Pintura “Sagrada Família com Santana e o jovem João Batista” de 1601, de El Greco (pintor grego, nascido em Creta (Grécia) em 1541 e falecido em Toledo (Espanha) em 1614). Encontra-se no Museu do Prado, Madri (Espanha).

Solene Vigília do Natal do Senhor (24/12/2012) 
Mt 1,1-25 ou Mt 1,18-25 (breve)

1Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. 2Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacó. Jacó gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Farés gerou Esron. Esron gerou Arão. 4Arão gerou Aminadab. Aminadab gerou Naasson. Naasson gerou Salmon. 5Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. 6O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa. 8Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão. Jorão gerou Ozias. 9Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias. 10Ezequias gerou Manassés. Manassés gerou Amon. Amon gerou Josias. 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no cativeiro de Babilônia. 12E, depois do cativeiro de Babilônia, Jeconias gerou Salatiel. Salatiel gerou Zorobabel. 13Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliacim. Eliacim gerou Azor. 14Azor gerou Sadoc. Sadoc gerou Aquim. Aquim gerou Eliud. 15Eliud gerou Eleazar. Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó. 16Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. 17Portanto, as gerações, desde Abraão até Davi, são quatorze. Desde Davi até o cativeiro de Babilônia, quatorze gerações. E, depois do cativeiro até Cristo, quatorze gerações. 18Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. 20Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados. 22Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta: 23Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco. 24Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. 25E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus.

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Comentando:

A solene vigília de Natal nos propõe o texto breve, mas quero optar pelo longo, devido a genealogia, onde:
1. Em Jesus Cristo se cumpre as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gn 12,3);
2. Em Jesus Cristo se cumpre a profecia de um reino eterno dado por meio do profeta Natan ao rei Davi (2Sm 7,12-16).

A genealogia quer mostrar, a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo revelar a plenitude da História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

genealogia está dividida em três grupos. Cada grupo consta de quatorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus a árvore genealógica tinha grande importância. Pois, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos significativo o lugar. Inclusive, segundo essa árvore, as pessoas constituíam-se em sujeitos de direitos e obrigações. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Nesta genealogia são nomeadas quatro mulheres: Tamar (cf. Gn 38; 1Cr 2,4), Rahab (cf. Jo 2; 6,17), Betsabé(cf. 2Sm 11;12,24) e Rute (cf. Livro de Rute). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Na genealogia, também, são citados outros personagens pecadores. Com isto, quer nos mostrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através do comportamento não reto de alguns homens, Deus realiza os seus planos de salvação. Isto nos mostra que Ele vem para nos salvar, santificar e nos escolhe para fazer o bem, apesar de nossos pecados e infidelidades. Esta é a realidade da nossa história da salvação, tal qual ocorreu na história de Jesus.

No versículo 11, fala-se em deportação para a Babilônia, é o Exílio, que é narrado no Segundo Livro do Reis, 24-25. Com este fato cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da lei de Deus, especialmente ao primeiro.

Na cultura dos Hebreus as genealogias acontecem pela via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal (dentro da lei) de Jesus, conforme nos é narrado no versículo 16. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste fato se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de Davi.

Concluída a genealogia, o evangelista Mateus começa a narrar como foi o nascimento de Cristo. Por isto, celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa divina, com duas naturezas: Divina e Humana.

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproximadamente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cf. Dt 20,7). E, desde os desposórios já era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

O relato do nascimento de Jesus (conforme nos é apresentado nos versículos 22 e 23), nada mais é, do que o cumprimento da profecia de Isaías 7,14, onde:

1º) Jesus é descendente de Davi pela via legal de José;
2º) Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia;
3º) O caráter miraculoso do nascimento do Menino, acontece sem intervenção de varão.

José era um homem fiel a Deus. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor, cumpridor da Vontade divina. Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos.

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente atuar de acordo com a vontade de Deus, no entanto, sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus. Perante um fato inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Também nós, por várias vezes somos submetidos, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

Deus ilumina o ser humano que atua com retidão e que confia no poder e sabedoria divina, inclusive, perante situações que superam a compreensão da razão humana. Vemos na narração do versículo 20, onde o anjo quer recordar a José, ao chamar-lhe filho de Davi, que ele é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de Davi, segundo a profecia messiânica de Natan (cf. 2Sm 7,12).

Emanuel”: A profecia de Isaías 7,14 citada neste versículo, preanunciava já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraordinário de uma virgem que vai dar a luz um filho. O Evangelho quer nos revelar duas verdades:
1. Jesus é o Deus conosco preanunciado pelo profeta. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus conosco, não só pela Sua missão divina, mas porque é Deus feito homem (cf. Jo 1,14).
2. A Virgem Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7,14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Precisamente o sinal miraculoso de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe. Assim, pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade.

Finalizando, citamos São Jerônimo (†420) que expõe as razões pelas quais convinha que a Mãe de Deus, além de ser virgem, estivesse desposada:
1) Para que pela genealogia de São José ficasse patente a estirpe de Santa Maria como descendente do rei Davi;
2) Para que ao dar à luz não sofresse detrimento na sua honra por parte dos judeus nem pudesse ser-lhe imputada pena alguma legal;
3) Para que na fuga para o Egito tivesse a ajuda e proteção de São José. (cf. Comentário sobre S. Mateus, 1,1).

Enfim, um Natal abençoado a todos!

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Theológica, Braga (Pt), 1994