A DINÂMICA DA PRIMEIRA SEMANA

Primeiro exercício: o mundo de pecados [EE 45-53]

Trata-se da meditação das três potências sobre o primeiro, o segundo e o terceiro pecado. A petição proposta, aquilo que o exercitante quer e deseja, é “vergonha”, porque deverá perceber que com os próprios pecados reforça a pecaminosidade do mundo, e “confusão” diante do absurdo do pecado que, à luz do Princípio e Fundamento, deve deixa-lo assombrado.

O Exercício se desenvolve fazendo com que o exercitante tenha uma visão ampla da história do pecado. Colocá-lo diante do universo dos anjos, do jardim do Éden e da humanidade decaída, visa leva-lo a perceber a presença do pecado na história e no mundo, que é anterior à experiência do mal na sua própria vida e a qualquer decisão pessoal. A realidade do pecado afeta a humanidade toda, mas também condiciona a pessoa individualmente. Cada ser humano é um dos que faz o mal, participa dele, propaga-o. Constrói seus deuses, centraliza-se em si, fecha-se sobre seus bens, riquezas e dons. Apropria-se deles e não partilha, usa tudo somente em benefício próprio. Usa o poder para dominar, faz do outro objeto e o exclui de seu universo. Fecha-se para Deus.

O 1º PONTO faz referência à meditação com as três potências, que voltará nos demais. Trata-se de aplicar a memória, a inteligência e a vontade e colocar a pessoa toda em movimento diante dessa realidade. A memória recorda a verdade que a fé revela, recuperando e trazendo à lembrança os acontecimentos e a história concreta do pecado. A inteligência pensa nas circunstâncias e pormenores do acontecimento para se dar conta desses. Contempla e se deixa impregnar pela Graça. A vontade procura tirar as consequências e mobilizar os afetos que transformam a pessoa e a levam a se converter ao Senhor Jesus e aos valores do Reino. É no coração que se dá a conversão, com respostas afetivas de louvor, contrição e adesão a Deus.

Nesse 1º PONTO, partindo de um relato que está fora ou acima de nossa história, o pecado dos anjos, o exercitante experimenta que o pecado consiste essencialmente em não querer receber os dons de Deus. No Princípio e Fundamento, a criação é um movimento de luz. O pecado dos anjos desencadeia as trevas. Há uma decomposição do Princípio e Fundamento, de modo que a liberdade, reverência e obediência dão lugar à soberba.

O 2º PONTO trata do pecado de Adão e Eva. Com ele o movimento das trevas entra na Terra, no mundo. Há referência clara à corrupção da história da humanidade, que pelo pecado perde a vida no paraíso e passa à vida de muitos trabalhos e sofrimentos. O pecado de Adão e Eva frustra a vocação do ser humano, destrói o seu Princípio e Fundamento.

No 3º PONTO, o pecado de uma pessoa mostra que escolher livre e definitivamente as trevas é jogar-se no inferno. A possibilidade do inferno é real, diante da gravidade e malícia do pecado, que faz perder de vista o Princípio e Fundamento.

Nos três pontos, o exercitante se vê diante da desordem e da degradação e confronta sempre os pontos propostos com sua realidade pessoal, vendo como seus muitos pecados colaboram para reforçar essa realidade de trevas. O colóquio se desenvolve com um olhar prolongado para o Cristo Crucificado. Aí está a resposta de Deus ao pecado: a Cruz de Jesus mostra até que ponto o ser humano pecador foi capaz de chegar – matou o Filho de Deus -, mas também até que ponto o Amor Redentor de Deus foi capaz de chegar – deixou que seu Filho se deixasse matar para nos salvar. Assim o diz Jesus: “ninguém tira a minha vida, mas eu a dou livremente” (Jo 10,18). Abre-se um horizonte positivo, que não paralisa o exercitante, mas desperta nele uma dinâmica de conversão. O Cristo Senhor está no centro, e o mundo nunca está em Cristo.

Segundo exercício: o processo dos pecados [EE 56-61]

Agora se trata de levar o exercitante a contemplar sua própria história de salvação, que começa com a realidade de seus pecados, reconhecendo a própria desordem e degradação: a malícia contemplada nos outros encontra-se em si mesmo. O exercício não deve converter-se numa pregação moralizante e nem numa contabilização de pecados. O objetivo é que o exercitante tome consciência da pecaminosidade presente em toda a sua vida, compreendendo o pecado como rompimento da relação pessoal de amor com Deus. Isso é muito mais profundo que uma lista de atos moralmente ruins.

O ritmo do exercício é de uma oração contemplativa. Aqui se trata de visualizar realidades objetivas: lugares, pessoas, conversas, trabalho, responsabilidades… É a tomada de consciência vendo, ponderando, considerando, perguntando, envolvendo a totalidade da pessoa frente à objetividade, à realidade concreta do pecado e de tudo aquilo que ele desencadeia. Esse ritmo contemplativo da oração desemboca na experiência de insuportável solidão diante do Criador e Senhor. Abre-se um abismo entre o pecador e Deus. A vergonha é confusão do primeiro exercício se convertem em dor e lágrimas. Porém não é manifestação de angústia, remorsos nem desespero. Assim mostra o colóquio, ao pedir-lhe a exclamação de afeto e gratidão diante da misericórdia de Deus que preserva sua vida e o recria no amor.

Terceiro e quarto exercícios [EE 62-64]

O terceiro exercício é uma repetição dos anteriores e inclui um tríplice colóquio [EE 63], o que, na dinâmica de Santo Inácio, indica a grande importância dada a matéria da oração. Aqui a petição, dividida em três pontos, dá o sentido do exercício: o exercitante pede conhecimento interno de sua desordem para aborrecer-se, emendar-se e ordenar-se, afastando-se das coisas “mundanas”. Trata-se, portanto, de dar novo rumo à sua vida, restaurando em si mesmo a ordem do Princípio e Fundamento. O quarto exercício é um resumo e inclui os mesmos três colóquios.

Quinto Exercício: Meditação do inferno [EE 65-71]

Esse exercício forma unidade com os anteriores com os quais compõem uma única experiência espiritual. Através dos 5 sentidos, envolve a pessoa toda, por meio da percepção, do conhecimento interno, do sentir e degustar a realidade, pedindo o esforço de concentração sobre o pecado, de cujas consequências não se pode escapar.

A graça pedida aqui visa colocar o exercitante diante da experiência sensível daquilo que é a separação de Deus, isto é, do pecado e sua consequência maior, o inferno, pelo sentimento interno da pena que padecem os condenados. É uma experiência espiritual concedida por Deus, destinada ao conhecimento sensível do pecado, para não cometer mais pecado grave, para purificar o amor e gerar fidelidade. Também pretende fazer com que o exercitante valorize mais profundamente o dom da salvação, a comunhão com Deus, e assim assuma uma atitude de gratidão.

O exercitante é levado a descobrir o dinamismo autodestrutivo do pecado: vazio, solidão, irracionalidade, escravidão – e a perceber que isso age contra a bondade de Deus. As consequências do pecado são a Cruz e o inferno, a perda concreta da Graça. Assim, o exercício conduz à experiência de uma sensação infernal, de modo que a atração pelo mal vai se transformar em repulsa. Mas não é ordenado para o medo, e sim para o louvor da misericórdia divina, para a consolação diante da experiência do perdão do Senhor que liberta e concede, imerecidamente, um tempo de graças para que a pessoa possa amá-lo e servi-lo.

A composição do lugar descreve o vazio em que se instala o pecador. O quadro, com imagens medievais típicas do imaginário e da cultura da época em que viveu Santo Inácio, pretende mostrar que cada pessoa deve representar sua condenação, não como uma possibilidade abstrata, mas como uma realidade existencial, consequência da sua própria rebeldia. Busca assim recuperar uma sensibilidade tal que, se a pessoa tivesse outros sentidosos de Nossa Senhora e os de Cristo [EE 248] – seria outra, viveria e atuaria de maneira diferente.

O 1º PONTO se refere à VISTA. Aqui se apresenta a dimensão estética do pecado: a feiura, a malícia, a corrupção que ele gera. O exercitante busca ver suas consequências em si: o desajuste, a desordem, a desarmonia, o fechamento. Ele deve também impressionar-se com tantas realidades infernais em que vive a humanidade.

O 2º PONTO se refere ao OUVIDO. O exercitante vai ouvir o grito no vazio que o surpreende, confunde, enche de ansiedade e medo. Ao se afastar do amor do Eterno Senhor, compartilhará e participará deste vazio infernal.

O 3º PONTO mostra ao exercitante, através do OLFATO, tudo aquilo que cheira mal, tantas realidades pecaminosas que ocultam a podridão e a degradação maquiadas para não serem sentidas e percebidas.

No 4º PONTO, pelo PALADAR, o exercitante busca sentir o gosto das coisas amargas, como lágrimas, aquilo que não provém da consolação, mas da amargura, da depressão, do remorso, da desolação causada pela situação de pecado.

Finalmente, no 5º PONTO, pelo TATO, vai tocar as chamas, sentir como envolvem e abrasam a alma pelo desespero da ausência de Deus.

Assim, através dos 5 sentidos o exercitante é introduzido numa realidade infernal, sensibilizando com a situação dura e mortal causada pelo pecado. A história do mal na vida de cada pessoa é o “não” a Deus que leva a uma situação de solidão e ausência do Criador e Senhor. Torna-se necessário agora que, pelo COLÓQUIO, o exercitante veja Cristo como o centro da história humana, chamando todos à salvação. Contemplando os que creram e os que não creram, irá dar graças a Deus por não tê-lo deixado cair, acabando com sua vida. Irá conversar com Cristo, Senhor da Misericórdia, cheio de gratidão pela salvação recebida.

Fonte Revista Itaici nº 72 – junho de 2008 (pág. 8 e 13), artigo de Emmanuel da Silva e Araújo,SJ