Introdução

Trabalho apresentado ao Programa de Complementação de Estudos em Teologia (PUC-RJ) como requisito parcial para obtenção do diploma de Bacharel em Teologia. Professor Cesar Augusto Kuzma

Respondendo à questão do trabalho final de Eclesiologia, nos foi solicitado um artigo, em torno de 2 páginas, respondendo a seguinte pergunta: “onde estamos e aonde vamos enquanto Igreja? – A ideia será apresentar os desafios (internos e externos) e visualizando luzes para este caminho.

A. Onde estamos enquanto Igreja?

A Igreja, cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, e na América Latina, oito após o Documento de Aparecida, tem uma continuidade histórica naquilo que o Cristo fez, proclamou e pregou, ou seja, está a serviço do Reino implantado por Jesus. Mas, enquanto se depara com desafios internos e externos, estamos passando por algo não experimentado desde o Concílio Vaticano II, uma Igreja disposta a debater temas uma vez considerados totalmente resolvidos, sem medo ou favorecimento, onde uma grande pluriformidade de opiniões presentes no seio da Igreja em todos os níveis. E, claro, nada disso teria sido possível sem a determinação e abertura do Papa Francisco.

Hoje, um dos pontos que demais afeta aos leigos é o clericalismo, que nos leva a ver uma Igreja apenas pelos lados do poder, da sua hierarquia e não do serviço, culpados são todos, clero e leigos e com isto toda a Igreja é prejudicada, pois não há favorecimento no desenvolvimento dos leigos; as vocações ficam encolhidas, não há comunhão, não há fraternidade. Por isto, hoje, não raro, temos tantos “cristãos sem Igreja”. No entanto, precisamos do testemunho de uma “Ecclesiam semper reformanda”.

A Igreja, como comunidade de fé, faz parte de uma sociedade, onde todos precisam conviver. Mas, não é fácil, face aos desafios do mundo atual. Pois, que sentido tem todo este crescimento tecnológico, se ao mesmo tempo, cresce a violência, desigualdades sociais, perda da dignidade? A Igreja não pode se subtrair a esta transformação global neste tempo de mudança. É neste mundo que ela tem de viver e não noutro. Então, o que parece ser crise grave pode ser hora de um nascimento e o que lembra ameaça sombria talvez seja a grande oportunidade.

B. Aonde vamos enquanto Igreja? Com desafios (internos e externos) e visualizando luzes para este caminho.

O Concílio Vaticano II foi um marco importante para a Igreja Católica, apontando uma Igreja que se propõe a entender a si mesma como mistério e sacramento (LG 1), sendo a Igreja sinal da ação de Deus no mundo, no serviço e no respeito a tudo e a todos (GS). Um Kairós que penetra e toca a Igreja e daqueles que ainda a procuram. Entre avanços e retrocessos, as propostas do Concílio Vaticano II fizeram a Igreja ser mais ousada e a buscar um ardor eclesial-pastoral-missionário, mais renovado.

Nos desafios internos a Igreja busca o diálogo e abertura de novas perspectivas revendo aspectos fundamentais de sua doutrina: a) resgate do retorno às fontes; b) resgate da categoria Reino de Deus e de uma cristologia encarnada, pois “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176); c) sensibilidade humana pelo outro; d) resgate da dimensão comunitária da fé; e) Nova concepção de salvação, não mais fora do mundo, mas dentro do mundo, inserida nele (vivida já em esperança) e para todos.

Já, para os desafios externos ganha importância o “diálogo”, para aceitar e entender os limites da própria Igreja, enquanto instituição. Vejamos: a) diálogo com as outras realidades e instituições; b) diálogo com os poderes políticos; c) diálogo com a ciência, com suas descobertas e verdades; d) diálogo com as novas questões do mundo moderno, principalmente no que toca as famílias; e) diálogo com as outras igrejas cristãs; f) diálogo com os não crentes e com as demais religiões.

O Concílio transforma a configuração eclesiológica: “A Igreja somos todos, não apenas os bispos e o Papa”, afirma Francisco (Catequese na Praça de São Pedro, em 03/set/2014), pois o Jesus pré-pascal, no decorrer de sua vida, não fundou Igreja alguma, nunca se dirigiu a um grupo especial, para separar o resto do povo, pelo contrário, Jesus acentua abertamente uma atividade que se recusa a evitar o mundo, e o seu amor pelos pecadores, que a ninguém exclui. Nem os partidários de Jesus, prontos à conversão, nem seus discípulos, por Ele chamados a uma imitação mais perfeita, constituíam já a “Igreja de Cristo” ou mesmo “novo Povo de Deus”. Só depois de Jesus ter ressuscitado de entre os mortos, a cristandade primitiva fala de Igreja. A Igreja, e neste sentido o novo Povo de Deus, é, pois, um dado pós-pascal.

A Igreja nasce do Cristo e a sua ação atinge a todos, sem exceção. Esta concepção pode ser vista como Igreja instituição e Igreja Povo de Deus, onde a referência não está mais do Universal para o Particular, mas ao contrário, do Particular para o Universal.

A Igreja vinda da base se constitui em comunidade, a Igreja Povo de Deus. O que vale agora é o que Une todos os fiéis e não mais as distinções e posições. O batismo passa a ser o sacramento mais importante, porque ele nos incorpora a Cristo e garante a todos a condição eclesial, inserindo a todos no corpo e na missão da Igreja.

Uma Igreja não triunfante, mas peregrina (LG 48), pois só assim ela será a Igreja de Cristo, ou seja, é a Igreja de Cristo subsistindo na Igreja Católica. E esta agora possui uma missão de serviço, não, jamais de conquista.

C. Coragem para encarar o futuro

Ninguém pode prever o futuro, pois este resulta de muitas decisões livres e imprevisíveis das pessoas. À Igreja foi prometida que os poderes da morte não a derrotarão e que ela existirá até o fim dos tempos (Mt 16,18; 24,20). Foi-lhe prometido o Espírito Santo; é ele que guia e conduz (Jo 14,26; 1526; 16,13), enquanto cristão temos esta certeza inabalável.

Despedir-se e partir. No futuro deveremos nos despedir de muita coisa familiar e querida. A Igreja do futuro será exteriormente mais pobre. Muita coisa indica que ela se converterá numa minoria, tomara que, qualitativa e criativa.

A Igreja só terá relevância e futuro se for insubstituível, se tiver identidade em si mesma e se souber quem e o que ela é como Igreja. A Igreja possui identidade com sinal escatológico. E, com este sinal a Igreja será um sinal de contradição e, salvo completo engano, o conflito entre o Reino de Deus e o reino deste mundo entra atualmente numa nova fase dramática.

Uma Nova Evangelização, obviamente não um novo Evangelho, mas expressa o mesmo Jesus Cristo nessa nova situação, mas de maneira nova, buscando nas fontes um Deus que é Deus dos seres humanos, que quer estar e habitar junto a nós, conosco, entre nós e dentro de nós.

O que precisamos na nova evangelização não são programas pastorais especiais de todo tipo. Mas, focar no essencial e fundamental e fazer com novo ânimo aquilo que de qualquer modo é feito, e por meio da martyríaleiturgíadiakonía, edificar a Igreja futuro adentro.

Martyría, leiturgía, diakonía acontecem na communio da Igreja e são expressões da communio da Igreja. E a Igreja enquanto communio é fraterna, dialógica e comunicativa.

Também importante caminho e irrevogável de uma Igreja do futuro, será a busca da verdade, do amor e da unidade, através do diálogo ecumênico, da mesma forma, apesar do diálogo difícil, será o inter-religioso. Mas, por meio desses diálogos na verdade e no amor, a Igreja enquanto povo escatológico de Deus poderá ser prefiguração e instrumento da paz escatológica (shalom) em meio aos conflitos de nosso mundo. Esta é a esperança, alegria em Deus, alegria na Igreja: Um Pentecostes renovado.

Referências bibliográficas, além das anotações em aula.

KUZMA, C. A Eclesiologia do Vaticano II (aspectos de um artigo em construção). Rio de Janeiro: PUC, 2015.

KUZMA, C. Minha experiência como Leigo na Igreja: depoimento prestado na 52ª Assembleia da CNBB, em Aparecida, no dia 01-05-2014.

KASPER, W. A Igreja Católica. São Leopoldo: Unisinos, 2012.

KÜNG, H. A Igreja (1º Volume). Lisboa: Moraes, 1967.

por Eduardo L. Caridade