OBJETIVOS E OBJETO DA PRIMEIRA SEMANA

O objetivo da Primeira Semana é a integração do problema do mal – do mal pessoal – na realidade salvífica da fé, experimentando assim a verdadeira libertação que o Cristo Salvador proporciona. Como o pecado, com todas as suas consequências, é a matéria prima desta etapa, existe o risco de torna-lo seu objeto exclusivo. No entanto, o verdadeiro objeto da Primeira Semana é a História da Salvação, da própria salvação pessoal. A História da Salvação deverá iluminar, com toda sua força, o mistério do mal, conduzindo o exercitante à liberdade de Cristo Salvador.

A Primeira Semana é então uma dinâmica de conversão. Trata-se de viver a dupla experiência do mal e da misericórdia. São duas realidades inseparáveis. Uma desvela a outra, de tal modo que a consciência do mal leva a uma experiência da misericórdia e a experiência da misericórdia desperta a consciência do mal. Diante disso, as considerações sobre o pecado não pretendem despertar sentimentos doentios de angústia, nem fechar o exercitante nesta angústia, mas leva-lo a se encontrar com o Deus da Vida, fonte do perdão e da misericórdia.

Nesse contexto, as meditações sobre o pecado não visam a um exame de consciência para fazer uma boa confissão. Não são exercícios moralizantes nem apaziguadores da consciência, mas algo muito mais profundo. O exercitante vai descobrir em profundidade sua condição de pecador e trilhar um caminho que o tornará mais livre para dar novo modo e ordem à sua vida. São exercícios que, se bem feitos, com abertura à ação do Deus Misericordioso, o levam a uma vida de saúde espiritual, num processo de discernimento e conversão, que conduz à integração da própria vida na dinâmica do Princípio e Fundamento e ao compromisso com o serviço do Reino de Deus.

É importante ressaltar que a dinâmica da Primeira Semana é toda vivida diante do Crucificado. Em todos os exercícios a petição está centrada no sentido do pecado e o colóquio está centrado no sentido da misericórdia. Isso revela a dupla dimensão do mesmo fruto, que se exprime no colóquio do primeiro exercício, feito diante do Cristo na Cruz. Considerando a história da Salvação e do mal, o exercitante se sente chamado à humildade total e à inteira disponibilidade, geradas por esse amor sempre fiel a Deus, o Amor de todo Amor. Faz assim a experiência de ser impulsionado pelo Amor de Cristo, e se oferece a tudo que lhe pedir o seu Salvador e Senhor: Que devo fazer por Cristo? [EE 53] Assim, o movimento dos exercícios da Primeira Semana tem como efeito:

a)      Levar o exercitante a dar-se conta de que é pecador num mundo de pecado, pois sem o reconhecimento do pecado não há salvação;

b)      Essa percepção faz com que ele compreenda o peso que o pecado exerce sobre a liberdade interior;

c)      No encontro com a misericórdia irá, então, abrir-se para ser libertado e curado por Cristo, permanecendo desarmado diante da gratuidade do Amor de Deus.

Também é necessário perceber que o pecado gera um círculo de morte. O pecado pessoal passa para o âmbito social e faz mal ao ambiente. Mas ao mesmo tempo faz mal ao sujeito que, sendo responsável pelo pecado, também sofre suas consequências. Por isso, o exercitante deve perceber a extensão do seu pecado na pobreza, na injustiça, na opressão presentes no mundo, e tomar consciência da sua parcela de participação responsável em tal situação de morte. Nesse movimento, deve buscar sempre o rosto misericordioso de Deus que atua para salvar o mundo. O colóquio diante do Cristo na Cruz abre então a perspectiva de uma ação solidária e comprometida, motivada pela admiração e pelo agradecimento ao Senhor que entregou sua vida por toda a humanidade.

A Primeira Semana é composta de cinco exercícios [EE 45-72], que constituem uma única experiência espiritual. Há alguns complementos a esses que, por serem complementos, não significa que sejam menos importantes à composição do conjunto: Os Exames [EE 24-45], as Adições [EE 73-86], as Regras de Discernimento dos Espíritos para a Primeira Semana [EE 313-327] e as Notas sobre os Escrúpulos [EE 345-351]. Tudo forma uma unidade espiritual, que a cada passo leva o exercitante à contrição, pela abertura ao mistério da Graça e do perdão. Ele experimenta, junto com a vergonha e confusão, o consolo e a misericórdia de Deus. Experimenta-se pecador, e ao mesmo tempo intensamente amado. A experiência do Amor e da Salvação se dá exatamente no reconhecimento profundo de sua indigência e pecado. Desse modo, experimenta-se resgatado de onde nada poderia resgatá-lo a não ser a misericórdia de Deus Pai na entrega de seu Filho.

Fonte Revista Itaici nº 72 – junho de 2008 (pág. 6-8), artigo de Emmanuel da Silva e Araújo,SJ