“Apresentação no Templo”, Giovanni Bellini, 1464 (Fondazione Querini Stampalia, Venice)

Festa da Sagrada Família (30/12/2011)
Dia – Lc 2,22-40: “O pai e a mãe estavam maravilhados com o que se dizia do Menino”.

22Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, 23conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2); 24e para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos. 25Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor. 27Impelido pelo Espírito Santo, foi ao templo. E tendo os pais apresentado o menino Jesus, para cumprirem a respeito dele os preceitos da lei, 28tomou-o em seus braços e louvou a Deus nestes termos: 29Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. 30Porque os meus olhos viram a vossa salvação 31que preparastes diante de todos os povos, 32como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel. 33Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, 35a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma. 36Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de idade avançada. 37Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. 38Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação. 39Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. 40O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele.

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Comentando:

A Sagrada família sobe a Jerusalém para dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lv 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe do filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purificação. Maria Santíssima, sempre virgem, de fato não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogênito pertence a Deus e deve ser consagrado a Ele. Se este primogênito fosse da Tribo de Levi, era dedicado ao culto divino. Aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que “sendo rico Se fez pobre por nós, para nos  enriquecer com a Sua pobreza” (2Cor 8,9), quis que fosse oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

Neste trecho do Evangelho, contemplamos a figura Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento à vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um servo leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana, mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos Povos.

O Cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verdadeira profecia. Têm este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma ação de graças a Deus, que sai do coração de Simeão, por tamanha alegria, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o caráter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens.

A Virgem Santíssima e São José se admiram, com as palavras de Simeão, não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais, a Virgem Maria e São José, nos ensinam a contemplar os mistérios divinos do nascimento de Cristo.

Depois de abençoá-los, Simeão, movido pelo Espírito Santo, profetiza de novo sobre o futuro do Menino e de Sua Mãe. As palavras de Simeão tornaram-se mais claras para nós ao cumprirem-se na Vida e na Morte do Senhor.

Jesus, que veio para a salvação de todos os homens, não obstante, será sinal de contradição, porque alguns irão rejeitá-Lo. Para outros, porém, ao aceitá-Lo com fé, Jesus será a salvação, livrando-os do pecado nesta vida e ressuscitando-os para a vida eterna.

As palavras dirigidas à Santíssima Virgem anunciam que Maria teria de estar intimamente unida à obra redentora do Seu Filho. A espada de que fala Simeão expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor inenarrável, que traspassa a alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos pecados; também são os pecados de cada um de nós que forjaram a espada de dor da nossa Mãe. Por conseguinte, temos um dever de desagravo não só com Deus, mas também com a Sua Mãe, que é igualmente nossa Mãe.

O testemunho de Ana é muito parecido ao de Simeão: como este, também ela tinha estado à espera da vinda do Messias durante a sua longa vida, num serviço fiel a Deus; e também é premiada com o prazer de ver o Menino Jesus.

Assim, pois, o nascimento de Cristo manifesta-se por três espécies de testemunhas e de três modos diferentes: primeiro, pelos pastores, depois do anúncio do anjo; segundo, pelos Magos, guiando-os a estrela; terceiro, por Simeão e Ana, movidos pelo Espírito Santo.

Quem, como Simeão e Ana, persevera na piedade e no serviço a Deus, converte-se em instrumento do Espírito Santo para dar a conhecer Cristo aos outros. Nos Seus planos, Deus aproveita as almas simples para conceder muitos bens à humanidade.

Antes da volta a Nazaré aconteceram os fatos da fuga e permanência no Egito que São Mateus relata em 2,13-23.

Ao final o Evangelista narra que “o menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele”. Nos dias de hoje, não raro, as pessoas se preocupam em crescer em fortaleza (as academias estão cheias, todo mundo malhando), que é muito bom! Todos procuram crescer em sabedoria (estudar, ganhar conhecimento, aprender línguas etc…), também muito bom! Mas crescer em graça. Este é o problema, a grande maioria ignora, não procura os sacramentos, não participam de uma comunidade e cada um quer encontrar Deus a seu jeito.

Fiquemos como a Sagrada Família, maravilhados com o Menino que crescia em Fortaleza, Sabedoria e Graça.