The Widow’s Mite, Louis S. Glanzman.

Mc 12,38-44 – Censuras aos Escribas e o óbolo da viúva.

38Ele lhes dizia em sua doutrina: Guardai-vos dos escribas que gostam de andar com roupas compridas, de ser cumprimentados nas praças públicas 39e de sentar-se nas primeiras cadeiras nas sinagogas e nos primeiros lugares nos banquetes 40Eles devoram os bens das viúvas e dão aparência de longas orações. Estes terão um juízo mais rigoroso. 41Jesus sentou-se defronte do cofre de esmola e observava como o povo deitava dinheiro nele; muitos ricos depositavam grandes quantias. 42Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. 43E ele chamou os seus discípulos e disse-lhes: Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou mais do que todos os que lançaram no cofre, 44porque todos deitaram do que tinham em abundância; esta, porém, pôs, da sua indigência, tudo o que tinha para o seu sustento.

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Comentando:

O Evangelho de hoje, nos fala em simplicidade, pois a suntuosidade religiosa externa não tem nenhum valor espiritual; a única coisa que importa é o interior de cada pessoa. Esta atitude fundamental manifesta-se nos gestos mais simples, conforme o gesto da viúva.

O contraste entre as duas cenas é muito forte. Ao contrapor os escribas e a pobre viúva, Jesus denuncia, em primeiro lugar, a falsa religião fundada na aparência, daqueles que se apresentam como os especialistas e intérpretes oficiais da Escritura, amigos do prestigio, que buscam serem os primeiros e que usam a religião para espoliar os pobres.

Em segundo lugar, Jesus observa uma pobre viúva e move seus discípulos a aprender dela algo que os escribas não lhes ensinarão nunca: uma fé total em Deus e uma generosidade sem limites. Seu gesto passa despercebido de todos, mas não de Jesus; no seu silêncio e no seu anonimato, a viúva põe em evidência a religião corrupta dos dirigentes religiosos; ela não busca honras nem prestígio, mas atua de maneira calada e humilde revelando um coração mais solidário: dá o que tem porque outros podem necessitar; não dá do que sobra ou do supérfluo, mas “tudo o que tem para viver”.

Para Jesus, estas pessoas simples, de coração grande e generoso, sabem amar sem reservas, são aquelas que de melhor pode existir no grupo dos seus seguidores; são elas que fazem o mundo mais humano e fraterno, aquelas que mantêm vivo o Espírito de Jesus em meio a outras atitudes religiosas falsas e interesseiras. É a partir dessas pessoas que devemos aprender a seguir Jesus. São as que mais se parecem e mais se identificam com Ele.

Em nosso encontro com Cristo, experimentamos a generosidade como libertação, como um mergulho no coração da verdade. Sentimos o nosso coração dilatar-se até às dimensões do universo; ele se sente livre para qualquer desafio, para lançar-se a uma intensa generosidade.

É a generosidade que alarga a nosso coração, rompendo seus estreitos limites e lançando-o a compromissos mais profundos. Sentimos que cada nova entrega é uma libertação maior: são novas oportunidades de serviço, de maior aproximação d’Aquele que veio, não para ser servido, mas para servir e para dar sua vida pelo mundo.

Nós cristãos deveríamos aprender a “ver os grandes acontecimentos da história do mundo a partir de baixo, da perspectiva dos inúteis, dos suspeitos, dos maltratados, dos que não tem poder, dos oprimidos, dos desprezados, numa palavra: da perspectiva dos   que sofrem” (Dietrich Bonhoeffer – …1945).

A generosidade que nasce da compaixão leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.

Isto pede de nós uma atitude de abertura ao outro… Importa, pois, redescobrir com urgência a generosidade como valor ético e como atitude permanente de vida… não uma generosidade ocasional, mas uma generosidade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de serviço no dia-a-dia.

Esta cena nos desafia mais uma vez e nos vemos retratado nela: O quê prevalece em mim: uma religião de aparência, de ritualismos, de moralismos (própria dos escribas) ou uma religião do coração (simplicidade, generosidade, despojamento…) própria da viúva?

Referência: Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ).