Vasiliy Polenov. “What People Think about Me”. From the series “The Life of Christ”. 1900. Rússia.

Mc 8,27-37 – Tu és o Cristo!

27Jesus saiu com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe, e pelo caminho perguntou-lhes: Quem dizem os homens que eu sou? 28Responderam-lhe os discípulos: João Batista; outros, Elias; outros, um dos profetas. 29Então perguntou-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Pedro: Tu és o Cristo. 30E ordenou-lhes severamente que a ninguém dissessem nada a respeito dele. 31E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muito, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse depois de três dias. 32E falava-lhes abertamente dessas coisas. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo. 33Mas, voltando-se ele, olhou para os seus discípulos e repreendeu a Pedro: Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens. 34Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. 35Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á.

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Comentando:

O objetivo do evangelho de Marcos é responder à pergunta: ”Quem é Jesus?“ e consequentemente o que significa ser cristão.

Jesus é claro: apresenta-nos as consequências do seu seguimento.

Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido… Tudo o que acontece com o Mestre, acontecerá também com os seus discípulos. Os Evangelhos anunciam que tudo o que Jesus faz – suas atitudes, seus gestos, suas palavras – revela uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem, um novo projeto. Jesus encarna-se num mundo fechado, dividido, conflituoso… Faz-se presente no mundo da dor: enfermos, pobres, pecadores… e a partir daí propõe um novo movimento de humanização. Jesus passa a viver a partir de um sonho primordial: o Reino.

A riqueza original desse sonho primordial não se “encaixou” nos esquemas dos fariseus ou saduceus, essênios ou zelotes, nem se deixou instrumentalizar pela instituição do Templo ou sinagoga.

Jesus era LIVRE e essa LIBERDADE nos fascina até hoje.

Ele vive o tempo todo no “pique” dessa profunda experiência que via em Deus um Pai, nos companheiros via irmãos e amigos e nos acontecimentos, o sopro do Espírito.

A vontade de Deus nunca passará pelo caminho do poder sobre os outros, senão pelo caminho do serviço. O que Deus quer é o bem das pessoas; somos chamados a viver o amor que se entrega.

Quem quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Jesus oferece aos discípulos uma resposta carregada de sabedoria, na linha daquela que foi dada por todos os mestres e mestras espirituais: para caminhar na direção da vida, é necessário “desapegar-se” do eu.

Renunciar a si mesmo” é não se reduzir ao eu superficial ou ego. Só quando nos desapegamos do eu, tomamos consciência de nossa identidade mais profunda, a vida que somos. Essa é a Vida de que fala o Evangelho, a mesma Vida que Jesus viveu, com a qual Ele estava identificado (“Eu sou a Vida”) e que buscava despertar em nós.

Renunciar a si mesmo”: não se trata de negar o que somos, mas o que pretendemos ser e não somos. No mais profundo de cada um de nós habita uma pretensão básica de querer “ser deus” – “sereis como deuses”. É o pecado de raiz já dos nossos primeiros pais. É a tentação de querer ser outro, de não aceitar ser dependente, de não se aceitar como criatura, como humano (frágil e limitado).

Renunciar a si mesmo” é não deixar que o impulso para a vaidade, a soberba, o poder… predomine; não deixar que o centro seja o “eu”, mas Deus. Isso implica em “descer”, humildemente, ao próprio húmus.

Se não venço essa pretensão de “bastar-me a mim mesmo”, não posso seguir Jesus Cristo.

Não se pode responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim” – se não nos perguntamos ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor”? Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor. O encontro comigo mesmo me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.

Com efeito, orar é aproximar-me da “verdade que me faz livre”; livre para ser “eu mesmo”, chegar a ser aquilo a que sou chamado a ser.

Por isso a oração cristã é também descoberta do “eu”, da própria realidade pessoal, do mistério que a habita. É nessa experiência divina que a pessoa “descobre-se a si mesma”. Ela começa a descobrir o seu ser (único, original, sagrado…) quando “mergulha” no misterioso relacionamento com Deus e quando permite que o “mistério experimentado” se torne fonte de sua identidade.

Mais ainda, ela saberá melhor QUEM ela é, esquecendo-se de si mesma, aceitando perder-se, deixando que o Amor a liberte de seu pequeno ego.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Fonte: comentários do Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ – Curso de Formadores de EE.