A MORALIDADE DO AGIR “EM CRISTO”.

A ética cristã difere radicalmente das outras éticas, pela primazia conferida à interioridade e o empenho pelo reto agir (Mc.7,21; Mt.15,19), isto é, o importante não são os atos exteriores, mas a verdadeira intenção que os determina – o importante na moralidade do agir humano são as intenções (Mt.12,34).  O essencial para o seguimento de Cristo é a renovação interior e o empenho em “fazer a vontade do Pai” (Jo.4,34; Ef.3,16-21; Gl.1,10; 1Ts.2,4).

Jesus nos deixou um ensinamento fundamental sobre o agir moral: as disposições interiores ou intenções se mostram através dos seus frutos que são as obras (Mt.7,16-20; Lc.6,44); portanto, as obras manifestam o que é, na realidade o homem, aquilo que ele tem no seu coração.

Toda a criação tem como fim último a glorificação de Deus (Is.6,3; Sl.18(19),2), entretanto, o homem tem um modo privilegiado fazê-lo.  As outras criaturas são testemunhas mudas e inconscientes da perfeição divina, o homem não, foi chamado a dar testemunho inteligente e livre da bondade divina – a glória do homem está condicionada à sua relação com Deus, ele só atinge plenamente sua dignidade conhecendo e amando Aquele de quem recebeu a inteligência e a liberdade.  Só o ser humano tem o poder e o dever, de ordenar, por si mesmo, seus atos ao fim último que é Deus; o fim ou intenção a que o homem se propõe, se encontra necessariamente na origem do ato livre e portanto de sua moralidade; daí a necessidade de por nossa intenção (opção fundamental) em todos os nossos atos (1Cor.10,31).

Para que um ato seja verdadeiramente bom e obtenha seu pleno valor moral, deve ter por fundamento primeiro o amor a Deus (caridade) e ao próximo, por amor a Ele; infelizmente não agimos sempre de acordo com o nosso querer mais profundo e esta é precisamente a missão própria e primeira da moral: transportar a luz da razão e da fé à nossa conduta, para converter o nosso agir num conjunto harmoniosamente disposto, onde a caridade se atualiza até nas menores coisas, inclusive corporais, com a ajuda das demais virtudes.

Porém somente a boa intenção não basta; é necessária uma reta orientação da vontade, isto é, a boa intenção não autoriza a realizar nada que seja mau.  Somente quando o homem busca a Deus como fim de sua vida e age segundo Sua vontade é que a sua vontade é boa.  Para o cristão os critérios de discernimento entre bem e mal não são subjetivos ou relativos à épocas ou culturas (relativismo, modismos), mas emergem do fato de serem referidos a Deus (Rm.12,1ss.)

Natureza, graça e perfeição da criatura; imagem de Deus, filiação divina e lei moral, não são realidades separadas e sim aspectos do mesmo plano de criação e redenção, variáveis que se integram no desígnio e governo divino para que os homens todos cheguem a conhecê-lo e sejam salvos (1Tm.2,4).

 

A CONSCIÊNCIA MORAL.

 A Lei de Deus é a norma suprema da moralidade, ela se faz ouvir dentro do homem, ajudando-o a proferir um juízo sobre o seu agir – a consciência (CEC.1777,78).

 A vida moral acontece na consciência de cada pessoa.  O  motivo  está  na  natureza da consciência, que é o núcleo mais íntimo do homem; “a alma da alma é a consciência” (Orígenes).

 A consciência não deve ser considerada como uma “faculdade” humana – um sexto sentido – mas é o próprio homem, é o “eu” que detecta o bem e o mal, interagindo com eles: se fizer o bem se elevará, se fizer o mal se corromperá; daí a importância dada à consciência tanto pela sabedoria popular como pela teologia moral.  A literatura cristã também se expressa de maneira significativa em relação a ela: “santuário da alma”, “lugar onde Deus fala ao homem” (CEC.1776, 95).

O Magistério da Igreja assim a define: “altíssima componente da grandeza e dignidade do homem, uma espécie de sentido moral, que nos leva a distinguir o bem do mal, como que os olhos da alma, capacidade visual do espírito, em condições de guiar os nossos passos no caminho do bem, para isso, é necessária a formação cristã da própria consciência pessoal, a fim de que esta não se torne uma força destruidora da humanidade verdadeira (da pessoa), mas sempre o lugar sagrado onde Deus lhe revela o seu verdadeiro bem” (RP.26).

Portanto, a consciência não está sujeita às “nossas leis” ou às leis civis, mas à Lei de Deus que é superior às outras.  Não está sujeita a obrigações externas, mas a Deus “que vê o oculto” (Mt.6,1-6.16-18).

Em síntese: a consciência é “um pedagogo que orienta e ensina o homem a conduzir-se moralmente em todas as ações e circunstâncias da vida” (Tertuliano).  A consciência não é algo que o homem cria, ela existe congenitamente e faz seu julgamento a partir da “idade da razão” (CEC.1784).

Na periferia do seu ser – a sensibilidade – o homem adquire a consciência de sentir – “o animal sente, mas não se sente” -  o homem tem a consciência da sensação, enquanto que o animal só a “sofre”, pois carece deste componente reflexivo que permite ao homem rechaçar ou sofrer pacientemente (suportar) a sensação recebida.  Além da consciência sensitiva o homem tem também a consciência intelectiva que permite refletir (juízo teórico) sobre o verdadeiro e o falso e assim, emite também um juízo prático quando age, agiu ou estar para agir, qualificando tal ato em “bom” ou “mau” – consciência moral (CEC.1778)

Observa-se uma íntima harmonia entre as diversas “capas” do ser humano: desde a sensação, passando pelo “juízo teórico” até concluir no “juízo prático” que é executado na consciência moral, portanto, a consciência compreende o “homem todo” o que reforça sua grande importância na teologia moral.

 

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA.

A importância da consciência no comportamento moral é tal, que a sua formação torna-se um fator fundamental para que ela possa exercer corretamente seu papel.  Necessitará não somente um desenvolvimento inicial, mas um cuidado posterior para que possa chegar a uma elevada perfeição.  Se a grandeza de um homem está em “ser um homem de consciência”, esta grandeza só poderá ser atingida mediante a sua formação adequada (CEC.1798).

A formação da consciência compreende as diversas fases da vida.  Assim como o desenvolvimento intelectual da criança acontece desde a primeira infância, de igual maneira ocorre com a consciência.  A criança nasce “sem idéias”, porém com uma imensa capacidade de adquiri-las, de modo semelhante, nasce sem “conceitos morais” e irá adquirindo-os gradualmente.  Deverá ser, portanto, formada !!

Referências Bibliográficas.

  • AQUINO, F.  A Moral Católica e os Dez Mandamentos. Cléofas, São Paulo, 2005.
  • BETTENCOURT, E.T.  Curso de Teologia Moral.  Escola “Mater Ecclesiae”.
  • Catecismo da Igreja Católica.  9ª edição. Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1997. nº 2052- 2557. 

Texto elaborado por Luiz Maurício Osório