No caminho entre Navarrete e Montserrat, acontece um fato, que será bom narrar, para que se entenda como Nosso Senhor tratava essa alma, ainda cega, embora com grandes desejos de serví-lo em tudo, conforme a sua vontade. Desejava fazer grandes penitências, pois já não tinha satisfação de seus pecados e sim pelas coisas de Deus. Sempre se inspirava nos Santos, mas, queria fazer mais que estes.  

Nestes pensamentos, Inácio, sentia grande consolação, mas ainda sem noção do que estava acontecendo, não sabia o que era humildade, nem caridade, nem paciência, nem discrição para medir suas virtudes. Toda sua intenção era realizar grandes obras exteriores, porque assim fizera os Santos para a glória de Deus.  

Seguindo seu caminho, alcançou-o um mouro montado  numa mula. E começaram a conversar sobre Nossa Senhora. O mouro dizia: – que acreditava que a Virgem teria concebido sem obra de homem; mas não acreditava que a Virgem dera à luz continuando Virgem, e dava motivos, justificando sua afirmação. Inácio[1], retrucou e deu uma série de justificativas ao mouro, que não mudou sua opinião. Depois, o mouro se adiantou e com tanta pressa, que o peregrino o perdeu de vista.  

Inácio ficou pensativo no mouro e vieram alguns sentimentos ruins. E, dizia, consigo mesmo: como poderia consentir que um mouro dissesse tais coisas de Nossa Senhora. Queria reparar a honra da Mãe de Deus, e vinham sobre Inácio desejos de ir buscar o mouro e dar-lhe punhaladas por aquilo que falara. Mas, continuou, pensando nesses desejos, ao fim achou-se em dúvida, sem saber a que era obrigado.  

Cansado de examinar o que seria bom, não achando a coisa certa a fazer, resolveu deixar sua mula com a rédea solta até o lugar onde se dividiam os dois caminhos. Se a mula fosse pelo caminho da vila, buscaria o mouro e lhe daria punhaladas. Se não fosse para a vila, mas pela estrada real, deixaria o mouro em paz. Soltou a mula. Quis Nosso Senhor que a mula tomasse a estrada real.  

Inácio, chegou a um povoado[2] antes de Montserrat e quis comprar a roupa que gostaria de vestir, para ir a Jerusalém. Comprou uma veste comprida até aos pés. Comprou um bordão, uma cabacinha, e colocou tudo diante do arção da mula.  

Bibliografia      

Cardoso, Pe. Armando, SJ, Autobiografia de Inácio de Loyola, Edições Loyola, SP, 1978, nº 14-16.  


  

[1] Desde este momento Inácio que se chamava na língua basca Iñigo em honra de Santo Enércon, abade e mais tarde latinizaria seu nome para Inácio, por devoção a Santo Inácio de Antioquia, chama a si próprio “o peregrino”.  

[2] Lérida, Espanha