Pintura “A Anunciação” de 1785, de Francisco Goya (pintor espanhol, nascido em Fuendetodos (Spain) em 1746 e falecido em Bourdeaux (France) em 1828). Encontra-se em coleção privada.

O anjo lhe disse: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” – Lc 1,26-38: (18.dez.2011)

26No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, 27a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. 28Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. 29Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. 30O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, 33e o seu reino não terá fim. 34Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem? 35Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, 37porque a Deus nenhuma coisa é impossível. 38Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.

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Contemplamos Nossa Senhora que, “enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cf. Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38)… Maria consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus onipotente o mistério da Redenção”. (Lumen Gentium, nº 56).

Não há Encarnação sem Anunciação, mistérios das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus se faça homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós!

São Lucas, narra estes versículos com grande simplicidade. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Ângelus cada dia, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

Deus quis nascer de uma Mãe Virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (Is 7,14; Mt 1,22-23). Deus, “desde toda a eternidade, escolheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Filho tornasse carne e nascesse na plenitude dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas” (Ineffabilis Deus)[1]. Este privilégio de ser Virgem e Mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular.

No texto bíblico, qual o significado de “Salve!”: literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

Ainda, no texto. Qual o significado da saudação “Cheia de graça”: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação. Os Padres e Doutores da Igreja “ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo”, pelo que “jamais esteve sujeita a maldição”, isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do Arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr. Ineffabilis Deus, do Papa Pio IX – †1878; Credo do Povo de Deus, nº 14, do Papa Paulo VI – †1978).

E o texto, “O Senhor está contigo”: Estas palavras não têm um mero sentido de súplica (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito estreita com a Encarnação. Santo Agostinho († 430) comenta a frase “o Senhor está contigo” pondo na boca do Arcanjo estas palavras: “Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no teu ventre, enche a tua alma, está no teu seio” (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: “Bendita tu entre as mulheres”: Deus exalta Maria, sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judite etc…, pelo fato de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

Perturbou-se” (vers. 29): Fica assim Nossa Senhora pela presença do Arcanjo, e pela confusão que é produzida nas pessoas verdadeiramente humildes, quanto aos louvores dirigidos a ela.

A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranqüiliza e Lhe diz “não temas, Maria”, está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, se apresenta em toda a vocação divina. O fato de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reação natural diante da grandeza do sobrenatural.

O Arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaías que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cf. Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será “grande”: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de Davi, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino “não terá fim”: porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que “chamar-se-á Filho do Altíssimo”.

No anúncio do Arcanjo vêm à tona, as antigas profecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

O Papa João Paulo II comentava assim esse trecho: “Virgo Fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto? Perguntava Ela ao anjo da Anunciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (..).

A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um Fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que há desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…)”.

Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objeto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições, antes que permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…)”.

Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O Fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no Fiat silencioso que repete aos pés da cruz” (Homilia Catedral do México).

A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não dúvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem “como será isso” exprime a sua prontidão para cumprir a vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para conservar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser Mãe. As palavras imediatas do Arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certamente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, “atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Príncipe e Salvador do Mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio” (De Bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram celibatários, como Jeremias, Elias, Eliseu e no Novo Testamento: João Batista. A Virgem Santíssima, inspirada de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adquirirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr. Gaudium et spes, nº 48).

A “sombra” é um símbolo de presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei, uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 25,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35).

No momento da Encarnação o poder de Deus cobre com a Sua Sombra Nossa Senhora. É a expressão da ação onipotente de Deus. O Espírito de Deus – que, segundo o relato do Gênesis (1,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas – desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cf. Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em Novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Angelus.

Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência.

Que a busca, acolhimento, coerência e constância, exemplos de fidelidade demonstrados pela Virgem Maria a partir da Anunciação, seja nosso modelo, onde possamos buscar a santidade para “gerar” e “formar” Cristo em nós!

Fonte: VV.AA, Bíblia Sagrada, anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra, Edições Theologica, Braga, 1994.

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[1] Ineffabilis Deus (Latim: para “Deus Inefável”), Constituição Apostólica escrita pelo Papa Pio IX. Este documento define o dogma da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. O decreto de promulgação é datado de 8 de dezembro de 1854, dia da Festa da Imaculada Conceição de Maria.