Sheep in paradise. Basilica of Sant’ Apollinare in Classe, Ravenna, Italy.

Teve compaixão, pois eram como ovelhas sem pastor – Mc 6,30-34

30Os apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-lhe tudo o que haviam feito e ensinado. 31Ele disse-lhes: Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que iam e vinham e nem tinham tempo para comer. 32Partiram na barca para um lugar solitário, à parte. 33Mas viram-nos partir. Por isso, muitos deles perceberam para onde iam, e de todas as cidades acorreram a pé para o lugar aonde se dirigiam, e chegaram primeiro que eles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

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Comentando:

O ministério público de Jesus era de grande intensidade, devido a dedicação às almas e faltava a eles até tempo para comer. O cristão deve estar disposto a sacrificar o próprio tempo, para serviço do Evangelho. Esta atitude de disponibilidade nos leva muitas vezes a mudar de planos, em face da exigência das pessoas que nos solicitam uma Palavra.

Mas, Jesus é claro, na sua explicação nos ensina, que devemos ter senso comum e não pretender fazer loucamente certos esforços, que excedem absolutamente as nossas forças naturais. E diz: “Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco”.

Descansar é, portanto, uma questão de justiça social, um imperativo de caridade fraterna. Só quem vive reconciliado, em 1º lugar consigo mesmo, é que pode descansar como Deus manda.

O descanso não é uma fórmula mágica de relaxação dos músculos e nervos, uma receita automática de ritmo biológico. É sobretudo um modo construtivo de encarar a vida, um clima de paz interior que se cultiva, um coração disposto a amar em todas as estações, sem condições nem fronteiras. Não se trata de ociosidade egoísta, mas do cultivo da paz e da alegria, ao serviço dos outros.

A pergunta que as pessoas fazem no descanso “o que vamos fazer hoje?”, já vem marcada pela ansiedade. E sonhamos com longevidade quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

É altamente significativo que a Sagrada Escritura, logo no início do Gênesis, nos apresente Deus a descansar dos trabalhos da Criação (Gn 2,2-3). Repousar é uma invenção que tem a marca do próprio Deus Criador, uma ocupação digna de Deus, sumamente útil. O preceito do repouso sabático do povo de Israel é um ponto fundamental da aliança entre Deus e o povo eleito (Ex. 31,13).

O descanso é fundamental para a afirmação de Deus como o Senhor de todos e de toda a criação. O sábado faz cessar os trabalhos cotidianos e conceder uma folga. É um dia de protesto contra as servidões do trabalho e o culto ao dinheiro.

Por que não encarar os tempos de descanso neste mundo como uma antecipação e um ensaio do descanso eterno, do repouso amoroso em Deus, que continuamente age para o nosso maior bem? – Viver na presença de Deus é caminho certo para viver descansado.

Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Ti” (S. Agostinho).

Todo esforço precisa seu descanso, toda atividade pede uma parada. Não há tensão que não exija um relaxamento, nem atividade continuada que não peça uma recreação. Os cansaços acabam nos revelando que em nossa vida ativa estamos amputando certas dimensões do humano. Assim, o descanso, em seu sentido nobre, impede que nos convertamos em meros trabalhadores estressados; ela nos arranca de nossa existência maquinal.

Segundo o evangelho de hoje, as jornadas de Jesus nos evangelhos parecem ser muito esgotadoras: muitos enfermos lhe são apresentados para que os toque e os cure, são muitas as pessoas que se aproximam para escutá-lo, é cobrado em todos os lugares por onde passa, os conflitos com os fariseus… Jesus sentia os cansaços e as pressões, mas ao mesmo tempo sabia fazer “paradas” para recuperar as forças, para retomar o contato com o sentido de sua vida e de sua missão, para ser Ele mesmo. Ele possuía uma lucidez que proporcionava uma visão profunda das coisas, no clima de uma paz sempre buscada. Para Jesus, o descanso, entre outras coisas, era um momento de restauração e reabilitação pessoal que lhe permitia mergulhar de novo no cotidiano com maior criatividade.

Vinde sozinhos para um lugar deserto…” O descanso não é uma “desconexão” , senão uma “conexão” com aquilo que é o impulso fundamental de nossa vida cotidiana. O descanso possibilita afastar-nos do rotineiro e nos faz caminhar ao deserto interior, onde podemos dirigir um olhar contemplativo sobre a vida cotidiana. Nele nos desprendemos do presente e de sua urgência tirana.

Viver descansadamente” é encontrar um descanso, uma paz interior, uma quietude, uma consolação, uma satisfação na vida e nas atividades, e que tem sua raiz na comunhão com Deus que trabalha e descansa. A vida do “contemplativo na ação” é uma vida ativa vivida “descansadamente”, ou seja, na presença de Deus, com o coração centrado n’Ele, fazendo somente Sua Vontade…

Descansar é uma arte. Viver descansadamente, uma arte ainda mais delicada” (J.A. Guerreiro)

No Evangelho de hoje, o Senhor faz planos para descansar com seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas. Mas não pode levar avante o Seu plano, devido a presença de um grande número de pessoas que vão atrás de Sua Palavra, Sua Cura, Seu Perdão. Jesus, não se aborrece com o povo, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que eles têm. “Morre o Meu povo por falta de doutrina” (Os 4,6).

E você:  – seu descanso é tempo de humanização ou mais um stress na sua agenda?

Referência: Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ) e comentários da Bíblia Sagrada, da Edições Theológica, Braga, 1994.