RAFFAELLO, Sanzio. Miraculous Draught of Fishes (1515). Victoria and Albert Museum, London.

Lc 5, 1-11 – “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”

1Estando Jesus um dia à margem do lago de Genesaré, o povo se comprimia em redor dele para ouvir a palavra de Deus. 2Vendo duas barcas estacionadas à beira do lago, – pois os pescadores haviam descido delas para consertar as redes -, 3subiu a uma das barcas que era de Simão e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra; e sentado, ensinava da barca o povo. 4Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar. 5Simão respondeu-lhe: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa de tua palavra, lançarei a rede. 6Feito isto, apanharam peixes em tanta quantidade, que a rede se lhes rompia. 7Acenaram aos companheiros, que estavam na outra barca, para que viessem ajudar. Eles vieram e encheram ambas as barcas, de modo que quase iam ao fundo. 8Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. 9É que tanto ele como seus companheiros estavam assombrados por causa da pesca que haviam feito. 10O mesmo acontecera a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus companheiros. Então Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. 11E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram.

Comentando:

É difícil sair do terreno conhecido. Tudo parece conspirar para que as pessoas se mantenham dentro dos limites politicamente corretos.

Quê significa hoje “lançar as redes em águas mais profundas?”: sair de nossas seguranças para adentrar-nos no mar aberto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo…

É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novas vivências, novas experiências… Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode enriquecer-nos…

A vida está cheia de possibilidades; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, provocações, aprendizagens, motivos para celebrar… lições que aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples…

Há uma “normalidade doentia” instalada no nosso interior, reprimindo nosso nobre potencial e condicionando-nos a levar uma vida sem meta, sem significado, sem vigor, sem criatividade, sem entusiasmo…

“Ser normal é ser doente” (Kierkegaard). “Normalidade doentia” é a vida pequena, mesquinha, atrofiada…, é sempre fazer as mesmas coisas e não imaginar que elas poderiam ser realizadas de uma forma diferente; é a doença de praticar o que todos praticam sem refletir, sem questionar se existiria outra possibilidade de fazer. Faz as coisas de forma repetitiva, utilizando baixo potencial criativo.

Na pessoa “normal” predomina o dinamismo do medo e não do desejo.

A necessidade de mudanças gera insegurança, obscuridade no seu horizonte… Tende a ser uma pessoa medíocre, nada arrojada e sem desejos de romper seu estreito e limitado mundo.

Nem tudo na vida pode ser diferente, novo, rompedor. Mas existe o perigo de que tudo na vida seja convencional, rotineiro. Uma pessoa pode construir uma vida encapsulada em espaços feitos de hábitos e seguranças, situações estáveis, convivendo com pessoas que pensam e vivem do mesmo modo…

Com isso, ela acaba estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isto acontece, termina tendo perspectivas pequenas, visões incompletas, horizontes atrofiados e, provavelmente, ignorância sobre um mundo amplo, complexo e cheio de ricas possibilidades.

Somos “seres de travessia”; é próprio do ser humano ousar, romper, ir além… No entanto, não temos rotas formatadas; “ir em direção às águas mais profundas” é um bom momento para arriscar a viver uma experiência transformadora, aproximando-nos do diferente: abrir portas de mundos que desconhecemos; viver situações às quais não estávamos acostumados; sentir coisas que nunca havíamos sentido; conhecer lugares e pessoas que tornarão mais autêntica nossa travessia…

“Nós não nascemos humanos; nós nos tornamos humanos”, através de um investimento em nosso potencial de despertar e de auto-realização.

Nesse sentido, é normótica uma pessoa estagnada em seu processo de humanização, que não ativa seu potencial de inteligência e imaginação, de consciência ética, de transparência e integridade, que enterra seus talentos que lhe foram confiados…

Uma pessoa se humaniza quando abandona os trilhos “normais” previsíveis e penetra em trilhas criativas e inusitadas. O imenso desafio da existência humana implica na ousadia de transgredir, consciente e responsavelmente, as amarras da normalidade, romper as velhas rotinas consagradas e se aventurar no mar aberto da vida. Neste caso, a pessoa realmente saudável é a que expressa um certo desajustamento justo, uma rebeldia criativa, um impulso mobilizador…

“Dá-me, Senhor, capacidade e valentia para deixar o terreno conhecido, para sair do já sabido, para aprender cada dia aquilo que possa se tornar novidade, surpreendente, diferente” (oração Magis)

Jesus é o homem integrado, livremente tem acesso ao seu oceano interior e deixa emergir as ricas possibilidades, criatividades, inspiração… Ele traz o “novo” das profundezas do seu ser: novo ensinamento, novo olhar sobre a vida, nova atitude, novo compromisso…

Ao mesmo tempo, com sua presença instigante, Ele desperta, ativa e faz vir à tona o que há de mais humano nas pessoas. No caso dos pescadores, homens rudes, mas que carregam uma nobreza interior, Jesus os desafia a serem mais humanos. “Farei de vós pescadores de homens”. “Pescar homens” é trazer à tona o que de humanidade está escondido ou atrofiado em cada pessoa.

O apelo a lançar “redes em águas mais profundas” é ocasião para motivar a buscar a inspiração no oceano interior. Jesus convida aqueles pescadores, instalados numa maneira tradicional de pescar, a serem criativos na arte de pescar: sair da rotina, da maneira tradicional de pescar, buscar o novo e o diferente nas profundezas do mar…  Isso dá medo, mas faz a pessoa deslocar-se para o desconhecido, sair das margens conhecidas e seguras.

Do mar da Galiléia ao mar da vida: este é o movimento que Jesus desencadeia em todos nós. Ele desafia a que cada um mergulhe mais a fundo no oceano do coração e ali busque o humano que está escondido: novos sonhos, novas possibilidades, nova inspiração, novo sentido para a existência…

Para isso é preciso vencer o medo que atrofia tudo o que é humano em nós. Alargar nossos espaços interiores, sermos mais ousados e sonhadores, romper com o “normótico” e tradicional, ativar e des-velar o que está escondido. Assim, com nossa presença humanizadora, seremos capazes de pescar o “humano” que também está presente no outro.

Pedro e seus companheiros queriam algo novo; no entanto, romper com a normalidade na arte de pescar estava para além de suas possibilidades. Foi necessário que Alguém de fora os incitasse ao abandono daquele modo arcaico de pescar.

- você tem uma curiosidade sadia diante do novo e do desconhecido?

S. Inácio de Loyola, antes de fazer qualquer coisa, tinha o hábito de se perguntar: - O quê eu vou fazer? por quê vou fazer? para quem vou fazer? como vou fazer?

Referência:
Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);