“Do seu ferimento a ostra faz surgir uma pérola. A dor que a dilacera, ela a transforma em jóia” (Richard Shanon)

filme: https://www.youtube.com/watch?v=JS6itpapX6A

O CONTO DAS TRÊS FALAS

O herói, um menino tolo, é enviado ao mundo pelo pai a fim de aprender alguma coisa. Por três vezes ele volta para casa e, quando o pai pergunta o que apren-deu, ele responde da primeira vez: – “pai, aprendi a fala do latido dos cães”; da segunda vez: – “pai, aprendi a fala do canto dos passarinhos”; e da terceira vez: “pai, aprendi a fala do coaxar das rãs”. O pai fica  extremamente aborrecido, porque não sabe o que fazer com esta arte.

O menino parte, então, em peregrinação e chega a um castelo onde deseja pernoitar. Mas o dono do castelo só tem lugar para ele na torre, onde moram os cães selvagens que já devoraram mais de uma pessoa. Mas o menino é corajoso; ele leva alguma coisa para comer e não tem medo de subir à torre.

Lá ele fala amigavelmente com os cães ladradores. E estes lhe revelam que só são ferozes assim porque são os vigias de um tesouro. E mostram-lhe o caminho para o tesouro, e ajudam-no a desenterrá-lo.

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O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com os “cães ladradores”, com nossas paixões, com nossos problemas, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto ladra dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente em nossas feridas nós descobrimos o tesouro escondido no fundo de nosso coração.

“Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen)

Ao encontrar-me com meus ferimentos, minhas fragilidades, minhas carências…, abro-me também para  o meu verdadeiro “eu” e descubro quem realmente eu sou.

Entro em contato com meu coração, descubro o tesouro do meu verdadeiro “eu”.

As feridas rasgam as máscaras que eu coloquei sobre mim, deixando aflorar minha real identidade.

Ao reconciliar-me com meus sofrimentos, ao considerar minhas feridas como minhas grandes amigas, eles me mostram o caminho para o tesouro que existe em mim.

Ali onde eu fui ferido, ali eu sou inteiramente eu mesmo; ali o meu “eu” se torna senhor, assume a palavra e dá nova direção à vida. No processo de reconstrução do verdadeiro “eu”, tem início a dinâmica da conversão e o caminho novo a ser trilhado.

Tradicionalmente, fomos coagidos a viver uma espiritualidade que nos ensinou a “prender os cães”  na torre e a levantar junto dela um edifício de “grandes ideais”.

E com isto, passamos a viver constantemente com medo de que os cães pudessem fugir e nos devorar.

A piedade cristã caracterizou-se, então pelo medo dos instintos que nos espreitam e das contínuas tentações. Com isso nos excluímos do prazer de viver, porque tudo é reprimido.

Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os “cães ladradores” tem muita força. Quando os prendemos, fica nos faltando a sua força, de que temos necessidade para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros. Somos obrigados a fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois poderíamos correr o risco de nos deparar com os cães perigosos. Quanto mais os amarramos, tanto mais perigosos eles se tornam.

No nosso caminho espiritual, o que importa é ter a coragem de entrar na torre e dialogar amigavelmente com os “cães ladradores”. Então eles irão nos conduzir ao chão e nos mostrar onde o tesouro está enterrado. Os cães ferozes poderão até nos ajudar a desenterrar o tesouro.

Este tesouro pode ser  “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu, a imagem que Deus faz de cada um de nós…”

“Entrar na torre” significa “buscar e encontrar a Deus” exatamente em nossas paixões, em nossos traumas, em nossas feridas, em nossos instintos, em nossa impotência e fragilidade…

Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar “ideais de perfeição”, mas dialogar com nossas paixões, nossas fragilidades, nossas carências…

Poderíamos nos interrogar o que é que Deus deseja nos revelar por meio delas, e como justamente através delas Ele deseja nos conduzir ao tesouro na torre de nossa vida.

Textos bíblicos:  Mt 13,44-46;  Prov 8,12-21;  Is 45,1-7;  Mt 6,19-21;  2Cor 4,7-13; Gen. 9,8-15;  Mc. 1,12-15

Só podemos encontrar o tesouro dentro de nós se descermos ao chão de nossa torre.

É normal que a pessoa se surpreenda frente a frente com um “eu” desconhecido, temido ou repudiado há tempo, uma espécie de parente pobre que chega de longe, das regiões sombrias do seu próprio “eu”, ao qual sequer imaginava que um dia teria de dar abrigo.

Muitos daqueles que querem alçar vôo e procurar o tesouro nas alturas, acabam caindo sem que jamais o encontrem. Outros correm atrás dos “ideais” exagerados e nunca entram em contato com o seu verdadeiro ser. Eles usam os “ideais” para satisfazerem sua ambição e vaidade.

Passam ao largo da verdadeira vida a que Deus os destinou.

Na oração“Seja humilde, pise com os pés no chão; acredite que a realidade é maior que seus preconceitos, e confie no milagre do viver. Basta desarmar-se e, solto, deixar o milagre acontecer”   (Frei Cláudio Van Balen)

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Gen 9,8-15: 8Disse também Deus a Noé e a seus filhos: 9“Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade, 10assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra. 11Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra.” 12Deus disse: “Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras: 13Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra. 14Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens, 15e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura.

Is 45,1-7: 1Eis o que diz o Senhor a Ciro, seu ungido, que ele levou pela mão para derrubar as nações diante dele, para desatar o cinto dos reis, para abrir-lhe as portas, a fim de que nenhuma lhe fique fechada: 2Irei eu mesmo diante de ti, aplainando as montanhas, arrebentando os batentes de bronze, arrancando os ferrolhos de ferro. 3Dar-te-ei os tesouros enterrados e as riquezas escondidas, para mostrar-te que sou eu o Senhor, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel. 4É por amor de meu servo, Jacó, e de Israel que escolhi, que te chamei pelo teu nome, com títulos de honra, se bem que não me conhecesses. 5Eu sou o Senhor, sem rival, não existe outro Deus além de mim. Eu te cingi, quando ainda não me conhecias, 6a fim de que se saiba, do levante ao poente, que nada há fora de mim. Eu sou o Senhor, sem rival; 7formei a luz e criei as trevas, busco a felicidade e suscito a infelicidade. Sou eu o Senhor, que faço todas essas coisas.

Prov 8,12-21: 12Eu, a Sabedoria, sou amiga da prudência, possuo uma ciência profunda. 13O temor do Senhor é o ódio ao mal. Orgulho, arrogância, caminho perverso, boca mentirosa: eis o que eu detesto. 14Meu é o conselho e o bom êxito, minha a inteligência, minha a força. 15Por mim reinam os reis e os legisladores decretam a justiça; 16por mim governam os magistrados e os magnatas regem a terra. 17Amo os que me amam. Quem me procura, encontra-me. 18Comigo estão a riqueza e a glória, os bens duráveis e a justiça. 19Mais precioso que o mais fino ouro é o meu fruto, meu produto tem mais valor que a mais fina prata. 20Sigo o caminho da justiça, no meio da senda da equidade. 21Deixo os meus haveres para os que me amam e acumulo seus tesouros.

Mt 13,44-46: 44O Reino dos céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. 45O Reino dos céus é ainda semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. 46Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.

Mt 6,19-21: 19Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. 20Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. 21Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.

Mc 1,12-15: 12E logo o Espírito o impeliu para o deserto. 13Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. 14Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: 15“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.”

2Cor. 4,7-13: 7Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós. 8Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. 9Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos. 10Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. 11Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. 12Assim em nós opera a morte, e em vós a vida. 13Animados deste espírito de fé, conforme está escrito: Eu cri, por isto falei (Sl 115,1), também nós cremos, e por isso falamos.