Pintura “Natividade” de 1776, de John Singleton Copley (pintor americano, nascido em Boston (EUA) em 1738 e falecido em Londres (Reino Unido) em 1815). Encontra-se no Museum of Fine Arts (Boston-EUA).

No Solenidade do Natal do Senhor (25/12/2012) 
Dia – Jo 1,1-18: “… e a palavra era Deus

1No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. 2Ele estava no princípio junto de Deus. 3Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. 4Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 6Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 9O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.10Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 12Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, 13os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. 14E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. 15João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim. 16Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. 17Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. 18Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou. 

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Comentando:

Um prólogo em forma de poema. Assim, o evangelista João vai expondo a doutrina, em versos, agrupados em estrofes (vv. 1-5;6-8;9-13;14-18). Da mesma forma quando lançamos uma pedra em um lago, produz ondas que vão se ampliando, da mesma forma o Evangelista quis se expressar, assim, a idéia ao princípio de cada estrofe vai se ampliando nos versos sucessivos sem perder o ponto de partida. Esta maneira de João explicar a doutrina era muito utilizada pelos povos antigos, uma didática que favorece a compreensão dos conceitos e que Deus quis utilizar para facilitar a todos o entendimento destes mistérios centrais da fé.

O Evangelista ao falar do Verbo quer afirmar três verdades: 1) Que o Verbo é eterno; 2) O verbo é diferente do Pai; 3) o Verbo é Deus. Tempos depois, o Papa Paulo VI(†1978), por ocasião do ano da Fé (1967-1968), declara que o Verbo, “Encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e se fez homem: portanto, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade, completamente um, não por confusão da substância, mas pela unidade da pessoa”.

O Verbo se relaciona com as criaturas, pois verificamos que no Antigo Testamento a Palavra de Deus aparece como força criadora (cf. Is 55,10-11), como Sabedoria que estava presente na criação do mundo (Cf. Pr 8,22-26), mostrando então, que o Verbo é princípio ativo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. Desta forma, a ação criadora é comum às três Pessoas divinas da Santíssima Trindade: “O Pai que gera, o Filho que é gerado e o Espírito Santo, a força geradora”, por isto a bondade radical das coisas criadas.

O Verbo: 1) É a Vida. Aqui, trata-se da Vida divina, fonte primeira de toda a vida, da natural e da sobrenatural; 2) É a Luz. É luz dos homens, porque recebemos de Deus a luz da razão, a luz da fé e a luz da glória, que são participação da Inteligência divina. Só a criatura racional é capaz de conhecer Deus neste mundo, e de O contemplar depois gozosamente no Céu por toda a eternidade. Também a Vida (o Verbo) é luz dos homens enquanto os ilumina tirando-os das trevas, isto é, do mal e do erro (cf. Is 8,23; 9,1.2; Mt 4,15-16; Lc 1,74). Jesus dirá mais adiante: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Cf. Jo 8,12; 12,46).

O Evangelista mostra que Cristo e o Seu Evangelho continuam a brilhar entre os homens apesar da oposição do mundo, vencendo-o, segundo as palavras de Jesus: “Confiai: Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Comenta Santo Agostinho (†431): “Pode ser que haja uns corações insensatos, ainda incapazes de receber essa luz. É como se um cego estivesse diante do sol. O sol está presente, mas o cego está ausente do sol. Assim, todo homem sem religião, tem um coração cego”.

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas, João Batista, o maior dos nascidos de mulher (Cf. Mt 11,11), pôde indicar com o dedo o próprio Messias (Cf. Jo 1,29), sendo o testemunho do Batista a culminação de todas as profecias anteriores.

Novo Testamento nos ensina a transcendência da missão do Batista e a clara consciência deste ser o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (Cf. Mc 1,7). O testemunho de João Batista permanece através dos tempos, convidando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

O Verbo é a Luz Verdadeira, pois é a Revelação do Pai, de onde procede a origem da Luz. Os profetas e todos os outros enviados de Deus, incluindo João Batista, não eram a verdadeira Luz, mas o reflexo, as testemunhas da Luz do Verbo.

Perante a plenitude desta Luz que é o Verbo, perguntamos: Porque tantas pessoas preferem andar nas trevas? Porque muitas pessoas, ainda não acreditam em Jesus Cristo? – “Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigênito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou Seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17).

No verso 11, vemos a palavra “Seus”, que podemos entender, em primeiro lugar, o povo judaico, que tinha sido escolhido por Deus como povo da Sua propriedade (Dt 7,6-7).  Mas, entendemos que Jesus veio não só para o povo judeu, mas a todos os que são chamados à Sua amizade. Mas muitos o rejeitam, e hoje, já no terceiro milênio do cristianismo, muitos ainda o ignoram. Mas, para que a Luz de Cristo se difunda, se faz necessária a nossa cooperação, através: da evangelização, da participação da Igreja Apostólica e Missionária.

No verso 12 vemos a expressão “Receber o Verbo”, que é aceitá-Lo pela fé, porque pela fé Cristo habita em nossos corações (Cf. Ef 3,17). Crer no Seu Nome significa crer na Sua pessoa, em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. “O Filho de Deus se faz Homem” – explica Santo Atanásio (†373) – “para que os filhos de Adão, se tornassem filhos de Deus. Ele é o Filho de Deus por natureza; nós por graça

A união de Cristo com a pessoa, como podemos experimentar em cada Eucaristia, é a nascente da força” (expressão de São João no prólogo de seu Evangelho). O Verbo nos dá poder de tornar-nos Filhos de Deus. É esta força que nos transforma interiormente, como o princípio de uma vida nova, que não passa, mas dura para a vida eterna (Cf. Jo 4,14).

O nascimento, que se fala no verso 13, pode ser tratado como uma verdadeira geração espiritual, que se realiza no Batismo (Cf. Jo 3,6). O contraste entre o nascimento natural (pelo sangue e querer do ser humano) e o sobrenatural (que vem de Deus) faz ver que os que creem em Jesus Cristo são constituídos filhos de Deus não só enquanto criaturas, mas, sobretudo pelo dom gratuito da fé e da graça.

Já no verso 14 é tratado sobre os “sinais da presença de Deus”, primeiro na Tenda do Santuário peregrinante do deserto e depois no Templo de Jerusalém, segue-se prodigiosa presença de Deus entre nós: Jesus, perfeito Deus e perfeito homem. Por isso, ao ler as palavras do Evangelho “e habitou entre nós”, ou, ao rezar o Ângelus, é boa ocasião para fazer um ato de fé profundo e agradecido, e de adorar a Humanidade Santíssima do Senhor. “Cristo, efetivamente, foi concebido no seio de Maria e se fez homem para revelar o amor eterno do Criador e Pai, assim como para manifestar a dignidade de cada um de nós” – Papa João Paulo II (†2005)

Transfiguração (Lc 9,32-35), os milagres (Jo 2,11; 11,40) e especialmente a Ressurreição (Jo 3,11; 1Jo 1,1), demonstram  a glória de Deus, que resplandecia no Antigo Santuário do deserto ou no Templo de Jerusalém, que era senão uma antecipação imperfeita da realidade da glória divina. O Apóstolo João fala com solenidade “vimos a sua glória”, pois era um dos discípulos de Cristo e testemunhara, em particular, Sua Transfiguração e Ressurreição.

São João Crisóstomo (†407), ao comentar a expressão “graça por graça” (v. 16), quer indicar a superabundância de dons outorgados por Jesus: a umas graças acrescentam-se outras, e todas brotam da fonte inesgotável que é Cristo, cuja plenitude de graça nunca acaba. E continua o santo, comentando o trecho “a Lei foi dada por meio de Moisés” (v.17), que se limita a indicar o caminho que o homem deve seguir (Cf. Rm 8,7-10), mas a Graça trazida por Jesus Cristo tem o poder de salvar aqueles que a recebem (Cf. Rm 7,25).

A Deus ninguém jamais O viu” (v.18): Todas as visões que os homens tiveram de Deus neste mundo foram indiretas, já que apenas contemplaram a glória divina, isto é, o resplendor de Sua grandeza: por exemplo, Moisés viu a sarça ardente (Ex 3,6); Elias sentiu a brisa no monte Horeb (1Rs 19,11-13); Isaías contemplou o esplendor de Sua majestade (Is 6,1-3). Mas, na Plenitude dos Tempos, essa visão é mais próxima e quase direta, já que Jesus é a imagem visível do Deus invisível (Col 1,15); é a revelação máxima de Deus neste mundo, até ao ponto de afirmar: “Aquele que Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

Neste Natal vou me abraçar a Cristo como meu Salvador?

Espírito Santo desce sobre mim para que no decorrer da minha vida eu possa descobrir os acontecimentos da Tua Misericórdia.

Espírito Santo ilumina o meu coração e purifica o meu olhar para que possa ver onde preciso da Tua luz do Teu calor do Teu sopro que me dá a vida.

Espírito Santo faz com que minha verdade seja desde já ir ao Teu encontro.

Neste dia que teve início na noite profunda, deixemo-nos surpreender pelo rosto de nosso Deus. Um rosto de criança que não se impõe, mas que para ser visto é necessário inclinar-se sobre Ele.

Deus sempre fiel, Senhor do Verbo e do Rosto, faz com que eu pela Tua Graça e pela Tua Encarnação possa sempre dizer Jesus Cristo minha vida. E que eu me conforme com a Tua palavra para que a minha indulgência e o meu corpo nos Seus gestos possam participar da luz da noite de Belém que ilumina toda humanidade, até hoje e até o fim dos tempos.