CANÔN BÍBLICO  

Cânon: do grego kanná, caniço. Significa medida, régua; em sentido metafórico, designa regra ou norma de vida (cf. Gl 6,16). Os antigos falavam do CÂNON DA FÉ OU DA VERDADE, para designar a doutrina revelada por Deus, que era critério para julgar qualquer doutrina humana e para nortear a vida dos cristãos. Derivadamente cânon significava também catálogo, tabela, registro; neste último sentido os cristãos passaram a falar do cânon bíblico ou da Bíblia (= catálogo dos livros bíblicos).  

   

HISTÓRIA DO CÂNON BÍBLICO  

PERÍODO PRÉ-CRISTÃO  

A princípio o Povo respeitava as tradições concernentes a personagens ilustres: Abraão, Moisés e aos Santuários: o Templo de Jerusalém, Betel, como também a acontecimentos: época dos Juízes, dos Reis… Em razão de ser uma Teocracia, o Pentateuco tanto legislava sobre o culto quanto sobre o governo de Israel (cf. 2Rs 23,1-3; Esd 7,12.13.25-26).  

Depois do Exílio da Babilônia, os escritos de Isaías, de Jeremias e de Ezequiel, por seu conteúdo escatológico, pronunciando melhores dias para Israel, adquiriram grande aceitação entre o Povo humilde e piedoso.  

Da meditação pessoal da PALAVRA DE DEUS, surgem os Livros Sapienciais e os Livros Apocalípticos, ambos sob a INSPIRAÇÃO DIVINA.  

Conquanto tidos em grande reverência, “a LEI, os PROFETAS e os ESCRITOS”, os judeus não possuíam um critério seguro e definido sobre o que seriam os LIVROS SAGRADOS. Os Fariseus admitiam somente 22 Livros Santos. Os Saduceus e os samaritanos se limitavam a considerar SAGRADO, o PENTATEUCO, enquanto que os Judeus da Diáspora e os Essênios de Qunram afirmavam que DEUS ainda falaria aos homens.  

Somente no fim do século I (entre 80 e 100 dC) os Doutores da Sinagoga, no Sínodo de Jamnia fixaram o CÂNON JUDAICO, consoante os seguintes critérios:  

Os livros deveriam ter sido redigidos e conservados na língua hebraica e escritos na palestina;  

Deveriam ainda ter sido escritos antes de ESDRAS (século V AC);  

Deveriam estar ligados à inspiração profética;  

Deveriam ser conforme à lei de Moisés (sentido formalista farisaico)  

Critério tão rigoroso exclui sete livros e diversas passagens de Daniel, Ester, a saber:  

Sabedoria, 2Macabeus e Ester 10,4-16.24 por terem sido escritos em grego e em terra estrangeira;  

Eclesiástico, 1 e 2Macabeus por serem posteriores a Esdras;  

Tobias e Judite por terem sido escritos em aramaico e posteriores a Esdras;  

Baruc e Daniel 3,24-90; 13,14; por só existirem textos gregos.  

Sixto de Sena (†1569) deu o nome de protocanônicos (primeiros listados) aos livros excluídos dos catálogo do Sínodo de Jamnia.  

   

PERÍODO CRISTÃO  

Em virtude de a Igreja ter crescido principalmente na Diáspora, os cristãos usavam com freqüência a Versão dos SETENTA, tradição seguida também pelos primeiros Padres.  

Portanto, os cristãos admitiam também outros livros considerados SAGRADOS.  

O “Fragmento de Muratori” parece incluir o Livro da Sabedoria, citado com os do Novo Testamento, entre os livros admitidos pela Igreja de Roma.  

Do século III ao século V, surgem dois fatos novos:  

A controvérsia com os judeus: levando os apologistas a só argumentarem usando livros Protocanônicos;  

O surto de escritos apócrifos: fazendo com que alguns escritores, por prudência não citassem muito os Livros Deuterocanônicos.  

Muito favoreceram a uniformização do Cânon Católico, os Concílios Regionais da África: Hipona, em 395; Cartago, em 397 e 418. Como também a carta do Papa Inocêncio I a Exupério, bispo de Tolosa (405) indicando a relação dos livros aprovados pela Igreja.  

No século VI, no Oriente, não havia mais dúvidas em aceitar os Deuterocanônicos como inspirados; no Ocidente havia certa dúvida: raras vozes discordantes. O Concílio de Florença (1441) publica um Cânon Católico que já é o nosso, mas não o define. O Concílio de Trento (1546) repete e define o Cânon Católico do Concílio Florentino tal como hoje o temos, professado pelo Concílio Vaticano I (1870) e pelo Concílio Vaticano II (1965 – Dei Verbum.  

   

SITUAÇÃO DO CÂNON BÍBLICO  

Após a Reforma Luterana, Lutero, por razões de tradição judaica, exclui os Livros Deuterocanônicos, no que foi seguido por Calvino e os protestantes em geral.  

Nessa opção Lutero desprezou a Tradição Apostólica (dos padres e cristãos das primeiras gerações) e também a dos judeus de Alexandria… Porque o fez?  

Em razão da dissidência de Lutero, hoje temos o seguinte quadro:  

Os católicos distinguem:  

Livros Sagrados (Cânonicos)  

Protocanônicos: todos exceto os Deuterocanônicos  

Deuterocanônicos: Tb; Jd; Sb; 1 e 2 Mc; Ba; Eclo; Est; Dn parte.  

Apócrifos: não inspirados, não pode ser lidos nas Igrejas.  

Os protestantes distinguem:  

Livros Sagrados: só os Protocanônicos (Canônicos)  

Apócrifos: os Deuterocanônicos na Bíblia Católica  

Pseudo-epígrafos: os Apócrifos na decisão Católica.  

    

HISTÓRICO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO  

Com relação aos Livros do NT; as hesitações são menores, pois o Fragmento Muratoriano[1] (170 dC) relaciona todos os livros hoje admitidos como canônicos, exceto a Epístola aos Hebreus.  

Os Livros controvertidos na Igreja primitiva e por isso, chamados os “Deuterocanônicos do Novo Testamento”, são:  

Epístolas aos Hebreus: sem indicação de autor, nem de destinatários, foi aceita a princípio, mas não citada por algum tempo entre os Latinos em razão da heresia dos Novacianos[2]. Na metade do século IV, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, defenderam sua canonicidade e hoje é universalmente considerada canônica não paulina.  

Apocalipse: por haver sido usada pelos dissidentes “milenaristas”[3] (Ap 20,1-15). Para fundamentar seus erros este Livro também ficou como suspeita, mas no século IV foi reconhecido com Livro Sagrado Inspirado.  

Epistola de São Tiago: foi colocada sob suspeita pois Tg 2,14-24, parece contradizer Rm 3,21-26 e Gl 2,16. No entanto não há contradição, mas complementação: a FÉ nos é dada gratuitamente pela Salvação em CRISTO, mas cresce e se firma nas obras do cristão (cf. Lc 10,25-28; 1Cor 15,10; Gl 5,6).  

Epístola de São Judas Tadeu: foi discutida a inspiração desta carta por citar apócrifos, como a Assunção de Moisés (v.9) e Apocalipse de Henoc (v.14ss).  

Segunda Epístola de Pedro: parecendo reedição ampliada da Epístola de Judas, teve também sua autenticidade contestada.  

Segunda e Terceira Epístola de João: por serem pouco extensas e de conteúdo teológico exíguo, houve dúvida em relação a sua canonicidade.  

   

CATÁLOGO DA BÍBLIA  

Só pode ser definido pela Tradição e pelo Magistério Eclesiástico, portanto, é a Igreja quem diz quais são os LIVROS SAGRADOS, isto é. Os de INSPIRAÇÃO DIVINA.  

    

Fonte: Anotações das aulas de Sagrada Escritura da Escola Mater Ecclesiae – Núcleo Glória, Profª Herenice Auler, Rio de Janeiro, RJ, 1995  


  

[1] O Cânone Muratori, também conhecido por fragmento muratoriano ou fragmento de Muratori, é uma cópia da lista mais antiga que se conhece dos livros do Novo Testamento. Foi descoberta na Biblioteca Ambrosiana de Milão por Ludovico Antonio Muratori (1672 – 1750) e publicada em 1740. Na lista figuram os nomes dos livros que o autor desconhecido da lista considerava admissíveis, com alguns comentários. A lista está escrita em latim e encontra-se incompleta, daí ser chamada de fragmento. Apesar de ser consensual datar o manuscrito como sendo do século VII, ele é cópia de um texto mais antigo, datado como tendo sido escrito por volta do ano 170, já que nele é referido o Pastor de Herma.  

[2] O Novacianismo é uma doutrina cristã do século III que ensinavam haver pecados irremissíveis (cf. Hb 6,4-8) e afirmam que a Igreja não tem poder para dar a paz aos que renegaram da fé na perseguição e aos que cometeram algum pecado mortal. Esta doutrina rigorista foi perdendo adeptos até desaparecer no século VII. Foi proposta por Novaciano, quem é considerado antipapa.  

[3] O milenarismo (palavra que advém do latim millenium) designa a doutrina religiosa, retirada da Bíblia (Ap 20, 1-15), que anuncia o regresso de Jesus Cristo para constituir um reino com duração de mil anos.