto que todos estão seguros de que chegarão à Bem Aventurança e à comunhão eterna como Pai, uma vez concluída a sua purificação total.   

Igreja peregrina ou militante – formada por aqueles que, embora ainda caminhem na terra, receberam o Batismo e colocaram-se a caminho do Reino de Deus.  Denomina-se também “militante” em virtude dos esforços que a própria Igreja deverá fazer sempre na terra, para permanecer fiel a Cristo.  Refere-se também à perseverança de cada um dos cristãos no combate para vencer o pecado e as dificuldades que se apresentam durante a caminhada, com ajuda da graça de Deus e dos meios de santificação que a Igreja possui.  Deve-se sempre lembrar que a luta pela santificação não é assunto exclusivamente pessoal, mas primordialmente eclesial: realiza-se em comunhão com os outros fiéis, através do testemunho, palavra e oração, cumprindo deste modo o mandato missionário que Cristo.   

A comunhão dos santos – no Credo confessamos que na Igreja, existe uma íntima união entre todos os seus membros, onde quer que eles estejam: na terra, no purgatório ou no céu.  Esta comunhão pode ser descrita como uma espécie de corrente interior de graça e de vida divina que circula entre todos os membros da Igreja e a todos reúne como já vimos.  Esta comunhão (graça), originada em Deus Pai, brota dos méritos de Cristo e é canalizada continuamente pelo Espírito Santo, por isso, esta verdade de fé constitui uma recapitulação ou resumo do mistério da Igreja – “O que é a Igreja senão a assembléia de todos os santos? A comunhão dos santos é precisamente a Igreja”[6].   

A comunhão dos santos (intercessão) ocorre entre os membros dos diversos estados da Igreja:   

  • a Igreja peregrina, pode intervir em favor dos seus outros membros e dos membros do purgatório, tanto com a sua oração como o mérito de suas boas obras[7];
  • a Igreja purgante pode receber ajuda dos outros para sua purificação e, por sua vez, interceder pelos fiéis da terra;
  • a Igreja triunfante não necessita de auxílios, pois já alcançou a sua meta definitiva, mas pode interceder pelos membros das duas outras Igrejas perante Deus.

    

MARIA, A IGREJA REALIZADA.   

É em Maria que a Igreja e o Reino encontram a sua mais elevada realização – “A Igreja já alcançou na beatíssima Virgem a perfeição que a torna sem mácula e sem ruga (Ef 5,27)”[8].   

A distância não raro dolorosa entre a Igreja peregrina e a Igreja gloriosa está percorrida nela, que “transportada ao céu, tornada semelhante a seu Filho ressuscitado dos mortos, já conhece por antecipação aquela condição que todos os justos haverão de viver”[9].  Por isso a mãe de Jesus “é a imagem e as primícias da Igreja que deverá ter sua realização na idade futura”[10], isto é, Maria é a Igreja realizada na sua plenitude.    

     

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.   

  • Compêndio do Vaticano II.  Editora Vozes, 1987.
  • Catecismo da Igreja Católica.  Editora Vozes, 1998.
  • Curso de Eclesiologia.  Escola “Mater Ecclesiae”, 1996. 

por Luiz Mauricio Osório
   

 



   

[1] LG 49.   

[2] CEC 954.   

[3] CEC 1023.   

[4] CEC 1024.   

[5] CEC 1030, 31.   

[6] CEC 946.   

[7] CEC 958.   

[8] LG 65.   

[9] Paulo VI, Profissão de Fé, 1968.   

[10] LG 68; SC 103.