Neste mês de novembro, a luz da dura luta de cuidar de uma pessoa idosa, temos acompanhado e sentido na pele as dificuldades da situação. Cada dia um flash, nos obrigando a abrir mão de várias coisas, pois o cansaço toma conta de nosso corpo, não permitindo um ir avante.

Ao mesmo tempo, recebo a Revista Itaici, voltada a Espiritualidade Inaciana, com vários bons artigos sobre a Escatologia e Exercícios Espirituais; saboreei as 96 páginas com muito zelo e atenção e partilho sobre o excelente artigo de Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), que nos fala sobre o “sentido escatológico da existência”.

O autor parte do contexto, de que o homem é um ser histórico, chamado a uma plenitude de vida em comunhão definitiva com o Pai, o Filho e Espírito Santo. Esse chamado não é postergado para um pós-morte, mas deve ser iniciado já nesta vida, em caminho da plenitude.

Nos chama atenção sobre a conversão, que é um voltar-se para Deus. Assim, a dimensão escatológica, é um chamado já presente para uma plenitude ainda não realizada, que deve ser vivido cada dia, marca a nossa existência, de tal modo, que somos envolvidos por ela. E, os chamados “novíssimos” – morte, inferno, juízo, paraíso – não são simplesmente realidades a acontecerem um dia, com grande surpresa nossa, mas são já vivenciadas, neste instante, na vida de cada um de nós.

Facilitando o entendimento, Dom Luciano nos propõe a reflexão em três momentos: 1) Perspectiva escatológica do Novo Testamento; 2) Individualização da escatologia; 3) Dimensão existencial.

Neste primeiro momento, voltemos nosso olhar para a Perspectiva escatológica do Novo Testamento:

Ambiente em que Jesus Cristo viveu está banhado na perspectiva de que Deus irá realizar um grande acontecimento libertador em favor de Israel;

O próprio Jesus, desde o início de sua vida, tinha consciência que Deus Pai – Javé – estava realizando uma grande obra;

A morte e ressurreição: o grande acontecimento escatológico, abre os olhos dos discípulos para o significado verdadeiro de Cristo;

Expectativa da segunda vinda: a experiência de Jesus morto e ressuscitado foi, para a comunidade, como um doce “quero mais”. Paulo, que não chegou a conhecer o Jesus da carne, mas viveu a experiência do Ressuscitado;

Crise: Jesus não vem. Primeiro momento surge a crise. Os cristãos vão compreendendo que o Reino de Deus é uma realidade que se começa a construir agora e que, o dia em que tal obra será consumado, fica reservado ao segredo de Deus (Mc 13,32).

Num segundo momento um olhar sobre a Individualização da escatologia:

A expectativa da iminência vai desaparecendo. O heroísmo dos martírios vai cedendo lugar para um tempo mais tranquilo. A preocupação do cristão volta-se mais para cada um. O problema moral torna-se mais grave, central.

A reinterpretação dos novíssimos em sua linha de morte pessoal, juízo particular, inferno, purgatório e céu, como realidades que nos afetam no momento de nossa morte. Pregações e meditações moralizantes tornam-se comuns. Apela-se ao medo para obter conversões. Houve um cansaço de tal perspectiva.

No terceiro momento um olhar sobre a Dimensão existencial:

Morte: Não é somente a realidade final de nossa vida; é uma dimensão de toda nossa existência; experimentamo-la na medida em que morremos para possibilidades. Na medida em que vamos vivendo, nós realizamos através de decisões, realizações, de outro, morremos para uma série enorme de possibilidades. A linha biológica vai subindo na linha de crescimento até certo ponto, depois começa a descida. Linha existencial pode descrever outra figura; dependerá muito das nossas decisões, de nosso histórico, do mundo que nos cerca.

Inferno: É uma experiência que já aqui; experimentamos momentos de profunda solidão, de fracasso. É uma experiência de inferno. Na medida em que caminho na linha do pecado, essas experiências vão crescendo em um processo de inferno, até que se radicaliza no “inferno” definitivo. As nossas experiências são aliviadas por experiências de amor, que atenua nosso inferno. No inferno definitivo, não haverá tais lenitivos.

Céu: Fazemos experiências de bem, de alegria, gozo, amor, sermos amados, de felicidade. São experiências de céu. Infelizmente, minadas pelo passageiro, pela incerteza da fidelidade do amanhã. Mas há, também, um crescendo na linha do céu até a plenitude.

Juízo: Quem não experimentou o sofrimento de ser julgado, mesmo com verdade? É duro quando a nossa miséria real aparece diante do olhar de alguém que amamos! Inicia-se aqui; o juízo vai sendo feito através da vida, até uma plenitude com o juízo definitivo de Deus. Aí aparecerá toda a verdade da história.

Purgatório: Quem, também, não experimentou a experiência de purificação, a falta e o perdão de quem se ama? A certeza de ser perdoado, juntamente, a vergonha de ter ofendido. Estava ele muito ligado ao prazer, ao gosto e ao gozo da pessoa amada, e eis que surge uma desinteligência, uma dificuldade, um sofrimento e nosso amor ou purifica-se ou acaba. Experiências de purgatório que vão nos preparando para a última purificação, quando o amor de Deus destruir em nós todo resquício do pecado, de egoísmo, iniciando, assim, a plenitude final da vida.

Concluímos com as palavras do apóstolo dos gentios, que nos fala do plano da salvação concluindo com um Hino de amor a Deus – Rm 8,28-39.

Deus é bom!

Eduardo Lopes Caridade