CARAVAGGIO. St Jerome, 1606. Galleria Borghese, Rome

O tempo da Escritura inspirada terminou; começa agora uma literatura propriamente dita, feita por homens, mas, como diz Bossuet (†1704), por homens “nutridos com o trigo dos eleitos, repletos daquele espírito primitivo que receberam de mais perto e com mais abundância da própria fonte”, homens que foram instruídos pelo exemplo dos Apóstolos e que participam diretamente na conquista do mundo pela cruz. É este vasto conjunto literário, que começa a partir do século II e depois se expande pelos seguintes, que se designará por meio de uma expressão mais célebre do que explícita: Os Padres da Igreja.

Padres da Igreja” é uma expressão que evoca, as majestosas séries de grossos volumes que o Abade Migne (†1875) publicou sob o título geral de Patrologiae cursus completus: 277 volumes de patrologia latina e 161 de patrologia grega. Mas o erudito colecionador de todos estes textos, limitou-se a gregos e latinos, deixando de lado os Padres Sírios, Coptas e Armênios, que contêm também muitas riquezas.

Os primeiros Padres, aqueles que fundaram o pensamento cristão, são os dos cinco primeiro séculos, até a queda do Império Romano. Só por si eles constituem já um mundo. A sua influência será profunda e fertilizante, quer para o espírito, quer para a alma, e por isso serão estimados tanto pelos católicos, como pelos ortodoxos e protestantes. Não há nenhum grande escritor cristão que não recorra a eles de uma forma ou de outra, e se a massa dos fiéis os venera mais do que os conhece, é importante assinalar nos nossos dias um retorno a esta fonte poderosa.

O termo Padre designava na sua origem os chefes das comunidades, os bispos; foi este sentido que conservou no caso do primeiro dos bispos, o de Roma, o Papa. Neles residia, como vimos toda a autoridade, quer doutrinal, quer disciplinar. Mais tarde, o termo passou a aplicar-se, sobretudo aos defensores da doutrina, principalmente àqueles que, perante os hereges, lutavam pela fé, mesmo que não tivessem o caráter episcopal. Foi o caso de Tertuliano (†220), Orígenes (†253) e Eusébio de Cesaréia (†339).

A matéria que estes homens tratavam era imensa: é o cristianismo inteiro, falavam sobre a doutrina moral, convidam à penitência e denunciam as faltas e os erros com um vigor que os nossos tempos já não estão acostumados. Elaboram a ciência que se chamará TEOLOGIA, a reflexão sistemática sobre os grandes dados da doutrina. Uma das contribuições essenciais da literatura Patrística é o esforço por precisar na sua formulação os dogmas da Igreja.

Há duas características que devem ser especialmente sublinhadas: essas obras são ESCRITURÍSTICAS e PEDAGÓGICAS. Mas estes dois traços prendem-se diretamente com o seu caráter mais essencial, que é o de serem uma literatura viva, profundamente unida à própria existência da Igreja e ao seu desenvolvimento. A ação de um homem ou de uma sociedade não é verdadeiramente fecunda se não encontrar o seu exato equilíbrio entre o passado e o futuro, entre os valores da tradição e as audácias do empreendimento. Dizia São Jerônimo (†420): “Ignorar as sagradas letras, é ignorar Cristo”.

A literatura que produzem é ESCRITURÍSTICA, pois sabem que as sua raízes não podem encontrar vida senão nas próprias fontes de que Jesus fez correr a água viva. Desta maneira são eles que dão início à ciência da Escritura, à EXEGESE. São Justino, Mártir (†165), Santo Irineu, Padre grego, Bispo de Lyon, Mártir (†202) e São Clemente de Alexandria, Padre grego, Apologista (†217) são os criadores desta interpretação.

Os Padres da Igreja, não escrevem por escrever, não analisam os textos como intelectuais. Escrevem para agir, estimular. É uma literatura PEDAGÓGICA: procura ensinar a mensagem de Cristo, esclarecer os espíritos e formar as almas. Diz-nos, ainda, Bossuet (†1704): “As suas obras, geram naqueles que as estudam um fruto eterno”.

O que eles pensam e o que dizem, conceberam-no na realidade viva das comunidades de que eram membros e onde o poder criador da fé arrastava os corações em direção ao futuro.

Cabe aqui lembrar que o termo Doutor da Igreja, que se associa muitas vezes ao de Padre da Igreja, não é um simples sinônimo. Indica um grau a mais, pois nem todos os Padres são Doutores. Pouco a pouco, passou a ser reservada para alguns grandes espíritos cuja ciência eminente, rigorosa ortodoxia e exemplar santidade lhes conferiam uma santidade admitida por todos. A Igreja Bizantina venera três Doutores: São Basílio, Bispo de Cesaréia na Palestina (†379), São Gregório Nazianzo, Patriarca de Cosntantinopla (†390) e São João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla (†407). Roma acrescenta-lhes uma quarto oriental: Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (†373) e quatro ocidentais: Santo Ambrósio, Bispo de Milão (†397), São Jerônimo, Monge em Belém (†420), Santo Agostinho, Bispo de Hipona (†430) e São Gregório Magno, Papa (†604). São estes os oito “Grandes Doutores” da Igreja. Mas, há outros doutores proclamados pela Igreja. Aqui, estamos apenas nos referindo aos Doutores da época Patrística.

Fonte:
ROPS, Daniel. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo, Quadrante, 1988.