São João Batista, pintura de El Grego (nascido em 1541 na cidade de Creta, Grécia e falecido em 1614, na cidade de Toledo, Espanha. Esta obra foi pintada na Espanha, no ano de 1600 e se encontra no Museu de San Francisco, USA

Jo 1,6-8.19-28: “Eu sou a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor” (11.dez.2011)

6Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 19Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu? 20Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo. 21Pois, então, quem és?, perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não. 22Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? 23Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías (40,3). 24Alguns dos emissários eram fariseus. 25Continuaram a perguntar-lhe: Como, pois, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 26João respondeu: Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado. 28Este diálogo se passou em Betânia[1], além do Jordão, onde João estava batizando.

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Comentando:

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas, João Batista, o maior dos nascidos de mulher (cf. Mt 11,11)[2], pôde indicar com o dedo o próprio Messias (cf. Jo 1,29)[3], sendo o testemunho do Batista o fechamento de todas as profecias anteriores.

A missão de João Batista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinóticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Atos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (At 1,22[4]; 10,37[5]). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6[6].15[7].19[8].29[9].35[10]; 3,27[11]; 5,33[12]). Sabemos, além disso, que o apóstolo/evangelista São João tinha sido discípulo do Batista antes de ser discípulo do Senhor, e que precisamente o Batista foi quem o encaminhou para Cristo (Cf. 1,37ss[13]).

O novo Testamento nos ensina a transcendência da missão do Batista, mas, ao mesmo tempo nos mostra que o Batista é o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cf. Mc 1,7)[14]; por isso o Batista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho do Senhor (cf. Lc 1,15-17[15]). O testemunho de João Batista permanece através dos tempos, e chega até o hoje da história, convidando cada um de nós, a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

Algo que podemos destacar, neste terceiro domingo do Advento, será o testemunho do Batista. Assim se sublinha a missão que Deus lhe confiou de testemunhar, com a sua vida e com a sua palavra, que Jesus Cristo é o Messias e Filho de Deus. O precursor exorta à penitência vivendo ele próprio esse espírito de austeridade que pregava; indica Jesus como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e proclama-O com coragem diante dos judeus. A figura grave do Batista é modelo de fortaleza com que devemos confessar Cristo: “Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo de vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo” (Ad Gentes, 11).

Num ambiente de intensa expectativa messiânica, o Batista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias.

Chama a atenção à grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: “Não sou o Cristo”. Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: “Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias” (v.27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).

Batizar”: Significava originariamente submergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o batismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios ao povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um batismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumran, que existia em tempos de Nosso Senhor.

O batismo de João tinha um marcado caráter de conversão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Batista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O batismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (Cf. Zc 13,1[16]; Ez 36,25[17];37,23[18]; Jr 4,14[19]). O batismo de João, todavia, não tinha poder de limpar a alma dos pecados, como faz o Batismo cristão (cf. Mt 3,11[20]; Mc 1,4[21]).

Quem vós não conhecei”: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Batista pode afirmar que realmente não O conheciam.

O Batista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Batista. Como diz Santo Agostinho: “Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este ato de humildade”.

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Thologica, Braga-Pt, 1994


[1] Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jericó, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jerusalém (cf. Jo 11,18).

[2] Mt 11,11: Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.

[3] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

[4] At 1,22: A começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição.

[5] At 10,37: Vós sabeis como tudo isso aconteceu na Judéia, depois de ter começado na Galiléia, após o batismo que João pregou.

[6] Jo 1,6: Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.

[7] Jo 1,15: João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim.

[8] Jo 1,19: Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu?

[9] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

[10] Jo 1,35: No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos.

[11] Jo 3,27: João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu.

[12] Jo 5,33: Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.

[13] Jo 1,37ss: 37Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. 38Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? 39Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido.

[14] Mc 1,7: Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.

[15] Lc 1,15-17: 15porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; 16ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, 17e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto.

[16] Zc 13,1: Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os habitantes de Jerusalém, que apagará os seus pecados e suas impurezas.

[17] Ez 36,25: Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações.

[18] Ez 37,23: Não mais se mancharão com seus ídolos nem cometerão infames abominações: libertá-los-ei de todas as transgressões de que se tornaram culpados e purificá-los-ei. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.

[19] Jr 4,14: Jerusalém, limpa o coração da maldade, a fim de que consigas a salvação. Até quando abrigarás no coração pensamentos que te são funestos?

[20] Mt 3,11: Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.

[21] Mc 1,4: João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.