Christ of Saint John of the Cross. Salvador Dalí, 1951. Kelvingrove Art Gallery and Museum, Glasgow.

Jo 18,33b-37 – Meu reino não é deste mundo.

33Pilatos entrou no pretório, chamou Jesus e perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? 34Jesus respondeu: Dizes isso por ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim? 35Disse Pilatos: Acaso sou eu judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste? 36Respondeu Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo. 37Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz.

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Comentando:

Celebramos este domingo a solenidade de Cristo Rei que encerra o Ano Litúrgico. A celebração deste dia é uma grande profissão de fé no Senhor da história que caminha com seu povo. Pois, diferente dos sinóticos o evangelho de João, que hoje nos é oferecido quase não menciona o Reino de Deus, mas concentra no relato da Paixão o tema da realeza de Jesus.

Sabemos que a vida de Jesus nos revela sua paixão pelo Reino de Deus, centro de suas ações, palavras, orações e silêncios, tomando sempre partido pelos pequenos e pelos pobres.

Jesus não se apoia na força das armas, nem se move no interior do sistema que se sustenta na injustiça e na mentira. Tem um fundamento completamente diferente. Sua realeza provém do amor de Deus ao mundo. Ele reina entregando sua vida.

Jesus é rei desta forma e não da forma triunfalista como querem os cristãos “gloriosos”. Um rei que toca leprosos, que prefere a companhia do excluídos e não dos poderosos do povo. Um rei que lava os pés dos seus, um rei despojado de poder, de riqueza e que não pode defender-se. Jesus crucificado é um estranho rei: seu trono é a cruz, sua coroa é de espinhos. Não tem manto, está desnudo. Não tem exército, nem armas. Até os seus o abandonaram. Mísero rei!

O reino de Jesus, que tem como centro os pequeninos, é aquele que vemos brotar da vida humilde, mansa, amante e serviçal do Nazareno. E é em fidelidade a essa vida, a esse reino que ele morre na cruz com o título: JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS (Jo 19,19).

O título de Cristo Rei foi proclamado pelo Papa Pio XI (1925) quando a Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade. Como pura imitação dos reis deste mundo, o triunfalismo religioso corre o risco de utilizar este título para manipular ideias, dominar consciências, alimentar sentimentos de culpa, impor o servilismo e o medo…

Jesus é o mártir da Verdade. Quando diz que “veio para dar testemunho da verdade” Ele não está falando de morrer por uma doutrina teórica, nem se refere a verdades doutrinais ou a um conjunto de crenças; Ele está falando da verdade de Seu Ser e da verdade de todo ser humano. Jesus é o Homem autêntico, a referência de ser humano, o ser humano verdade. Jesus é a última referência para todo aquele que queira deixar transparecer em sua vida a verdadeira qualidade humana. Jesus é verdadeiro porque revela o que é mais nobre em seu coração; não usa máscara, é pura transparência do rosto do Pai.

A Verdade é uma das grandes carências existenciais; ela aponta para o sentido da existência, expressa a grande e permanente busca do ser humano. O ser humano busca a verdade; antes que “ter” verdade, ele quer “ser verdade”, ele deseja existir na verdade. Jesus afirma: “eu sou a verdade”, e não “eu tenho a verdade”. O importante não é ter a verdade, mas ser verdadeiro. A pessoa verdadeira pode entrar em ressonância e em sintonia com a verdade do outro.

Ser seguidor de Jesus é fixar o olhar n’Ele, pois Ele é o centro do nosso caminho; ao caminhar com Ele, vamos nos revelando e a partir d’Ele vamos descobrindo nosso ser verdadeiro (que nos abre para acolher a verdade presente em cada ser humano – verdade que vai além das verdades religiosas, políticas, ideológicas…). É significativo que os antigos gregos entenderam a verdade como “a-létheia” (“sem véu”), ou seja, quando emerge a verdade de nós mesmos.

Quem se descobre verdadeiro e sem máscara, vive profundamente, alarga sua vida a serviço dos sem-vida. Esta é a via da humanização; e quanto mais nos humanizamos, mais nos divinizamos. A verdade não é um dogma e sim um caminho.

A verdade des-cobre o que está recoberto, des-vela o que está velado, des-oculta o que está escondido, des-lumbra o que está ensombreado, des-mascara o que está camuflado, des-emudece o que está calado, des-cativa o que está algemado.

A festa de “Cristo Rei” é uma boa oportunidade para o encontro com a nossa verdade: n’Ele, todos somos “reis”, ou seja, todo aquele que se identifica com Ele é também rei. Reis servidores devemos ser todos. Elevemos nosso olhar para a cruz, é ali o trono de Cristo Rei. O que vemos?

O que há de verdade e o que há de mentira em nosso seguimento de Jesus? E, onde há verdade que nos humaniza e onde há mentira que nos atrofia?

A verdade nos libertará…

Referência:

  • Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);
  • Comentário do Evangelho: Instituto Humanitas Unisinos.