ALLORI, Alessandro. The Preaching of St John the Baptist. 1601-03 – Galleria Palatina (Palazzo Pitti), Florence.

Lc 3,10-18 – “Eu vos batizo com água, mas vem Aquele que é mais do que eu”.

10Perguntava-lhe a multidão: Que devemos fazer? 11 Ele respondia: Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo. 12 Também publicanos vieram para ser batizados, e perguntaram-lhe: Mestre, que devemos fazer? 13 Ele lhes respondeu: Não exijais mais do que vos foi ordenado. 14 Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: E nós, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo. 15Ora, como o povo estivesse na expectativa, e como todos perguntassem em seus corações se talvez João fosse o Cristo, 16 ele tomou a palavra, dizendo a todos: Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. 17 Ele tem a pá na mão e limpará a sua eira, e recolherá o trigo ao seu celeiro, mas queimará as palhas num fogo inextinguível. 18É assim que ele anunciava ao povo a boa nova, e dirigia-lhe ainda muitas outras exortações.

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Comentando:

“O povo estava na expectativa…”: O chamado do Batista à conversão e seu apelo a uma vida mais fiel a Deus despertou em muitas pessoas uma pergunta concreta: “Quê devemos fazer?”.  João reforça a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir; isto é, desatar o que já está presente em nosso coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.

João não fala do cumprimento minucioso das normas legais ou dos ritos religiosos. O que ele pede a todos é melhorar a convivência humana. De fato, uma religiosidade que não se alarga em direção aos outros não é a religiosidade que Deus deseja.

No entanto, corremos o risco de transformar o “fazer” em simples ativismo. De fato, vivemos mergulhados numa cultura de resultados, distraídos e perdidos na variedade de luzes, cores, sensações fugazes, vivências superficiais… O cotidiano torna-se convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante… 

Falta uma referência e um horizonte que unifique tudo, que desperte nossa paixão e dê novo sentido à nossa missão.

Com isso, nossa missão se transforma em pura “fazeção”, ou seja, fazer por fazer, fazer para afirmar-se, fazer para brilhar, fazer para produzir, fazer para se impor…

Precisamos centrar no horizonte que inspira a missão, naquilo que fazemos e como fazemos. E o horizonte é “ajudar”.

“Ajudar” é, para a espiritualidade do Advento, o horizonte e a chave de integração de nossa vida.

“Ajudar”, como atitude pessoal e comunitária, é o equivalente evangélico “servir”. Um “ajudar” (servir) que brota da experiência de ser “ajudado” (servido) por um Deus servidor. No “ajudar” dão-se as mãos o amor a Deus e o amor à pessoa humana, a experiência interior e a ação cotidiana, a ação e a contemplação.

“Ajudar” pede um coração magnânimo, ou seja, grandeza de sonhos, de ânimo e de desejo; mas, ao mesmo tempo ele nos convida à humildade, ou seja, abrir-nos às necessidades do outro, descer ao nível do outro, renunciando nossos próprios critérios, modos fechados de viver…

“Ajudar” é oposto do ativismo, que é um fazer “insensato”, sem sentido e sem direção. “Ajudar” é fazer com inspiração, com horizonte de sentido; é perguntar-nos continuamente: “por que fazemos isso? para quem fazemos?… “Em quê posso ajudar?” (D. Luciano Mendes de Almeida)

Se a lógica profunda do nosso fazer é “ajudar, devemos fazer mais por aqueles que mais ajuda necessitam, por aqueles mais desvalidos, que são mais fracos, que estão mais desprotegidos…

Além disso, “ajudar” tem maior visibilidade quando a missão é vivida em grupo, quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um “modo de proceder”, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos proprietários para sermos simples servidores.

“Ajudar” os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna “espiritual” nossos atos, nossos pensamentos e orações, nossos trabalhos, nossa vida inteira.

Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”; toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente. Nessa espera vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada, o despertar de sonhos… Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: o cuidado dos pobres, o coração dilatado no serviço, o cuidado terapêutico, a ajuda gratuita…

Nessa atitude de espera o cristão pode dar sabor à sua vida: nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo.

Como cristãos, como podemos responder frente ao chamado tão simples e tão humano de João Batista?

Referência:
Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);