INTRODUÇÃO

A história da humanidade avança cada vez mais rapidamente, conseqüentemente a cultura em que vivemos também vai se transformando contínua e vertiginosamente.  A mensagem cristã, ao tentar se comunicar com esta cultura, em constante transformação, se vê obrigada a transformar a sua expressão, aumentando a riqueza de sua compreensão (aspecto positivo), mas também correndo o risco de ver sua mensagem deturpada ou reduzida a padrões mínimos (aspecto negativo).

Vivemos uma época de grandes transformações, a chamada “crise paradigmática”, isto é, uma época de mudanças tão radicais que, tudo aquilo que fundamentava as relações sociais e a vida do homem, é “colocado em cheque”, considerado como ultrapassado e, portanto, necessitado de modernização.  Vivenciamos uma mudança de era na história da humanidade, que só será perfeitamente compreendida daqui a alguns séculos…

Vivenciamos a época do utilitarismo, do racionalismo radical que conduziram o homem ao centro do universo, sujeito do conhecimento e das conquistas da ciência e, portanto, senhor de sua vida, capaz de determinar aquilo que é certo ou errado por si só (será que já não ouvimos esta história antes?).  O importante é aproveitar de tudo e de todos, tornar a vida mais agradável, prazerosa para si mesmo, não importando o que acontecerá com os outros, com o mundo, o universo…  “é cada um por si e Deus, seja lá quem for, por todos”!!

Em síntese, vivemos uma época de progressiva secularização, com condicionamentos morais, sociais, políticos que são criados pelas classes dominantes, por pessoas e/ou instituições formadoras de opinião ou ainda por modismos; uma época do “eu não concordo com isso”, “eu acho que é assim”….  Na busca de liberdade e felicidade o homem entrega-se cada vez mais a estes modismos, “achismos” e torna-se cada vez mais infeliz, desvalorizado, massacrado, cada vez mais escravo de sua própria “criação”.  O ser humano é valorizado não pelo que ele é, mas pelo que pode produzir.  A sociedade é autônoma, é ela quem determina suas próprias leis, não mais se sujeitando a leis ou poderes “externos”.  A existência do transcendente, do sagrado, é questionada e considerada como mito, fantasia sem importância e até mesmo castradora do “grande potencial do homem moderno”.  Neste contexto, a fé cristã e suas implicações morais são consideradas como ultrapassadas, resíduo de uma época já superada.  O conceito de pecado foi esvaziado e até mesmo esquecido, e Deus colocado em segundo plano.  A cultura secularista proclamou o “reinado do instinto”, isto é, valoriza a carne (instintos) e mata o espírito (interioridade), conseqüentemente não consegue satisfazer o ser humano (carne e espírito), que continua sua procura de prazer, felicidade, sem nunca se sentir satisfeito – o homem tenta matar sua sede em cisternas rachadas que não poderão nunca conter a água que ele tanto necessita (Jr.2,13).

Influenciada por este pensamento, a Teologia Moral também foi sendo esvaziada de seu conteúdo essencial, transformando-se em propostas sociais, regras de bom comportamento, correntes filosóficas; até mesmo dentro da própria Igreja Católica, impedindo seu pleno desenvolvimento, entendimento e acolhimento por parte dos próprios cristãos.  Por outro lado, outros, preocupados com este esvaziamento moral, fecharam-se no “fanatismo religioso” (legalismo, moralismo), criando fiéis obedientes por medo do castigo divino (inferno) ou hipócritas que cumprem a lei externamente sem acolhê-la em seu coração (farisaísmo moderno) e que, apesar de participarem da Igreja, não “concordam” totalmente com a mensagem cristã, cumprindo-a dentro de suas conveniências.

Desta maneira a mensagem cristã e especialmente a Teologia Moral foi sendo totalmente descaracterizada e considerada como obrigação, imposições de Deus e da Igreja, que deveriam ser obedecidas e não compreendidas, e Deus considerado como um tirano impassível, que assiste como um imperador romano, a luta dos cristãos solitários na arena da vida, aguardando para punir exemplarmente qualquer erro cometido; resultando em fiéis que se relacionam com Deus não como filhos amados, mas sim como mercenários que buscam a recompensa pelo seu agir (o céu), ou escravos que obedecem por medo do castigo (o inferno).

Para que possa ser atualizada, mas ao mesmo tempo não perder a riqueza das suas origens, a reflexão teológica deverá ser baseada na Sagrada Escritura, interpretada sob a luz do Magistério da Igreja e da Tradição Cristã, desta maneira, estaremos tentando compreender a realidade a partir do dinamismo próprio da vida cristã, que brota da vida do próprio Jesus Cristo, em nós, por meio do Espírito Santo.

Será importante, também, entender que a teologia é una, isto é, não poderá ser dividida em partes que serão analisadas separadamente, pois é conhecimento sobre Deus e de todas as coisas enquanto referidas a Ele, portanto, ao estudarmos Teologia Moral deveremos estar sempre contemplando os mistérios estudados na Teologia Dogmática, para que realmente possamos entender o agir humano como relação a Deus.  A Teologia Moral vista de maneira separada do Mistério da Fé, levou a excessos legalistas, preocupados em ver “até que ponto o crente poderia se aproximar do pecado, sem pecar”  ou “julgar até que ponto alguém está em estado de graça”; perdendo-se em casuísmos e particularidades a ponto de desviar-se totalmente do real objetivo da moralidade cristã: o agir humano como um caminho em direção à comunhão de vida com Deus.

A verdadeira moral cristã, como veremos, não é a moral do Antigo Testamento, baseada exclusivamente nos mandamentos da Lei de Deus que obrigam externamente o crente, mas será baseada no Mistério de Cristo, que aperfeiçoa e supera a Lei, sem destruí-la ou anulá-la; inaugurando uma relação mais íntima entre Deus e o homem (a Nova e Definitiva Aliança) não mais baseada na Lei, mas no Espírito, formando os “verdadeiros adoradores em espírito e verdade” que o Pai procura (Jo.4,23s.).

Referências Bibliográficas.

  • AQUINO, F.  A Moral Católica e os Dez Mandamentos. Cléofas, São Paulo, 2005.
  • BETTENCOURT, E.T.  Curso de Teologia Moral.  Escola “Mater Ecclesiae”.
  • Catecismo da Igreja Católica.  9ª edição. Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1997. nº 2052- 2557. 

Texto elaborado por Luiz Maurício Osório