VERONESE, Paolo. Baptism and Temptation of Christ (1580-82). Pinacoteca di Brera, Milan.

Lc 4,1-13– “Não é só de pão que vive o ser humano”.

1Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, 2onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome. 3Disse-lhe então o demônio: Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão. 4Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus (Dt 8,3). 5O demônio levou-o em seguida a um alto monte e mostrou-lhe num só momento todos os reinos da terra, 6e disse-lhe: Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero. 7Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. 8Jesus disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a ele só servirás (Dt 6,13). 9O demônio levou-o ainda a Jerusalém, ao ponto mais alto do templo, e disse-lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; 10porque está escrito: Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. 11E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra (Sl 90,11s.). 12Jesus disse: Foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16). 13Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião.

Comentando:

Após o batismo Jesus faz a experiência de sua vocação, dando conta da missão que o Pai lhe confiava e acolhe com todas as suas consequências. A missão comportava a salvação e a libertação total da humanidade, mas para atingir esta salvação, há um caminho e uma maneira de proceder. Jesus se faz solidário com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.

As tentações, na realidade, são o prolongamento do relato do batismo; e isso se vê claramente por uma série de detalhes que os Evangelhos apontam: é o Espírito, que pousou sobre Jesus no batismo, Aquele que O leva “imediatamente” ao deserto; a primeira tentação faz referência direta ao título “Filho de Deus”, proclamado no batismo… Desde o início, Jesus aparece como o homem que “se deixa conduzir”, a partir do centro, pelo Dinamismo divino – isso é o Espírito – precisamente porque não está identificado com seu eu. É o homem descentrado em quem o Espírito pode expressar-se com liberdade.

O tentador não propõe a Jesus que se afaste de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus…), senão, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a salvação.

De fato, os meios que o tentador apresenta são os meios, humanamente falando, mais eficazes que ninguém poderia imaginar: possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo a seus pés.

Quem resiste a um homem com tais meios?

Todos serão atraídos porque, em definitiva, terá entre suas mãos o poder total e o domínio absoluto.

Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão que procure atingir esse fim, usando os meios que são exatamente o oposto da solidariedade.

Mas Jesus rejeita a tentação do poder, porque para Ele, não há outro meio de salvação e libertação que a solidariedade até a extrema radicalidade.

A tríplice tentação condensa as “pulsões” mais importantes que o ser humano experimenta e que, quando alimentadas, podem afastá-lo do melhor de si: o ter, o poder e o prestígio (fama). Nesse sentido, Jesus não vive para seus interesses, mas em docilidade à Vontade de Deus; Jesus não é um Messias que se impõe pelo poder nem pelo êxito; a única força que o move é a fidelidade ao Pai e à missão.

Hoje estamos condenados, pelos meios de comunicação, a alcançar o sucesso custe o que custar, doa a quem doer, impedidos de realizar gestos de gratuidade e solidariedade. A Ética e a Moral são apenas conceitos idealistas que não correm mais nas nossas veias.

Por que ser transparente num mundo de pessoas opacas e “brilhantes”, que só querem ofuscar os outros com tanto brilho individual? A ideologia da vaidade é aquela que responde por essa ânsia de tudo ganhar, de comparar-se com os outros num ritmo frenético.

“Esta fome de prazer, de posse e de poder, esta sede de reconhecimento pelo êxito e admiração, esta é a perversão do homem moderno. Este é seu ateísmo. E assim o homem se converte num desgraçado e altivo semi-deus” (Moltmann).

As “tentações de Jesus” constituem a melhor mediação que dispomos para uma aproximação ao espaço de nosso próprio coração. E o coração é lugar onde se encontram dois impulsos: a) impulso para “ir além de si mesmo” – impulso de vida; b) movimento de retração-medo-apegos – impulso de morte.

O tempo Quaresmal ajuda a desvelar (tirar o véu, pôr às claras…) os dois impulsos… que se fazem presentes em nosso interior. Não se trata de alimentar uma luta entre eles, como um combate entre o bem e o mal; tampouco se trata de uma leitura moralista diante da presença das chamadas “tentações” (tendências, impulsos, inclinações… presentes em todos nós).

O seguimento de Jesus não é luta interna que desgasta, levando ao sentimento de impotência e desânimo. A questão de fundo é saber qual dos dois impulsos eu alimento; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-se conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito. Trata-se de sermos dóceis para deixar-nos conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendemos e não sabemos. O decisivo é “deixar-se conduzir”  pelo Espírito. Aqui não há engano.

A oração sobre as “tentações de Jesus” nos ajuda a tomar consciência das alianças e cumplicidades nas quais podemos cair em nossas relações com o mundo e com aqueles elementos que de modo mais decisivo põe em perigo nossa liberdade: as riquezas, o poder, o prestígio. É uma espécie de “embriaguez existencial” na qual a alteridade desaparece, a abertura a Deus se atrofia e a gratidão frente aos bens se esvazia.

No coloquemos em oração, conforme o tempo da Quaresma nos convida, para realizarmos com a alegria aquilo que o Espírito quer de nós.

Referência:
Comentário ao Evangelho do Pe. Adroaldo Palaoro,SJ (Curso EE – Colégio Santo Inácio-RJ);