TERCEIRA ANOTAÇÃO:

Visto que em todos os exercícios espirituais seguintes usamos do entendimento raciocinando, e da vontade despertando afetos, atentemos em que, nos atos da vontade, ao falarmos vocal ou mentalmente com Deus Nosso Senhor ou com seus santos, se requer de nossa parte maior reverência do que ao usarmos o entendimento refletindo.

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O retirante precisa:

1) Exercitar-se pessoalmente, “discorrendo e raciocinando por si mesmo”. Não basta escutar ou ler as verdades; é necessário ruminá-las e aplicá-las a si mesmo. Só assim se aprende a meditar, o que já seria uma grande vantagem dos exercícios;

2) Quando o retirante se exercita a si mesmo e assim consegue “achar alguma coisa, há mais gosto e fruto espiritual”; porque aquilo que por si próprio achou impressiona, e penetra mais o coração, produzindo efeitos mais duradouros.

3) Na meditação é necessário cooperar com a graça divina, e com humilde simplicidade demorar-se numa verdade, mesmo numa palavra, enquanto nela se encontra consolação e fruto, e não voar de uma a outra coisa, para colher muitos conhecimentos altos e sublimes (meditar não é estudar); “porque não é o muito saber…”. Nom multa, sed multum!

 

Na meditação a memória apresenta uma verdade, o entendimento a examina, penetra, interpreta e aplica; a vontade a aceita, excita afetos de alegria, agradecimento, dor, propósito etc…

Nos atos do entendimento dirigimo-nos, por assim dizer, a nós mesmos;

Nos atos da vontade, porém, falamos com Deus ou com os santos.

Por isso evidentemente precisamos mostrar maior respeito e reverência nos atos da vontade do que nos do entendimento.

Maior reverência: Porque em toda a meditação estamos na presença de Deus.

De resto, uma humilde e decente atitude ou postura de corpo também ajuda o recolhimento e o zelo, e faz que Deus nos seja propício e os santos mais intercedam por nós.

 

Nos Exercícios, a comunicação pessoal com Deus se estabelece pela união das vontades, na comunhão vital do Amor. Nesta altura da oração, por causa do contato mais íntimo e do diálogo mais pessoal, requer-se, de fato, da parte do exercitante, maior respeito e reverência para com Deus presente.

A Carta Encíclica Mysterium Fidei, do Papa Paulo VI, em seus números 35-40, elenca as diversas presenças de Cristo na Igreja:

1. Cristo está presente à sua Igreja enquanto esta ora, sendo Ele quem “roga por nós, roga em nós e por nós é rogado; roga por nós como nosso Sacerdote; roga em nós como nossa Cabeça; é rogado por nós como nosso Deus” (Santo Agostinho);

2. Ele mesmo prometeu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20);

3. Ele está presente à sua Igreja enquanto ela pratica as obras de misericórdia; isto não só porque, quando nós fazemos algum bem a um dos seus irmãos mais humildes, o fazemos ao mesmo Cristo, (Mt 25,40) mas também porque Cristo é quem faz estas obras por meio da sua Igreja, não deixando nunca de socorrer os homens com a sua divina caridade;

4. Está presente à sua Igreja enquanto esta peregrina e anseia por chegar ao porto da vida eterna: habita nos nossos corações por meio da fé, (Ef 3,17) e neles difunde a caridade por meio da ação do Espírito Santo, que nos dá (Rm 5,5);

5. Cristo está presente à sua Igreja enquanto ela prega, sendo o Evangelho, assim anunciado, Palavra de Deus, que é anunciada em nome de Cristo, Verbo de Deus Encarnado, e com a sua autoridade e assistência, para que haja “um só rebanho, cuja segurança virá de ser um só o pastor” (Santo Agostinho).

6. Está presente à sua Igreja, enquanto esta dirige e governa o povo de Deus, porque de Cristo deriva o poder sagrado, e Cristo, “Pastor dos Pastores“, assiste os Pastores que o exercem, (Santo Agostinho) segundo a promessa feita aos Apóstolos: “Eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos“(Mt 28,20).

7. Cristo presente à sua Igreja enquanto esta, em seu nome, celebra o Sacrifício da Missa e administra os Sacramentos. Quanto à presença de Cristo na oferta do Sacrifício da Missa, apraz-nos recordar o que São João Crisóstomo, cheio de admiração, diz com verdade e eloqüência: “Quero acrescentar uma coisa verdadeiramente estupenda, mas não vos espanteis nem vos perturbeis. Que coisa é? A oblação é a mesma, seja quem for o oferente, chame-se ele Pedro ou Paulo; é a mesma que Jesus Cristo confiou aos discípulos e agora realizam os sacerdotes: esta última não é menor que a primeira, porque não são os homens que a tornam santa, mas Aquele que a santificou. Como as palavras pronunciadas por Deus são exatamente as mesmas que agora diz o sacerdote, assim a oblação é também a mesma“;

8. E ninguém ignora serem os Sacramentos ações de Cristo, que os administra por meio dos homens. Por isso, são santos por si mesmos e, quando tocam nos corpos, infundem, por virtude de Cristo, a graça nas almas.

9. E verdadeiramente sublime, a presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, “mais suave para a devoção, mais belo para a inteligência, mais santo pelo que encerra” (Egídio Rom.) contém, de fato, o próprio Cristo e é “como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os Sacramentos” (Santo Tomás).

 

Bibliografia:

  • Loyola, I., EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, com anotações Pe. Géza Kövecses,sj, Porto Alegre, 1966
  • Loyola, I., EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, com anotações Fr Burcardo Sasse, OFM, Vol. 1, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1937