Basílica de Monserrate, Espanha

 

Inácio continuou no caminho de Monserrate, pensando, nas façanhas a fazer quando lá chegasse, por amor a Deus. Mas, em sua mente, retornava as lembranças dos livros de cavalaria. Então, toma uma decisão, determinou-se a velar as armas toda uma noite, sem sentar-se nem encostar-se, ora de pé, ora de joelhos, diante do altar de Nossa Senhora de Monserrate, onde determinara deixar suas vestes e vestir as armas de Cristo.   

Partindo deste lugar, conforme seu costume, foi pensando em seus propósitos. Chegando a Monserrate, depois de se entreter em oração e combinar com o confessor, fez a confissão geral por escrito. Durou a confissão três dias[1]. Acertou com o confessor para que mandasse recolher a mula no mosteiro e dependurasse a espada e o punhal no altar de Nossa Senhora[2]. Deste modo, o confessor, foi a primeira pessoa a descobrir a determinação de Inácio, porque até então a nenhum confessor a descobrira.   

Véspera de Nossa Senhora da Anunciação (24 de março de 1522), à noite, Inácio foi o mais secretamente que pôde a um pobre, despiu-se de todas as suas vestes, e lhas deu. Vestiu-se de sua desejada túnica e foi fincar-se de joelhos diante do altar de Nossa Senhora, e ora assim, ora de pé, com seu bordão na mão, passou toda a noite. Ao amanhecer, partiu logo para não ser conhecido, e foi, não pelo caminho direito de Barcelona, onde acharia muitos que o conheciam, mas desviou-se para um povoado chamado Manresa.   

Determinava ficar num hospital uns dias e anotar alguns pontos em seu livro que levava muito guardado e que muito o consolava[3]. Indo já uns quatro quilômetros, aproximadamente, de Monserrate, alcançou-o um dos guardas do Santuário de Monserrate, que vinha com muita pressa atrás de Inácio e lhe perguntou se dera suas vestes a um pobre, como este afirmava. Respondendo que sim, saltaram-lhe às lágrimas dos olhos, por compaixão do pobre, pois compreendeu que o molestavam, como se tivesse roubado.   

Bibliografia         

Cardoso, Pe. Armando, SJ, Autobiografia de Inácio de Loyola, Edições Loyola, SP, 1978, nº 17-18.     

 
 


   

[1] Confissões de vários dias, com muito cuidado de pormenores, para as quais havia até formulários especiais, eram comuns naquele tempo. Era confessor ordinário dos peregrinos de Monserrate, Dom João Chanon, santo sacerdote francês, que depois de clérigo secular se fizera beneditino. Foi mestre de noviços e reformador dos mosteiros de Espanha e Portugal, vindo morrer em Monserrate aos 89 anos, em 1568.   

[2] A mula serviu durante muito tempo ao mosteiro. A espada e o punhal, suspensos do altar, forma depois retirados daí: nos princípios do século XVII, nos processos para a canonização, já se ignorava seu paradeiro.   

[3] Inácio devia ficar só “alguns dias” em Manresa, mas demorou-se mais de dez meses, de 25 de março de 1522 a fevereiro de 1523. Foi talvez por uma moção interior ou pela peste que grassava em Barcelona, ou pelas enfermidades que o atacaram em Manresa. Não importa o motiva, mas como se dizia, Manresa tornou-se “sua igreja primitiva”, onde ele escreveu os Exercícios Espirituais.