VERONESE, Paolo. Marriage at Cana (1571-72), Gemäldegalerie, Dresden.

Jo 2,1-11 – “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

1Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. 2Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. 3Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. 4Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. 5Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. 6Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. 7Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. 8Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. 9Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo 10e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. 11Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

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Comentando:

Caná da Galiléia, situa-se a 7 quilômetros a Noroeste de Nazaré. Entre os convidados a essa “Bodas” está Maria Santíssima. Observamos que São José não está presente, não por esquecimento do evangelista João, este silêncio sobre o Santo, inclusive nos outros evangelhos, faz supor que José já havia morrido.

Naquele tempo, no Oriente, as festas de casamento tinham longa duração (cf. Jz 14,10.12.17). Durante a festa, parentes e amigos iam felicitar os esposos; até os transeuntes participavam do banquete; o vinho era indispensável e criava o ambiente festivo; as mulheres cuidavam das tarefas da casa; a Santíssima Virgem também ajudava, por isto Ela nota que iria faltar vinho.

Para demonstrar a bondade a todos os estados de vida, Jesus também comparece ao banquete. Esta presença de Cristo nas Bodas de Caná é sinal de que Jesus abençoa o amor entre o homem e a mulher, selado com o matrimônio. Com efeito, Deus instituiu o matrimônio já na Criação (cf. Gn 1,27-28), e depois, Jesus Cristo, o eleva a dignidade de Sacramento (cf. Mt 19,6).

No Evangelho de João, a “Mãe de Jesus” (título dado por João), aparece somente duas vezes, uma neste episódio e outra no Calvário (Cf. Jo 19,25). Entre os dois acontecimentos: Caná e Calvário, observamos que Jesus inicia e conclui a sua vida pública, para mostrar que a Sua obra está sempre acompanhada da presença de Maria, que atua como verdadeira “Mãe de Jesus”. São dois momentos em que o Senhor manifesta a Sua divindade.

Nos dois episódios vemos a solicitude de Maria Santíssima por nós homens: em Caná, intercede quando ainda não chegou “a hora”; no outro oferece ao Pai a morte redentora de seu Filho, e aceita a missão de ser mãe de todos os crentes.

No v.4 a voz de Jesus soa dura com sua mãe, como se dissesse “este é um assunto que não nos diz respeito”. Mas, na realidade, a palavra “Mulher”, naquela época era um título respeitoso, equivalente a “Senhora”, maneira de falar em tom solene. Da mesma forma Jesus irá repetir a mesma palavra na Cruz (cf. Jo 19,26).

Na colocação de Jesus: “…isso compete a nós?”, o pedido de Maria Santíssima O move a atender a necessidade da falta de vinho. É uma revelação que o Novo Testamento nos deixa: A Virgem Maria é tão poderosa na sua intercessão que Deus atenderá todos os pedidos por mediação de Maria. Por isso a piedade cristã chama Maria Santíssima como “Onipotência suplicante”.

Ainda nesse versículo, o termo “hora”, designa o momento da Sua vinda gloriosa (cf. Jo 5,28), como também se refere ao tempo de sua Paixão, Morte e Glorificação (cf. Jo 7,30 etc…).

No v.5, observamos a atitude da Virgem Maria que não duvida que Jesus faça algo para resolver o apuro daquela família. Por isso indica de modo direto aos serventes para que façam o que Jesus lhes disser. Este convite ecoa até hoje em nossos corações para buscarmos a santidade, obedecendo a Cristo em todas as coisas.

Observamos no v. 6, o evangelista nos falar sobre a “medida” ou “metreta”, que correspondia a uns 40 litros, como a capacidade de cada uma destas talhas era, portanto, de 80 a 120 litros; no total 480-720 de vinho da melhor qualidade. O evangelista João, destaca a abundância do dom concedido pelo milagre. Essa abundância de bens materiais é um símbolo dos dons sobrenaturais que Cristo obteve para nós com a Sua Redenção; “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Ainda no v.7 Jesus pede aos serventes que encham a talha “até em cima”, sublinhando com este gesto a superabundância dos bens da Redenção e a obediência dos serventes, mostrando docilidade ao cumprimento da Vontade de Deus.

Jesus converte a água, não em qualquer vinho, mas em um vinho de excelente qualidade (v.9 e 10). E, os Santos Padres viram no vinho de qualidade, reservado para o fim das bodas, e na abundância, uma figura do coroamento da História da Salvação, a alegria da Vida Eterna, que Deus concede àqueles que seguindo a Cristo, sofrem amarguras e contrariedades desta vida.

Deixar o bom vinho para o final, será como olhar para o nosso casamento. Porque têm durado 32 anos? – Não será porque temos deixado o melhor vinho para a melhor idade? E porque muitos casamentos terminam tão rápido? – Será, que não usaram o melhor vinho muito rápido? A graça de Deus faculta esta vida a dois em abundância e alegria, como um bom vinho chileno “Almaviva”.

Este milagre foi o começo de uma nova dimensão da fé dos discípulos, que tornava mais profunda a fé que já tinham e por isto era um passo a mais na formação de todos. Que seja, também a cada um de nós um passo a mais em nossa caminhada cristã.