Nesta Eucaristia em que celebramos o nosso Pai Inácio de Loyola, à luz das leituras que ouvimos, eu gostaria de propor três simples pensamentos guiados por três expressões: 1) colocar Cristo e a Igreja no centro; 2) deixar-se conquistar por Ele para servir; 3) sentir a vergonha dos nossos limites e pecados, para sermos humildes diante d’Ele e dos irmãos.

1. O nosso brasão, dos jesuítas, é um monograma, o acrônimo de “Iesus Hominum Salvator” (IHS). Cada um de vocês poderá me dizer: nós o sabemos muito bem! Mas esse brasão continuamente nos lembra uma realidade que nunca devemos esquecer: a centralidade de Cristo para cada um de nós e para toda a Companhia, que Santo Inácio quis chamar justamente “de Jesus” para indicar o ponto de referência.

Além disso, também no início dos Exercícios Espirituais, ele nos coloca diante do nosso Senhor Jesus Cristo, do nosso Criador e Salvador (cf. EE, 6). E isso leva a nós, jesuítas, e a toda a Companhia a sermos “descentrados“, a estar diante do “Cristo sempre maior“, do “Deus semper maior”, do “intimior intimo meo”, que nos leva continuamente para fora de nós mesmos, nos leva a uma kenosis, a “sair do próprio amor, vontade e interesse” (EE, 189).

Não é evidente a pergunta para nós, para todos nós: Cristo é o centro da minha vida? Realmente coloco Cristo no centro da minha vida? Porque há sempre a tentação de pensar que nós estamos no centro. E quando um jesuíta coloca a si mesmo no centro, e não a Cristo, se equivoca. Na primeira leitura, Moisés repete com insistência ao povo que ame o Senhor, que caminhe nos seus caminhos, “porque Ele é a tua vida” (cf. Dt 30, 16.20). Cristo é a nossa vida!

À centralidade de Cristo corresponde também a centralidade da Igreja: são dois focos que não podem ser separados: eu não posso seguir Cristo senão na Igreja e com a Igreja. E também nesse caso, nós, jesuítas, e toda a Companhia não estamos no centro; estamos, por assim dizer, “deslocados“, estamos a serviço de Cristo e da Igreja, a Esposa de Cristo, nosso Senhor, que é a nossa Santa Madre Igreja Hierárquica (cf. EE, 353). Ser homens enraizados e fundados na Igreja: assim Jesus nos quer. Não pode haver caminhos paralelos ou isolados. Sim, caminhos de busca, caminhos criativos, sim, isso é importante: ir para as periferias, as tantas periferias. Para isso, é preciso criatividade, mas sempre em comunidade, na Igreja, com esse pertencimento que nos dá coragem para ir em frente. Servir a Cristo é amar essa Igreja concreta e servi-la com generosidade e espírito de obediência.

2. Qual é o caminho para viver essa dupla centralidade? Olhemos para a experiência de São Paulo, que também é a experiência de Santo Inácio. O Apóstolo, na segunda leitura que ouvimos, escreve: esforço-me para correr para a perfeição de Cristo “porque eu também fui conquistado por Jesus Cristo” (Fil 3, 12). Para Paulo, isso ocorreu no caminho de Damasco; para Inácio, na sua casa de Loyola; mas o ponto fundamental é comum: deixar-se conquistar por Cristo. Eu busco Jesus, eu sirvo Jesus, porque Ele me buscou antes, porque fui conquistado por Ele: e esse é o coração da nossa experiência. Mas Ele é primeiro, sempre.

Em espanhol, há uma palavra que é muito gráfica, que explica isso muito bem: ele nos primerea, Él nos primerea. É primeiro sempre. Quando nós chegamos, Ele já chegou e nos espera. E aqui eu gostaria de retomar a meditação sobre o Reino na Segunda Semana. Cristo, nosso Senhor, Rei eterno, chama cada um de nós, dizendo-nos: “Quem quer vir comigo deve trabalhar comigo, para que, seguindo-me no sofrimento, siga-me também na glória” (EE, 95): ser conquistado por Cristo para oferecer a esse Rei toda a nossa pessoa e todo o nosso esforço (cf. EE, 96); dizer ao Senhor que quer fazer tudo para o seu maior serviço e louvor, imitá-lo suportando também injúrias, desprezo, pobreza (cf. EE, 98).

Mas penso no nosso irmão na Síria neste momento. Deixar-se conquistar por Cristo significa estar sempre voltados para o que está diante de mim, para a meta de Cristo (cf. Fil 3, 14) e perguntar-se com verdade e sinceridade: o que fiz por Cristo? O que faço por Cristo? O que devo fazer por Cristo? (cf. EE, 53).

3. E chego ao último ponto. No Evangelho, Jesus nos diz: “Quem quiser salvar a própria vida vai perdê-la, mas quem perder a própria vida por minha causa, a salvará… Quem se envergonhar de mim…” (Lc 9, 23). E assim por diante. A vergonha do jesuíta. O convite que Jesus faz é de nunca se envergonhar d’Ele, mas de segui-Lo sempre com dedicação total, confiando e confiando-se a Ele. Mas, olhando para Jesus, como Santo Inácio nos ensina na Primeira Semana, sobretudo olhando para o Cristo crucificado, nós sentimos aquele sentimento tão humano e tão nobre que é a vergonha de não estar à altura; olhamos para a sabedoria de Cristo e para a nossa ignorância, para a sua onipotência e para a nossa fraqueza, para a Sua justiça e para a nossa iniquidade, para a Sua bondade e para a nossa maldade (cf. EE, 59). Pedir a graça da vergonha;  vergonha que vem do contínuo diálogo de misericórdia com Ele; vergonha que nos faz corar diante de Jesus Cristo; vergonha que nos põe em sintonia com o coração de Cristo que se fez pecado por mim; vergonha que põe em harmonia o nosso coração nas lágrimas e nos acompanha no seguimento cotidiano do “meu Senhor“.

E isso nos leva sempre, como indivíduos e como Companhia, à humildade, a viver essa grande virtude. Humildade que nos torna conscientes todos os dias de que não somos nós que construímos o Reino de Deus, mas é sempre a graça do Senhor que age em nós; humildade que nos leva a colocar tudo de nós mesmos não a nosso serviço ou das nossas ideias, mas sim a serviço de Cristo e da Igreja, como vasos de barro, frágeis, inadequados, insuficiente, mas nos quais há um tesouro imenso que levamos e que comunicamos (2Cor 4, 7).

Eu sempre gostei de pensar no ocaso do jesuíta, quando um jesuíta termina a sua vida, quando se põe. E sempre me veem dois ícones desse ocaso do jesuíta: uma clássica, a de São Francisco Xavier, olhando para a China. A arte retratou tantas vezes esse ocaso, esse final de Xavier. A literatura também, naquela bela peça de Pemán. No fim, sem nada, mas diante do Senhor; isso faz bem a mim, pensar nisso.

O outro ocaso, o outro ícone que me vem como exemplo, é o do padre Arrupe no último colóquio no campo dos refugiados, quando nos disse – algo que ele mesmo dizia –: “Eu digo isso como se fosse o meu canto do cisne: rezem“. A oração, a união com Jesus. E, depois de ter dito isso, tomou o avião, chegou em Roma com o derrame, que deu início àquele ocaso tão longo e tão exemplar.

Dois ocasos, dois ícones que fará bem a todos nós olhar e voltar a esses dois. E pedir a graça de que o nosso ocaso seja como o deles.

Queridos irmãos, voltemo-nos a Nossa Senhora, Ela que trouxe Cristo no seu ventre e acompanhou os primeiros passos da Igreja, nos ajude a colocar sempre no centro da nossa vida e do nosso ministério Cristo e a sua Igreja; Ela que foi a primeira e mais perfeita discípula do seu Filho, nos ajude a nos deixar conquistar por Cristo para segui-lo e servi-lo em toda situação; Ela que respondeu com a mais profunda humildade ao anúncio do Anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38), que faça sentir a vergonha pela nossa inadequação diante do tesouro que nos foi confiado, para viver a humildade diante de Deus.

Acompanhe o nosso caminho a paterna intercessão de Santo Inácio e de todos os Santos Jesuítas, que continuam nos ensinando a fazer tudo, com humildade, ad maiorem Dei gloriam.

Igreja de Gesù (Roma) – Quarta-feira, 31 de julho de 2013