Baptism of Christ , RENI, Guido; c.1623.Kunsthistorisches Museum, Vienna.

Lc 3,15-16.21-22 – “Eis meu servo a quem apoio…”.

15Ora, como o povo estivesse na expectativa, e como todos perguntassem em seus corações se talvez João fosse o Cristo, 16ele tomou a palavra, dizendo a todos: Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. 21Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando ele a orar, o céu se abriu 22e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição.

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Comentando:

Terminado o “tempo natalino”, começamos hoje o “tempo comum” (Ano C), ou seja, a vida pública de Jesus, sua missão como Filho em favor dos filhos. O relato do batismo – que marca a passagem da vida em Nazaré para a vida peregrina – faz referência a uma experiência fundante de Jesus: confirmado pelo Pai, impulsionado pelo Espírito, Ele descobre o sentido de sua vida e a missão que devia realizar.

O batismo de Jesus implica uma profunda experiência espiritual, muito ligada à sua atitude humilde de aproximar-se do rio Jordão, onde as pessoas simples do povo buscam no batismo de João uma purificação de suas vidas.

Jesus “desce” ao Jordão, gesto que condensa sua descida do céu à terra, sua “kénosis”,  a radicalização de sua Encarnação. É uma “descida” às águas da humanidade. Nesse sentido, o batismo não é a prova da divindade de Jesus, mas a prova de uma verdadeira humanidade; Jesus “desce” ao Jordão, submerge na vida e na condição humana e ali faz a experiência de ser conduzido pelo Espírito em favor da humanização de todos.

Ao sair do Jordão, Jesus experimenta uma “teofania” (manifestação) que revela seu mistério mais profundo: o Céu deixa de estar em silêncio, o Céu não se compraz na Lei e no Templo, o Céu se compraz em Jesus que, a partir de sua profunda percepção do Deus de Israel como Ternura e Fonte da Vida, converte sua vida em uma Boa Noticia para os abatidos da casa de Israel.

O céu se abre e sobre a terra começa a caminhar um Homem cheio do Espírito. Esse Espírito que desce sobre Ele é sopro de Deus que cria vida, a força que renova e cura a humanidade ferida, o amor que transforma tudo. Sob o impulso do Espírito Jesus se dedica a libertar a vida, a curá-la e a fazê-la mais humana.

Por isso, o grande protagonista da liturgia de hoje é o Espírito. A missão de Jesus não pode ser entendida a não ser pela experiência de deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito.

Quando consideramos profundamente a vida de Jesus, o que Ele faz, o que Ele sente e o que Ele diz, temos esta evidência: este homem é inexplicável sem o Espírito.

Sem esse Espírito tudo se apaga no cristianismo. A confiança em Deus desaparece. A fé se debilita. Jesus fica reduzido a um personagem do passado, o Evangelho se converte em letra morta. O amor se esfria e a Igreja não passa de uma instituição religiosa a mais.

Sem o Espírito de Jesus, a liberdade se atrofia, a alegria se apaga, a celebração se converte em costume, a comunhão se esfacela. Sem o Espírito a missão é esquecida, a esperança morre, os medos crescem, o seguimento de Jesus desemboca na mediocridade religiosa (cf. Patriarca Atenágoras).

No batismo, Jesus rompe com a “normalidade” de sua vida cotidiana e começa a ver tudo a partir de um horizonte mais amplo. Ele sente um chamado real a olhar a humanidade, com suas feridas e possibilidades, a partir da consciência de uma fraternidade ampla. Ao descer às margens do Jordão, Jesus desloca-se para as margens da humanidade, rompe fronteiras, abre os olhos a uma realidade mais ampla…

Ao “entrar na fila dos pecadores” Jesus descobre novos rostos, novos dramas, novas histórias… e se deixa empapar (banhar) por esta realidade carente de sentido e de horizontes. Ao conectar-se com esta realidade, Jesus carrega a própria história de um horizonte diferente, na qual cabem outras possibilidades e outras responsabilidades. Descobre uma perspectiva mais ampla que o ajuda a formular melhor o sentido de seu chamado e de sua própria missão.

A festa do batismo de Jesus é uma ocasião especial para repensar nosso batismo, um convite permanente para relançar-nos em Sua aventura, de deixar-nos invadir pelo Seu Espírito, de comprometer-nos com Seu Reino.

Na vivência cristã, nosso maior risco é o esquecimento de Jesus e o descuido de seu Espírito. É preciso voltar ás fontes, à raiz, recuperar o Evangelho em toda sua pureza e verdade, deixar-nos batizar pelo Espírito de Jesus. Se não nos deixamos reavivar e recriar por esse Espírito, nós cristãos não teremos nada importante a contribuir com a sociedade atual, tão vazia de interioridade, tão incapaz para o amor solidário e tão carente de esperança.

Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos”…

Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração… um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia…

Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada…; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.

Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio… e “passar para a outra margem”.

Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si… Sair da margem conhecida, velha, rotineira… para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos…; lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais…

Ao “descer” junto às margens do nosso Jordão, podemos atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que nos incitam a peregrinar para as regiões desconhecidas do nosso próprio interior. Só assim, poderemos vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que dão sentido e consistência ao nosso viver. Recordar (lembrar com o coração) dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da vivência do batismo. Recordar medos, entraves, obstáculos… que limitam sua vida batismal.

Referência:
Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);