TISSOT, James. The Youth of Jesus, 1886-94. Brooklyn Museum, New York.

Lc 2,41-52 – “Jesus crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e das pessoas”.

41Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. 42Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. 43Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem. 44Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos. 45Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele. 46Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas. 48Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição. 49Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai? 50Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera. 51Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. 52E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens.

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Comentando:

O Evangelho de hoje relata a segunda visita de Jesus ao templo em Jerusalém (a primeira foi por ocasião da circuncisão). Trata-se do seu ingresso oficial na comunidade hebraica, inaugurando sua maioridade. Em Jerusalém, no templo, Jesus adolescente realiza seu primeiro e solene ato de revelação. É nessa ocasião que Ele pronuncia as primeiras palavras registradas pelos evangelhos. E a primeira palavra, na prática, é “Pai”, dirigida a Deus; “Pai” será também a última palavra pronunciada por Jesus, ainda em Jerusalém, mas no novo templo do Calvário: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc. 23,46).

Nas primeiras palavras de Jesus temos a afirmação condensada do que foi a sua vida, a revelação do seu mistério mais profundo. A relação com o Pai é aquela que determina todas as suas atitudes e ações.

Para Jesus é uma “necessidade” realizar na história concreta de sua vida o desígnio salvífico do Pai. Ela tem uma prioridade absoluta. Sobrepõe-se a todos os outros deveres, inclusive ao dever sagrado da piedade para com os pais. Porque não se pertence a si mesmo, Jesus também não pertence a seus pais terrestres. Ele – sua pessoa, sua vida e sua missão – pertencem inteiramente ao Pai.

Estas primeiras palavras de Jesus nos revelam onde está o centro de sua identidade e de sua missão: na escuta atenta e na comunhão com o Pai.

Jesus voltará a Jerusalém outras vezes; aí vai morrer e ressuscitar, porque Jerusalém é o sinal da vida e da morte, das lágrimas e da beleza, do sangue e da luz. Em Jerusalém, Jesus encontrará alegria e dor, morte e vida, acolhimento e rejeição. Jerusalém é a cidade da história humana e da história salvífica: lá está a “casa” do templo, a “casa” do Senhor, e a “casa” da dinastia de Davi, da qual descende o Cristo.

Na “perda e encontro” de Jesus no Templo se condensa toda sua vida, que é buscar a Vontade do Pai.

De Jerusalém a Nazaré: dois espaços geográficos que integram a missão de Jesus. Nazaré, um lugar desconhecido e insignificante, mas reconhecido pelos profetas, protegido pela Antiga Aliança. Nazaré está no traçado do retorno-êxodo de Jesus do Egito.

Enfim, de modo mais específico, Ele vai morar “numa cidade chamada Nazaré”. Nazaré é o sinal da epifania de Deus na rotina do dia-a-dia, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples; é a escuta atenta ao pai que fala na simplicidade dos atos e das pequenas coisas, próprios de um ambiente familiar.

Jesus nos convida a entrar em sua casa para aprender d’Ele e com Ele os valores do Evangelho. É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus Cristo; parece até que o Reino não tem exigências sobre a sua Vida. Identificando-se com a vida de todo mundo mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias e em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”.

Jesus gasta praticamente toda sua Vida nesta humilde condição; passou despercebido como Messias. O Reino se revela no pequeno, no anônimo e não no espetacular, no grandioso. Ele está misteriosamente se realizando entre nós.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galiléia, à mensagem que Deus esconde nas pessoas, nas coisas, nas horas, na natureza… é uma constante na pregação de Jesus. Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Jesus recorre em seu íntimo ao Pai, numa oração confiante e de entrega.

Jesus sente quando o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.

A vida de Nazaré coloca os critérios evangélicos na nossa cabeça e no nosso coração. A vida de Nazaré chega à nossa vida em muitos momentos (serviços ocultos, doença, rotina…). Nazaré pode transformar-se em Jerusalém quando, quem a habita, deixa-se possuir pela totalidade do amor no coração. A vida oculta” coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a importância do não importante.  O importante é ser significativo e não importante!

Jesus nos ensina, em Nazaré, o valor das coisas corriqueiras, quando são feitas com dedicação e carinho. Não são as coisas que nos fazem importantes, mas nós que fazemos qualquer coisa ser importante!   É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não. Somos nós que damos significado às coisas e não o contrário!

Quando são “as coisas importantes” que nos fazem importante, e se “essas coisas”, um dia desaparecem, parece como se a própria vida perdesse seu sentido. Na escola da vida, Jesus também foi aprendiz.

Aprender é consequência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas o confirma:  “Jesus crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc. 2,40.50).

Portanto, Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria condição humana no meio dos seus, no meio do povo e em vista do Reino de Deus, graças a uma criatividade transformadora.

Na vida de todos nós há momentos em que Deus intervém, tirando-nos de Nazaré para a vida pública (Jerusalém). Ainda que o itinerário de Nazaré pareça pobre, se o percorremos com fidelidade e amor, ele se insere no projeto de Deus, fica iluminado e nos impulsiona a ter amplos horizontes.

Como é sua família? Vive comprometida buscando uma sociedade melhor e mais humana, ou fechada exclusivamente em seus próprios interesses? Educa para a solidariedade, a paz, a sensibilidade para com os necessitados… ou só ensina a viver para o consumo insaciável, o máximo lucro e o esquecimento dos outros?

Referência:
Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);