Coventry Cathedral – Archangel Michael and the Devil. 1956-1962. Epstein, Jacob, Sir, 1880-1959. Coventry Cathedral. Coventry – Great Britain.

Mc 13,24-32 – Passará o céu e a terra, minhas palavras não passarão.

24Naqueles dias, depois dessa tribulação, o sol se escurecerá, a lua não dará o seu resplendor; 25cairão os astros do céu e as forças que estão no céu serão abaladas. 26Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória. 27Ele enviará os anjos, e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até a extremidade do céu. 28Compreendei por uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos vão ficando tenros e brotam as folhas, sabeis que está perto o verão. 29Assim também quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está próximo, às portas. 30Em verdade vos digo: não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. 31Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. 32A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.

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Comentando:

Estamos no penúltimo domingo do “ano litúrgico B” e a liturgia, ao propor leituras que fazem referência “aos últimos tempos”, quer nos convidar à “vigilância”; de modo especial, o evangelho de hoje é tirado do “discurso escatológico” ou “pequeno apocalipse de Marcos”.

Mas Marcos ao empregar uma linguagem apocalíptica, não quer falar de coisas futuras, mas conduzir a comunidade cristã ao discernimento diante de fatos catastróficos com a destruição de Jerusalém e do Templo (ano 70d.C.) e ao compromisso cristão.

Nos fala da esperança, que é reforçada pela imagem da figueira que, carregando-se de brotos, anuncia a primavera. Esse é nosso destino: caminhamos para uma Primavera que não conhecerá ocaso. A certeza disso está enraizada na promessa de Jesus: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão”.

Aqui, não podemos entender a esperança como mera “expectativa” que nos afasta do presente, na promessa de algo que nos faça sentir melhor em outro tempo e em outro lugar.

Por isso, em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas de vida, que constituem o atual momento histórico, queremos expressar a fé no futuro da nossa vida.

E, para ser fiel, é preciso seguir o Espírito, deixando-se surpreender pelos novos rumos que Ele aponta, seduzir pelos novos horizontes que Ele descortina, desafiar pelas novas provocações que Ele lança, a partir da realidade histórica e dos novos sinais dos tempos. Essa relação viva e dinâmica com o Espírito é fundamental para a vida cristã, em qualquer circunstância.

Por isso, quando numa sociedade se perde a esperança, a vitalidade atrofia, a marcha se paralisa e a vida mesma corre o risco de degradar-se.

A esperança, hoje como sempre, não é virtude de um instante. É a atitude fundamental e o estilo de vida daqueles que enfrentam a existência “enraizados e edificados em Jesus Cristo” (Col.2,6)

A esperança se constrói dia a dia “enraizando” nossa vida no Senhor. É em meio desta sociedade onde nós cristãos procuramos “dar razão de nossa esperança” (1Pd. 3,15).

A esperança há de ser arriscada. Ela não é a virtude própria dos momentos fáceis. Ao contrário, a esperança cristã cresce, se purifica e se enriquece em meio aos conflitos. “… porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido…” (Rubem Alves).

A esperança cristã é chamada a “abrir horizonte” ao ser humano contemporâneo. Frente a uma “visão imediatista” da história, sem meta e sem sentido algum, a esperança cristã leva a sério todas as possibilidades latentes na realidade presente.

Precisamente porque quer ser realista e lúcido, o cristão se aproxima da realidade, vendo-a como algo inacabado e “em marcha”; não aceita as coisas “tal como são”, mas “tal como deverão ser”.

Quem ama e espera o futuro (“novos céus, nova terra”) não pode “conformar-se” com a realidade tal como é hoje. A esperança não tranquiliza, inquieta; introduz “contradição” com a realidade; gera protesto; nos desperta da apatia e da indiferença próprias do ser humano contemporâneo; nos desinstala.

A esperança cristã não é só “interpretação” do mundo e da condição humana. É esforço de transformação. Introduz na sociedade sede de justiça e compromisso de humanização.

Como desencadear hoje esta esperança na sociedade atual?

  • Frente ao pragmatismo científico técnico, a esperança defende a pessoa.
  • Frente ao individualismo, a esperança alimenta a solidariedade.
  • Frente à insensibilidade, a esperança desperta a misericórdia, a ternura, a acolhida, a compaixão comprometida…“onde não há coração, não cresce a esperança”.
  • Frente à violência, a esperança cria condições para o diálogo e reconciliação. O perdão é um gesto de confiança no ser humano; engendra esperança.
  • Frente à incredulidade e o vazio existencial, a esperança fortifica a fé em Deus. O ser humano necessita do “Deus da esperança”. Ele é o fundamento último sobre o qual podemos apoiar a confiança radical na vida.

Que esperança carrego no coração? Qual é visão que eu tenho do fim dos tempos? Como estou construindo minha eternidade?

Referência:
  • Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);
  • Comentário do Evangelho: Instituto Humanitas Unisinos.