1.      Será que há uma Mariologia em crise?

Comecemos nosso encontro perguntando se hoje há uma Mariologia em crise? – O que vocês acham? Pode-se dizer que há uma crise Mariológica? Uma falta de entendimento sobre o correto papel da Virgem Maria na História da Salvação?

Para entendimento vamos comparar a Mariologia a uma grande árvore frondosa. Não é necessário Podar esta árvore no outono para ter maior vigor na primavera?  Pois ao podarmos a nossa árvore, Conservamos a vida em seus vasos internos, onde correrá a seiva, o alimento vital, que fará que no momento correto a árvore de flor e fruto. A árvore não morre, apenas podamos seus galhos, retiramos aqueles que estavam quebrados, mas a seiva mantém viva a nossa árvore.

Neste caso, comparando com a nossa Mariologia, entendemos que a “piedade” e “devoção mariana” continuam com a vitalidade de sempre, são como a seiva da árvore. Passa o tempo, passa os Concílios, mas o que trazemos em nosso coração sobre a Virgem não cessa, não é arrancado e nem tirado.

Assim, como na árvore, também na Mariologia podemos perguntar: Por que foi necessária a poda? Entendendo esta poda como o Concílio Vaticano II, podemos entender que o Concílio, na Lumen Gentium capítulo VIII, nos fala de Maria, para que a Mariologia recupere sua vitalidade, que pode ser: uma crise de crescimento, renovação, retorno às origens etc…

Tendo como centro o Concílio Vaticano II em relação à Mariologia ou a partir da poda da árvore, como em nosso exemplo, podemos destacar três pontos de partida: Um Negativo, um Positivo e um a partir da Razão. Então, ter negativamente um olhar para a Mariologia, seria dizer: que “Deus não necessita de Maria para nos salvar, e, portanto, sua devoção é supérflua na Igreja”. Já pensar positivamente sobre a Mariologia seria “pretender agradar ao Senhor, e o isolar de Maria; na realidade estaremos negando a obediência da fé ao não aceitar seus desígnios”. E, ao fazer o uso da Razão para entendermos a Mariologia, “não se faz necessário deduzirmos logicamente o que é a graça, mas sim encontrarmos a coerência e a relação das verdades reveladas, que podemos fazer a partir de três caminhos”: Positivo, Sintético e Prático.

Ao fazer o uso da razão dentro de um caminho Positivo, será poder investigar os dados revelados a partir da Sagrada Escritura e Tradição e compreendê-los; Ao fazer um caminho Sintético, refletimos sobre o papel de Maria na História da Salvação; Já para uma reflexão prática, haverá entendimento da Vida de fé; Vida na Igreja; Vida Pastoral e Evangelizadora, com a transformação total, em cuja obra Maria foi o membro mais excelente.

 

2.      Um princípio “objetivo” de unificação sistemática?

Para um princípio objetivo, podemos fazer a seguinte pergunta: – o que queremos buscar de objetividade na Mariologia? A resposta será: – uma unificação, ou seja, unidade entre as diversas vertentes da mariologia ao longo do tempo, com isso estaremos buscando um sistema explicativo, utilizando a apologética cristã, apoiada nos escritos dos Padres da Igreja e Magistério, e assim, iremos apurando e unificando em um único caminho, que é a fé da Igreja.

Entendemos então, que os privilégios de Maria, são dons gratuitos e livremente decididos pelo Senhor, mostrando que a doutrina mariana não segue um esquema lógico, mas são os caminhos de Deus na história. Assim, podemos esquematizar três princípios na busca desta unidade sistemática: O Princípio Cristológico; Princípio Eclesiológico e a Síntese de Karl Rahner.

a)      Princípios cristológicos: Uma das vertentes que iremos estudar em nosso curso, será o mistério de Maria, segundo alguns autores, deve ser estudado em relação com seu Filho Jesus Cristo. Para isto podemos destacar dois sentidos: Típico e Ontológico.

  1. Sentido típico: Maria deveria ser considerada como a “segunda Eva” ao lado de Cristo, segundo Adão.
  2. Sentido Ontológico: Todas as graças de Maria derivam de sua Maternidade Divina “Theotókos”.

 

b)      Princípios eclesiológicos: Ter um olhar em Maria a partir de sua relação com a Igreja, isto é com o Corpo de Cristo, onde fazemos parte deste Corpo, como fiéis leigos em nossas diversas atividades Pastorais, Movimentos e Associações, onde podemos dividir este princípio em quatro vertentes:

  1. Sentido típico: Maria como protótipo da Igreja, ou seja, todos os privilégios de Maria são aplicados à Igreja, mostrando que ambas são santificadas e santificadoras.
  2. Princípio de Maternidade pela Fé: Maria é considerada o cume da fé, a partir da maternidade divina.
  3. Princípio da redenção subjetiva: Maria é o protótipo do cristão e o fruto mais perfeito da obra de seu filho.
  4. Princípio da Aliança: Com o seu “Fiat”, Maria iniciou a Nova Aliança entre o Pai e os homens.

 

c)      A síntese de Karl Rahner[1]: Maria, devido a sua Maternidade Divina, não tem apenas uma relação privada com a pessoa do Verbo encarnado; mas ocupa na história da salvação uma posição essencial, única e decisiva, ou seja, acolher a salvação em nome de toda a humanidade, como representante da Igreja.

 

3.      Possíveis excessos no estudo da Mariologia

  1. a.      Maximalista: Ressaltar Maria como o máximo possível em detrimento de Jesus. Estes excessos aconteceram anos antes do Concílio Vaticano II.
  2. b.      Minimalista: Muito utilizado pelos irmãos separados, para proteger a mediação única de Cristo.

 

1)      Exemplos de excessos a ser evitado:

  • Exagero na ontologia da maternidade divina. Colocá-la na ordem hipostática. Chamar a Virgem Maria de Deusa.
  • O teólogo Leonardo Boff no livro o Rosto Materno de Deus: Diz que o Espírito Santo teria assumido a natureza de Maria para formar com ela uma pessoa da Trindade. Para Boff há duas encarnações: A do Filho no homem-Jesus e a do Espírito Santo na Mulher-Maria.
  • Sublinhar demasiadamente Maria. Ex: como Co-Redentora;
  • Falar de Maria como princípio fontal da Igreja. Maria é Tipo.
  • Exagerar na ciência infusa, que a graça inicial de Maria deve ter superado a de todos os anjos e de todos os santos juntos.

2)      Algumas diretrizes para evitar excessos:

  1. Algumas tradições populares, que vão passando de  época em época, à luz da devoção popular. Ex.: Alguns apócrifos citam que Maria fez voto de virgindade aos três anos de idade, pois desde o seio de sua mãe (Sant’Ana), já gozava da ciência infusa.
  2. Democracia e popularidade não são critérios de uma verdade teológica, muito menos em matéria revelada.
  3. Simbolismos… Ex: Maria Rainha… Rainha do ponto de vista de seu serviço à Igreja (Redemptores Mater nº 41)
  4. Elementos afetivos como critério de verdade… Nossa imaginação, afeto.

 

4.      O Princípio metodológico do nosso curso

Contemplará alguns pressupostos e o próprio princípio do método. Desta forma podemos elencar os seguintes pressupostos de partida:

a)      Os privilégios de Maria são graças e são reconhecíveis pela revelação e continua vivo na Igreja sob a orientação do Magistério;

b)      Os dons e graças concedidos a Maria, como a todos os  cristãos, apontam para Jesus Cristo; Não há privilégios privados. A santidade é para ser comunicada.

c)      A unidade entre os privilégios concedidos a Maria visa por analogia da fé à construção da Igreja.

E, como o próprio princípio do método, podemos destacar:

a)      Que a vocação de Maria nos ensina a participar plenamente na obra libertadora de Cristo.

b)      Maria é a primeira evangelizada (quando recebeu o anúncio do anjo) e evangelizadora da Igreja.

c)      A resposta positiva de Maria é sua abertura a essa “boa nova”. Que pouco a pouco, e, em contato com a vida e a pregação de seu Filho, vai amadurecendo até chegar à sua consumação no mistério pascal, do qual ela participou plenamente apenas ao término de sua vida (Redemptoris Mater nº17).

Após esta Introdução, estaremos apresentando nosso curso dividido em três partes: Na Primeira Parte trataremos de Maria na Sagrada Escritura; na Segunda Parte apresentaremos Maria na Tradição da Igreja; e na Terceira Parte, falaremos sobre a Presença de Maria na Igreja Peregrina.

Uma boa leitura reflexiva será o texto: “O desenvolvimento do dogma na religião cristã” de São Vicente de Lérins.

A vocação é boa notícia, é evangelho, abertura de horizonte que Deus, em seu Filho, oferece ao homem” – C.M. Martini

Salve Maria, nossa Mãe na ordem da graça!

Eduardo Caridade

 

Bibliografia:

González, C.I., MARIA EVANGELIZADA E EVANGELIZADORA. Ed. Loyola, São Paulo, 1990.

Paulo PP.VI, Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática LUMEN GENTIUM, sobre a Igreja. Roma, 21 de novembro de 1964.

João Paulo PP.II, Carta Encíclica REDEMPTORIS MATER, sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho. Roma, 25 de março de 1987.


[1] Sacerdote Jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do século XX. Participou como teólogo no Concílio Vaticano II; criou a Revista Concilium; escreveu mais de 800 artigos e ensaios. Faleceu em 1984, aos 80 anos.