Cartuxa de Miraflores, Burgos (Espanha). Local, onde Inácio pediu a um criado pegar informações sobre as Regras dos Cartuxos

Apesar disso, resolveu martirizar-se por sua própria vontade, ainda que seu irmão mais velho[1] se espantasse e afirmava que tal dor ele não suportaria. Mas, Inácio a sofreu com a costumeira paciência. 

Cortada a carne e o osso que ali sobrava, usaram-se os remédios para que a perna não ficasse tão curta, aplicando-lhe muitos ungüentos e estendendo-a continuamente com instrumentos, em martírios de muitos dias[2]. 

Inácio, foi melhorando, mas não podia ficar de pé, e, ficar na cama, era um sofrimento. Como era muito dado a ler livros mundanos, que costumam chamar “de cavalarias”, sentindo-se bem, pediu alguns deles para passar o tempo. Mas, naquela casa, não se encontrou nenhum. Deram-lhe uma Vita Christi e um livro da Vida dos Santos[3]. 

Lendo os livros repetidas vezes, Inácio foi se afeiçoando com o que estava escrito. Mas, deixando-os de ler, algumas vezes parava a pensar no que havia lido, outras vezes, pensava em assuntos do mundo. Das muitas vaidades que vinham a sua mente, uma se apossara de seu coração, deixando-o longas horas embebido. Imaginava, como se chegar a uma dama de seus sonhos, os meios que empregaria para ir até esta dama, as palavras que iria pronunciar. Ficava tão vaidoso, que não pensava nas dificuldades para alcançar o seu intento. Porque a referida dama pertencia a realeza[4]. 

Mas outros pensamentos nasciam de suas leituras. Lendo os livros, parava a pensar, raciocinando: “E se eu realizasse isto que fez São Francisco? E isto que fez São Domingos?” Assim discorria por muitos assuntos que achava bons e propunha a si mesmo as dificuldades encontradas na leitura, com alguns dos personagens. E, sempre que propunha a si, parecia encontrar facilidade para executá-las. 

Mas todo o seu discorrer era falar consigo: “São Domingos fez isto; pois eu hei de fazê-lo! São Francisco fez isto; pois eu hei de fazê-lo!”. Esta sucessão de pensamentos tão diversos durou bastante tempo: ora dos feitos mundanos que desejava realizar, ora dos assuntos de Deus que se ofereciam à fantasia. 

Esta diferença: quando pensava nos assuntos do mundo, tinha muito prazer; mas quando , depois de cansado, os deixava, achava-se seco e descontente.  Ao contrário, quando pensava, em imitar os Santos, não se consolava só quando se detinha em tais pensamentos, mais ainda depois de deixá-los, ficava contente e alegre. Mas, não reparava nisso, nem parava a ponderar esta diferença, até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos, e começou a maravilhar-se desta diversidade e refletir sobre ela. Colheu então, por experiência, que de uns pensamentos ficava triste e de outro alegre. Assim, veio pouco a pouco a conhecer a diversidade dos espíritos que o moviam, um do demônio e outro de Deus.  Depois, quando fez os Exercícios, começou daqui a tomar luz para as Regras dos Espíritos[5]. 

Inácio , começa a pensar mais em sua vida passada, e quanta necessidade tinha de se penitenciar dela. Passa a ter desejos de imitar os Santos, para obter a graça de Deus. Vinha também, o desejo de ir a Jerusalém[6], com disciplina, praticando abstinências, com um ânimo generoso e aceso do amor de Deus. 

Certa vez, envolto nos pensamentos dos Santos, estava uma noite acordado, quando viu claramente uma imagem de Nossa Senhora, com o Menino Jesus. Com esta visão, recebeu grande consolação e ficou enojado de sua vida passada, especialmente dos pecados da carne. 

A partir desta visão, nunca mais teve nem um mínimo consentimento em matéria carnal. Pura graça de Deus. Mas, tanto seu irmão, como todos os demais da casa, foram conhecendo as mudanças que se operavam na alma de Inácio. 

Inácio, não se importava com os comentários que faziam dele, mas perseverava em sua leitura e em seus bons propósitos. O tempo, em que conversava com os da casa, gastava-o todo em assuntos de Deus. Como gostava muito daqueles livros, resolveu fazer um resumo dos pontos essenciais da vida de Cristo e dos Santos. Põe-se a escrever um livro, com aproximadamente 300 páginas, onde traçava em vermelho as palavras de Cristo e em azul as de Nossa Senhora. Inácio gostava de escrever. Parte do tempo gastava em escrever, parte em oração. 

Nos pensamentos de Inácio, já calculava o que faria quando retornasse de Jerusalém, para sempre viver em penitência. Ocorria-lhe entrar na cartuxa de Sevilha[7], sem dizer quem era, para o terem em menor estima: ali não haveria de comer, senão verduras. Mas, quando os pensamentos das penitências retornavam , esfriava em Inácio o desejo da cartuxa: pois temia não poder exercitar o ódio que contra si concebera. 

Mesmo assim, pediu a um criado da casa, que ia a Burgos, se informasse sobre a regra da cartuxa[8] e a informação que recebeu, pareceu-lhe bem. Mas, sua maior preocupação era ir a Jerusalém, depois é que iria discernir sobre a cartuxa. 

A família, já notava em Inácio, que ele queria abraçar grande mudança de vida[9]. Inácio, notando, que já estava recuperado, disse a seu irmão: “Senhor, como sabe, o duque de Nájera[10] está ciente de que já estou restabelecido. Será bom que eu vá até Navarrete”. Ao ouvir isso, o irmão começa a rogar-lhe: “Não se deite a perder; olha quanta esperança depositam em você; quanto pode vir a ser…” e outras expressões semelhantes, todas na intenção de afastá-lo do bom desejo que alimentava. Mas, Inácio responde, sem se afastar da verdade e assim se desembaraça das insistências do irmão[11]. 

Bibliografia  

Cardoso, Pe. Armando, SJ, Autobiografia de Inácio de Loyola, Edições Loyola, SP, 1978, nº 4-12.  



 

[1] Martin Garcia de Loyola, irmão mais velho de Inácio e herdeiro da casa, depois da morte do primogênito João Pérez de Loyola (†1496). Martin chegara a Loyola, em julho de 1521, vindo da batalha de Noáin, onde os espanhóis retomaram a fortaleza de Pamplona (Danvilla, História IV. Madri, 1898, p.212). Em Loyola, encontrou seu irmão enfermo, sendo tratado por sua esposa Madalena de Araoz. 

[2] Dom Martin de Iztiola, cirurgião de Azpeitia, cobrou por seu trabalho dez ducados (Arquivo da Província de Tolosa). Calçando uma bota com o salto mais alto, quase não se notava a diferença de uma perna para a outra, com o passar do tempo. 

[3] Os livros pertenciam a Madalena de Araoz: A vida de Cristo, escrita por Ludolfo de Saxônia (†1377), (A. Codina. As origens dos Exercícios Espirituais, p.220). O Livro da Vida dos Santos, foi uma tradução da Legenda Áures do dominicano Jacobo de Voragine (†1298) (Leturia. El Gentilhombre, p.156). 

[4] Qual a dama dos pensamentos de Inácio convalescente? – Era uma princesa, mas nunca se teve certeza plena, as hipóteses se reduzem a três: 1ª Germana de Foix, sobrinha de Luís XII de França e segunda esposa de Fernando, o Católico (†1516). 2ª Leonor, irmã maior do imperador Carlos V, esposa sucessivamente de D. Manuel, rei de Portugal e de Francisco I de França. 3ª Catarina, irmã menor de Carlos V, nascida em 1507, casada em 1525 com Dom João III de Portugal. As três apresentam dificuldades: a 1ª e a 2ª estavam casadas no tempo dos sonhos de Inácio; a 3ª, então com 14 ou 15 anos, em plena adolescência, será talvez a mais provável. 

[5] As experiências de Loyola lhe serviram para mais tarde escrever nos Exercícios as “Regras do Discernimento dos Espíritos, mais próprias da 1ª Semana”. A primeira Regra, diz assim: “Nas pessoas que vão de pecado mortal em pecado mortal, costuma o inimigo propor-lhes prazeres sensuais, para mais os conservar e aumentar em seus vícios e pecados. Nestas pessoas o bom espírito usa de modo contrário, estimulando-lhes as consciências com a advertência da reta razão”. 

[6] Sobre Jerusalém pôde Inácio ler na Vida Christi: “Santo e piedoso exercício é por certo contemplar a terra santa de Jerusalém. Pois, Jesus, morando nela a iluminou com sua palavra e doutrina, e a consagrou com seu sangue. Mas, será bom vê-la com os olhos corporais e revolvê-la com o entendimento, pois em cada um dos seus lugares o Senhor operou a nossa salvação” (Vita Christi, Cartujano, romanzado por Fray Ambrosio. Alcalá 1502. I,9) 

[7] Cartuxa de Santa Maria de lãs Cuevas, hoje desaparecida, pouco distante de Sevilha. Cartuxas são mosteiros, muito espalhados então, da ordem de São Bruno, muito austera. 

[8] A cartuxa de Burgos (Espanha) chamava-se Miraflores, funcionou até o século XX, aberto a visitação. 

[9] Conforme informa o Pe. Luis Gonçalves da Câmara, a quem Inácio contou a sua vida. Era homem de confiança de Inácio e ministro da casa. 

[10] Antonio Manrique de Lara, era duque de Nájera desde 1515 e vice-rei de Navarra, de 1516 a 1521: em seu serviço estivera Inácio até o ferimento em Pamplona. Morreu a 13 de dezembro de 1535 (Salazar y Castro. História Genealógica II, 170) 

[11] Este diálogo aconteceu em fins fevereiro de 1522. Dez anos mais tarde, em 1532, Inácio escreveria a seu irmão: “Um homem ter neste mundo vigílias, ânsias e cuidados para edificar muito, aumentar paredes, rendas e estado, para deixar na terra muito nome e muita memória, não me compete condená-lo, nem tampouco louvá-lo… Se alguma parte disto haveis sentido no tempo passado ou presente, por reverência e amor de Deus Nosso Senhor, vos peço, procureis com todas as forças ganhar memória e fama no Senhor que nos há de julgar…” (S. Ignatii Epp. I,81)