Pintura “Adoração dos Pastores” de 1668, de Bartolome Esteban Murillo (pintor espanhol, nascido em Sevilha (Espanha) em 1617 e falecido em Sevilha (Espanha) em 1682). Encontra-se na “Wallace Collection” (Londres – Inglaterra).

Solenidade do Natal do Senhor (25/12/2012) 
Noite – Lc 2,1-14: 

1Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. 2Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. 3Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.4Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, 5para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. 6Estando eles ali, completaram-se os dias dela. 7E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. 9Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. 10O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: 11hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. 13E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:14Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência (divina).

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Comentando:

César Augusto era então Imperador de Roma; reinou do ano 30 a.C. ao ano 14d.C. Há registro de vários recenseamentos do seu império, um dos quais este narrado pelo Evangelista. Como Roma costumava respeitar os usos locais, o recenseamento fazia-se segundo o costume judeu, pelo qual cada chefe de família ia recensear-se ao lugar de origem, por isto José e Maria, grávida, vão para Belém, à cidade de Davi.

Em Belém, nasce o Messias, Filho de Deus e nosso Salvador. “Ele Se faz criança (…) para que sejamos homens perfeitos: Ele foi envolvido em paninhos para que fiquemos livres dos laços da morte (…). Ele desceu à terra para que pudéssemos subir ao Céu; Ele não teve lugar na pousada para que no Céu tenhamos muitas moradas. Ele sendo rico, fez-Se pobre por nós – diz São Paulo (2Cor 8,9) – para que nos enriqueça com a Sua pobreza (…). As lágrimas daquele Menino que chora purifica-nos, aquelas lágrimas lavam os nossos pecados” (São Jerônimo – †420).

Jesus recém-nascido não fala; mas é a Palavra eterna do Pai. O presépio de Belém é um lugar especial. Uma lição de humildade: “Deus humilha-Se para que possamos corresponder ao Seu amor com o nosso amor, para que a nossa liberdade se renda, não só ante o espetáculo do seu poder, como também ante a maravilha da sua humildade”. (Josémaria Escrivá de Balaguer – †1975).

O presépio deve ser o nosso coração, o lugar de acolher Jesus, o lugar para deixá-Lo nascer espiritualmente. Devemos aspirar que Cristo nasça em nós, que é como dizer, que nós devemos nascer para uma nova vida, ser uma nova criatura (Rm 6,4), guardar aquela santidade e pureza de alma que nos foi dada no Batismo e que foi como um novo nascimento.

Cristo manifestou-Se de tal maneira no Seu nascimento que deixou evidente a Sua divindade e a Sua humanidade. A fé cristã deve confessar que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Mostrou em Si mesmo a fraqueza – a forma de servo (Fl 2,7) – e, ao mesmo tempo, o poder da Sua divindade.

A salvação que Cristo trazia estava destinada a homens de todas as condições e raças: “Não há distinção entre gentio e judeu, entre circunciso e incircunciso, entre bárbaro e cita, entre escravo e livre: mas Cristo é tudo e está em todos” (Cl 3,11). Por isso, já no Seu nascimento, escolheu para Se manifestar a pessoas de diversas condições: os pastores, os Magos e os justos Simeão e Ana. Como comenta Santo Agostinho (†430): “Os pastores eram israelitas; os Magos, gentios; aqueles estavam próximos; estes longe. Uns e outros acorreram a Cristo como à pedra angular”.

Os pastores podiam ser de Belém ou talvez de outra região, que vinham aproveitar os pastos. A esta gente simples e humilde é a quem primeiro é anunciada a boa nova do nascimento de Cristo. Deus mostra predileção pelos humildes (cf. Pv 3,32); oculta-Se aos que se dizem sábios e prudentes e revela-Se aos “pequeninos” (cf. Mt 11,25).

O anjo anuncia que o Menino que nasceu é o Salvador, o Cristo, o Senhor. É o Salvador porque veio redimir-nos dos nossos pecados (Cf. Mt 1,21). É o Cristo, isto é, o Messias prometido tantas vezes no AT, e que agora está recém-nascido entre nós cumprindo essa esperança antiga.

Cristo, porém, é não só Senhor dos homens, mas também dos anjos. Daí que estes se alegrem pelo Nascimento de Cristo e Lhe tributem esta adoração: “Glória a Deus nas alturas”. Mais ainda, como os homens são chamados a participar na mesma felicidade eterna que os anjos, estes exprimem a sua alegria acrescentando no seu louvor: “E paz na terra aos homens do Seu agrado”.

São Tomás de Aquino (†1274) explica porque o Nascimento de Cristo foi manifestado por meio dos anjos: “Necessita de ser manifestado o que de si é oculto, não o que é evidente. O corpo do recém-nascido era manifesto; mas a Sua divindade estava oculta, e, portanto, era conveniente que se manifestasse aquele nascimento por meio dos anjos, que são ministros de Deus; por isso apareceu o anjo rodeado de claridade, para que fosse evidente que o recém-nascido era ‘o esplendor da glória do Pai’ (Hb 1,3)”.

Um Natal abençoado!

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Theológica, Braga (Pt), 1994